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BIDEN PENSA GRANDE

12-02-2021 - Joseph E. Stiglitz

O presidente americano, Joe Biden, propôs um plano de resgate de US$ 1,9 trilião para ajudar a economia americana a se recuperar da pandemia. Muitos republicanos são contra o plano, subitamente consumidos com a religiosidade fiscal que abandonam sem cerimónia toda vez que o partido deles ocupa a Casa Branca. Os imensos cortes fiscais que o Partido Republicano concedeu a bilionários e empresas em 2017 resultaram nos maiores déficits fiscais já registados nos EUA, fora de épocas de recessão profunda ou guerra. Porém, o investimento e crescimento prometido nunca se concretizaram.

Em comparação, o plano de gastos proposto por Biden é desesperadamente necessário. Dados recém divulgados mostram uma desaceleração na economia da América em termos de PIB  e emprego. Há evidências mais que suficientes de que o pacote de recuperação fornecerá estímulos enormes à economia, e que o crescimento económico irá gerar significativas receitas tributárias, não só para o governo federal mas também para os Estados e municípios que hoje estão desidratados dos recursos de que precisam para oferecer serviços essenciais.

Com a mesma dissimulação, oponentes do plano Biden alertam para uma alta da inflação - aquele bicho-papão que hoje em dia é mais fantasia do que realidade. De facto, alguns dados sugerem que os salários podem estar caindo em alguns sectores da economia. Porém, se a inflação subir, os EUA têm diversas ferramentas monetárias e fiscais à mão.

A economia, sem dúvida, estaria melhor sem as taxas de juros zero. Ela também estaria melhor se os legisladores aumentassem impostos aplicando taxas sobre poluição e restabelecessem uma progressividade maior ao sistema tributário. Não há um motivo válido para os americanos mais ricos pagarem impostos menores como percentagem da renda deles do que aqueles que estão em situação muito menos confortável. Uma vez que os americanos ricos foram os menos prejudicados, em termos médicos ou económicos, pela pandemia de coronavírus, o sistema tributário regressivo da América nunca pareceu tão injusto.

Temos visto de que modo a pandemia está acabando com alguns sectores da economia, levando a índices elevados de fechamento de empresas, especialmente as pequenas. Há um risco verdadeiro de que não aprovar um pacote de recuperação amplo causará um estrago enorme, e possivelmente duradouro. Isto porque um fraco desempenho económico aumenta a ansiedade económica (agravando a ansiedade causada pela pandemia em si), levando a uma espiral descendente em que um comportamento cauteloso diminui o consumo e o investimento, enfraquecendo ainda mais a economia.

De fato, qualquer que seja o motivo, balancetes minguados e quebras de empresas alimentam um contágio que afectará a economia como um todo, desencadeando poderosos efeitos de histerese (termo usado em economia para designar efeitos que permanecem mesmo na ausência do factor que os causou). Afinal, as empresas que decretaram falência na pandemia não vão desquebrar quando a covid-19 estiver sob controlo.

O facto de a covid-19 ser uma pandemia – de alcance global – só piora a situação. Embora os dados mais confiáveis disponíveis sugiram que muitos países desenvolvidos e mercados emergentes não foram atingidos com tanta força  quanto as pessoas temiam que seriam há um ano, a desaceleração sem precedentes da economia mundial sugere uma demanda menor pelas exportações americanas.

Os países mais pobres não dispõem dos mesmos recursos para apoiar suas economias que os países desenvolvidos têm. A China desempenhou um papel importante na recuperação da crise financeira mundial de 2008; porém, embora o país asiático tenha sido a única economia grande que cresceu em 2020, sua recuperação foi notavelmente mais fraca do que no rescaldo da crise de 2008 (quando o crescimento do PIB anual superou 9% e 10% em 2009 e 2010, respectivamente). A China também está permitindo agora um aumento de seus déficits comerciais, dando menos fôlego ao crescimento global.

Como o plano Biden incorpore os elementos-chave do que deve ser feito, ele promete gerar grandes retornos. Uma prioridade inicial é garantir que recursos estejam disponíveis para combater a pandemia, facilitar que as crianças voltem à escola e permitir aos Estados e municípios que continuem a oferecer saúde, educação e outros serviços dos quais a população depende. Ampliar o seguro-desemprego não ajudará apenas os vulneráveis. Ao proporcionar uma garantia, a medida levará a um aumento de gastos, com benefícios por toda a economia.

A moratória nos despejos até 31 de Março e o auxílio às famílias de baixa renda também estimulará gastos. De modo mais geral, há tempos se sabe que os pobres têm uma tendência alta a consumir, de modo que um pacote direccionado a aumentar a renda nas camadas mais pobres (incluindo um aumento no salário mínimo, créditos para quem tem filhos e o crédito tributário sobre o rendimento)  ajudará a ressuscitar a economia.

No governo do presidente Donald Trump, os programas focados em pequenas empresas não foram tão eficientes quanto deviam ou poderiam ser – em parte porque grande parte da verba foi para empresas que não eram pequenas de fato, e em parte graças a uma sucessão de problemas administrativos. Parece que o governo Biden está resolvendo estes problemas. Se estiver mesmo, ampliar o auxílio às empresas não só ajudará no curto prazo, mas também colocará a economia em uma situação confortável à medida que a pandemia diminui.

Sem dúvida os economistas questionarão cada elemento do projecto do programa – quanto dinheiro deveria ir aqui ou ali; qual deveria ser o limite para receber auxílio em dinheiro; e os gatilhos ideais para reduzir o programa de seguro-desemprego. Pessoas razoáveis podem discordar quanto a estes detalhes. Ajustá-los é em parte de que são feitos os acordos políticos.

Porém, onde não deve haver discussão é que grandes quantidades de dinheiro são necessárias urgentemente, e que ser contra isso é desumano e perigosamente mesquinho.

JOSEPH E. STIGLITZ

Joseph E. Stiglitz, vencedor do prémio Nobel de economia e professor da Universidade de Columbia, é economista-chefe do Instituto Roosevelt e ex-vice-presidente sénior e economista-chefe do Banco Mundial. Seu livro mais recente é People, Power and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent.

 

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