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Entendo o potencial anticovid da América

11-09-2020 - Simon Johnson

Para escapar das garras de uma pandemia, um país necessita de três coisas. Antes de mais nada, precisa compreender suficientemente a doença, inclusive como ocorre sua transmissão. Segundo, precisa de acesso à tecnologia que permitirá uma solução científica: cura, vacina ou outro modo eficaz de impedir a transmissão. E terceiro, precisa ser capaz de pagar pelo que necessita ser feito.

No fim das contas, se resume a economia. O governo está investindo o suficiente na criação de conhecimento científico básico? Há cientistas competentes o bastante no país para desenvolver um entendimento da doença e de sua progressão, e para absorver ideias de pesquisadores e médicos em outros lugares? Há um aparato de saúde pública com recursos adequados para cuidar das contingências à medida que surgirem? E todo mundo consegue pagar para se proteger?

A pandemia mais devastadora de que se tem registo é a Peste Negra - a onda de peste bubónica que varreu a Europa no século 14, matando talvez um terço da população. Ninguém à época tinha ideia da causa: muito provavelmente, uma bactéria transmitida por moscas que atacavam ratos. Antes da ciência moderna revelar a causa dos surtos de doenças, os humanos estavam em grande parte indefesos contra patógenos.

Em meados do século 19, um avanço grande havia acontecido, em parte por causa do domínio do microscópio. Mas ainda não havia consenso sobre como refinar o conhecimento científico em uma tecnologia antidoença, como no caso dos remédios farmacêuticos. Ao longo do século seguinte, o investimento em campanhas públicas de saúde de grande escala eventualmente trouxe infra-estrutura sanitária, água limpa e vacinação contra a maioria das doenças infantis. A saúde pública contemporânea chegou a um auge de eficiência e prestígio nos anos após a Segunda Guerra Mundial, com a erradicação da malária e da poliomielite no mundo desenvolvido.

Infelizmente, nós nunca entendemos totalmente como oferecer a todos acesso a um bom serviço de saúde a preços acessíveis. Isto vale até mesmo nos Estados Unidos, a maior economia do mundo, e o país está hoje sofrendo as consequências.

Os EUA não têm problema com o conhecimento científico. A natureza do risco era conhecida dos epidemiologistas do país em Janeiro, e os pesquisadores desde então aprimoraram seu entendimento sobre o novo coronavírus. Enquanto potenciais vacinas e curas ainda estão em estudos, pelo menos desde Abril os EUA tiveram acesso a tecnologia suficiente, na forma de testes de diagnósticos de grande escala feitos em laboratórios, para fazer a doença recuar.

Só que alguém precisa pagar pelos testes. O verdadeiro custo marginal de cada teste do vírus é de menos de US$ 20, e sem dúvida os testes em grupo poderiam baixar o preço para US$ 5 por teste. Infelizmente, no sistema americano, o preço de “mercado” tem de ser pago, e em muitas regiões do país, este valor é de US$ 100 ou mais por teste. Com especialistas recomendando testes semanais de vírus – ou até mesmo duas vezes por semana –, quem consegue pagar isso?

É verdade que, se você tem sintomas de covid-19 nos EUA, supostamente o teste hoje deveria ser de graça - coberto pelo seu plano de saúde ou, na falta dele, pelo governo. Acontece que derrotar a pandemia exige testes de rotina para todos, inclusive os assintomáticos. Este é o tipo de “vigilância” de saúde pública que muitas universidades vêm estabelecendo para proteger todos no campus. Algumas universidades estão usando seus próprios laboratórios para este fim ou apoiando o desenvolvimento de laboratórios privados de baixo custo - somando-se à capacidade nacional de testagem de um ou outro jeito. Além disso, alguns programas públicos significativos, como o Stop the Spread (em inglês, “Pare a Transmissão”) de Massachusetts, oferecem testes gratuitos em potenciais áreas de alto risco.

Contudo, como a maioria das pessoas não consegue pagar por testes de alta frequência, elas e as pessoas à sua volta são deixadas sem protecção. Quase não há soluções de testagem criadas para apoiar professores, funcionários, estudantes e famílias em creches e no ensino básico.

O Congresso americano reconheceu este problema logo no início, e designou US$ 25 bilhões durante a primavera com o propósito específico de tornar a testagem mais amplamente disponível. Porém, segundo o Departamento Americano de Saúde e Serviços Humanos, de 85% a 90% deste dinheiro continua intocado.

Sem dúvida, os EUA deveriam ter investido mais dinheiro em ciência nas últimas décadas, definido um serviço de previsão de vírus e patógenos, e construído sistemas de saúde pública resilientes com base em diagnósticos mais baratos. No entanto, mesmo que os EUA não adoptasse nenhuma destas medidas, o país ainda poderia limitar o dano causado pela pandemia.

Talvez US$ 25 bilhões não seja suficiente para cobrir todas as necessidades de testagem americanas neste estágio. Ou talvez formas melhores de testes - em casa, com mais precisão, a um custo menor - sejam descobertas. E talvez o Centro Americano de Controle e Prevenção de Doenças não devesse vacilar - de modo confuso e potencialmente enganoso – em suas orientações sobre testes.

Mas esta crise - a pandemia de maior abalo gl obal em mais de  600  anos – caminha para causar o maior desastre económico dos tempos modernos. Portanto, sejamos realistas. Gastem os U$ 25 biliões disponíveis nos testes que já existem. Usem o poder de gastos do governo para negociar preços menores, enquanto permitem um valor razoável de retorno do investimento para os laboratórios que vêm trabalhando arduamente para expandir. Construam a infra-estrutura necessária para apoiar os testes em grupo. Comprem testes o bastante para proteger todas as pessoas que precisam trabalhar presencialmente. Implementem um programa de saúde pública abrangente baseado nestes testes.

Nada disso é difícil, como outros países têm mostrado. E não há necessidade de uma nova legislação ou alocação de recursos. Os EUA têm tudo que qualquer país precisa para conter a pandemia - a não ser a liderança para fazer isso acontecer.

SIMON JOHNSON

Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, é professor da Sloan School of Management do MIT e co-presidente da COVID-19 Policy Alliance. Ele é o co-autor, com Jonathan Gruber, de Jump-Starting America: How Breakthrough Science Can Revive Economic Growth and the American Dream.

 

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