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A desvinculação cultural da China prejudicará os EUA

28-08-2020 - Minxin Pei

A “desvinculação” é crucial para o duelo geopolítico entre Estados Unidos e China. Concebida e promovida pelos falcões da administração do presidente Donald Trump, essa estratégia se tornou a principal ferramenta dos EUA para enfraquecer o poderio chinês.

O primeiro ato da separação – a guerra comercial sino-americana que começou em 2018 – reduziu substancialmente o comércio bilateral. Um processo semelhante está agora em pleno andamento no sector de tecnologia, com os Estados Unidos conduzindo uma implacável campanha contra os gigantes chineses da tecnologia, como Huawei e ByteDance (o proprietário do popular aplicativo de vídeo TikTok). Com o governo Trump ameaçando retirar as empresas chinesas das bolsas de valores dos EUA, caso não dêem aos auditores americanos acesso aos seus registos de auditoria na China, a desvinculação financeira também já começou.

Embora ainda não se saiba se a dissociação económica será bem sucedida em conter a China, a lógica estratégica pelo menos parece convincente. Como a China se beneficia de seus laços económicos com os EUA, cortá-los inevitavelmente enfraquecerá o crescimento chinês.

Infelizmente, os falcões sino-americanos não se contentam em parar por aí, mas também querem cortar os laços culturais e educacionais dos Estados Unidos com a China – como mostram suas recentes acções. No início deste ano, a pressão dos legisladores republicanos forçou o Corpo da Paz, que já enviou mais de 1.300 americanos à China desde 1993, a encerrar seu programa no país. E em Julho, Trump suspendeu o programa Fulbright dos Estados Unidos na China continental e em Hong Kong como parte de um pacote de sanções dos EUA em resposta à repressão do governo chinês aos habitantes da cidade.

Da mesma forma, no final de Maio, dois legisladores republicanos propuseram um projeto de lei para proibir cidadãos chineses de virem aos Estados Unidos para realizar estudos de pós-graduação nas chamadas disciplinas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). E em 13 de Agosto, o Departamento de Estado dos EUA designou o Confucius Institute US Center, entidade patrocinada pelo governo chinês que oferece programas de idiomas, como uma “missão estrangeira”, o que quase certamente resultará no encerramento de suas actividades nos EUA.

O jornalismo sofreu a ruptura mais rápida. Depois que o Wall Street Journal publicou um comentário no início de Fevereiro com uma manchete que se referia à China como "o verdadeiro doente da Ásia", o governo chinês expulsou três jornalistas que trabalhavam para o jornal. Os EUA retaliaram no início de Março, forçando 60 cidadãos chineses que trabalhavam para meios de comunicação estatais chineses nos Estados Unidos a deixar o país. A China então  expulsou  todos os cidadãos americanos que trabalhavam para o New York Times , Wall Street Journal e Washington Post, prejudicando efectivamente a capacidade de obtenção de notícias dessas publicações no país.

Cortar laços culturais, educacionais e jornalísticos entre EUA e China é imprudente e contraproducente para os EUA. Em vez de promover objectivos estratégicos de longo prazo dos EUA, promovendo valores americanos e mantendo a moral elevada, a administração Trump está jogando o jogo do governo chinês, que considera esses laços como canais para a infiltração ideológica e cultural americana.

Sem programas de intercâmbio patrocinados pelo governo, como o Corpo da Paz e os esquemas da Comissão Fulbright, os Estados Unidos não terão canais directos para engajar o cidadão chinês comum, especialmente os jovens. Por meio desses programas, os americanos ensinam inglês, história e literatura americanas e ciências sociais ocidentais, geralmente em áreas remotas da China que têm contacto limitado com o mundo exterior.

Essas actividades ajudam o povo chinês a obter uma compreensão mais correcta dos Estados Unidos e contribuem para neutralizar a propaganda oficial antiamericana. Eliminar esses programas equivale, portanto, ao desarmamento ideológico unilateral pelos EUA.

Parece razoável que exista alguma retaliação dos EUA contra a intimidação chinesa aos jornalistas americanos. Mas a expulsão desproporcional de 60 jornalistas chineses pelo governo Trump deu ao governo chinês uma desculpa para fazer algo que há muito queria fazer: expulsar os melhores repórteres americanos.

A represália das expulsões em massa de jornalistas americanos e chineses afectará muito mais os Estados Unidos que a China. Enquanto os repórteres dos meios de comunicação estatais chineses nos Estados Unidos fazem poucas reportagens sérias independentes que possam educar o público chinês, os jornalistas americanos que cobrem a China – apesar do constante assédio e vigilância por parte do governo chinês – fornecem informações valiosas sobre o país. A perda desses canais minará a capacidade dos formuladores de políticas dos EUA de acompanhar a evolução dos acontecimentos importantes na China.

Por fim, impedir que estudantes chineses de pós-graduação estudem disciplinas de STEM nos Estados Unidos privaria os Estados Unidos dos maiores talentos nessas áreas e ajudaria no progresso da China. Em vez disso, estudantes chineses talentosos irão para outros países desenvolvidos para estudar – e muitos deles voltarão para casa, porque as oportunidades de carreira relacionadas às STEM’s fora dos EUA não são tão abundantes.

Embora a China se beneficie dessa fuga reversa de cérebros, os EUA perderão as contribuições de dezenas de milhares de engenheiros e cientistas. Dos 31.052 PhDs concedidos em todas as áreas STEM nos EUA entre 2015 e 2017, os estudantes chineses ficaram com 16% do total, incluindo 22% dos PhDs em engenharia e 25% daqueles em matemática. Além disso, cerca de 90% dos estudantes chineses de ciência e engenharia permanecem nos Estados Unidos por pelo menos dez anos após concluírem o doutorado – o índice mais alto de qualquer nacionalidade.

As relações EUA-China estão à beira do colapso. A desvinculação económica já é uma realidade, e a separação cultural liderada pelos Estados Unidos – perspectiva impensável há não muito tempo – pode acontecer em breve. Isso seria uma tragédia, e os EUA serão quem mais irá perder.

MINXIN PEI

Minxin Pei é professor de governo no Claremont McKenna College e bolsista sénior não residente do German Marshall Fund dos Estados Unidos.

 

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