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Moeda COVID?

14-08-2020 - Kenneth Rogoff

À medida que a crise do COVID-19 acelera a mudança que há muito ocorre com relação ao abandono do dinheiro vivo (pelo menos em transacções legais’ em conformidade com os impostos), as discussões oficiais sobre moedas digitais estão se aquecendo. Entre o iminente lançamento da Libra do Facebook e a moeda digital proposta pelo banco central da China, os eventos de hoje podem remodelar as finanças globais por uma geração. Um recente relatório do G30 argumenta que, se os bancos centrais desejam moldar o resultado, precisam começar a agir rapidamente.

Muito está em jogo, incluindo a estabilidade financeira global e o controle da informação. A inovação financeira, se não for cuidadosamente administrada, geralmente está na raiz de uma crise, e o dólar oferece aos Estados Unidos significativos recursos de monitoramento e sanções. O domínio do dólar não é apenas sobre qual moeda seja usado, mas também sobre os sistemas que compensam as translações e, da China à Europa, há um desejo crescente de contestar isso. É aqui que muita inovação está acontecendo.

Bancos centrais podem adoptar três abordagens distintas. Uma é fazer melhorias significativas no sistema existente: reduzir as tarifas de cartões de crédito e débito, garantir a inclusão financeira universal e actualizar os sistemas para que os pagamentos digitais possam ser liquidados em um instante, não em um dia.

Os EUA estão muito atrasados em todas essas áreas, principalmente porque o lobby bancário e financeiro é muito poderoso. Para sermos justos, os formuladores de políticas também precisam se preocupar em manter seguro o sistema de pagamentos: o próximo vírus que atingir a economia global pode muito bem ser digital. A reforma muito rápida poderia criar riscos inesperados.

Ao mesmo tempo, qualquer esforço para manter o status quo deve oferecer espaço para novos participantes, sejam “moedas estáveis” atreladas a uma moeda principal, como a Libra do Facebook, ou tokens resgatáveis de plataformas que grandes empresas de tecnologia de varejo como Amazon e Alibaba possam emitir, apoiados pela capacidade de gastar em mercadorias que as plataformas vendem.

A abordagem mais radical seria uma moeda dominante de banco central de varejo, que permita aos consumidores manter contas directamente no banco central. Isso poderia oferecer grandes vantagens, como garantia de inclusão financeira e eliminação das corridas aos bancos.

Mas mudanças radicais também trazem muitos riscos. Uma é que o banco central está mal posicionado para fornecer serviços de qualidade em pequenas contas de varejo. Talvez isso possa ser resolvido com tempo, usando-se inteligência artificial ou expandindo-se os serviços financeiros oferecidos por agências dos correios.

De fato, quando se trata de moedas digitais de bancos centrais de varejo, economistas se preocupam com um problema ainda maior: quem fará empréstimos a consumidores e pequenas empresas se os bancos perderem a maioria de seus depositantes de varejo, que constituem sua melhor e mais barata fonte de tomada de empréstimos?

Em princípio, o banco central poderia emprestar ao sector bancário os fundos que obtém de depósitos em moeda digital. Isso daria ao governo, no entanto, uma quantidade excessiva de poder sobre o fluxo de crédito e, finalmente, o desenvolvimento da economia. Alguns podem ver isso como benefício, mas a maioria dos banqueiros centrais provavelmente tem profundas reservas quanto a assumir esse papel.

Segurança é outra questão. O sistema actual, no qual os bancos privados desempenham papel central nos pagamentos e concessão de empréstimos, existe no mundo há mais de um século. Claro, houve problemas; mas, apesar de todos os desafios que as crises bancárias criaram, quebras sistémicas na segurança não têm sido o principal problema.

Especialistas em tecnologia alertam que, apesar de toda a promessa de novos sistemas criptográficos (nos quais muitas novas ideias se baseiam), um novo sistema pode levar de 5 a 10 anos para "ficar no ponto". Que país gostaria de ser  cobaia financeira?

A nova moeda digital da China oferece uma terceira e intermediária visão. Como o relatório do G30 descreve com mais detalhes do que o anteriormente disponível, a abordagem da China envolve a substituição da maioria das moedas de papel, mas não a substituição dos bancos. Em outras palavras, os consumidores ainda manteriam contas nos bancos, que, por sua vez, manteriam contas no banco central.

Quando os consumidores querem dinheiro vivo, no entanto, em vez de receber papel-moeda (que rapidamente está se tornando obsoleto nas cidades chinesas), eles recebem tokens em sua carteira digital no banco central. Como dinheiro, a moeda digital do banco central pagaria zero juros, dando às contas bancárias remuneradas uma vantagem competitiva.

Obviamente, o governo pode mudar de ideia mais tarde e começar a oferecer juros; os bancos também podem perder a vantagem se o nível geral de taxas de juros entrar em colapso. Essa estrutura retira o anonimato da moeda em papel, mas muitas autoridades monetárias, incluindo o Banco Central Europeu, discutiram ideias para a introdução de pagamentos anónimos de baixo valor.

Por último, mas não menos importante, uma mudança para as moedas digitais facilitaria a implementação de taxas de juros profundamente negativas, que, como há anos tenho argumentado, ajudariam bastante a restaurar a potência da política monetária em crises. De uma maneira ou de outra, o mundo pós-pandemia se moverá muito rapidamente em termos de tecnologias de pagamentos. Os bancos centrais não podem bancar esse atraso.

KENNETH ROGOFF

Kenneth Rogoff, professor de Economia e Políticas Públicas da Universidade de Harvard e vencedor do Prémio Deutsche Bank em Economia Financeira de 2011, foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional de 2001 a 2003. Ele é co-autor de Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira e autor de A maldição do dinheiro.

 

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