Edição online semanal
 
Domingo 20 de Setembro de 2020  
Notícias e Opnião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

A covid-19 vai matar o dinheiro?

07-08-2020 - Howard Davies

Há quatro anos, Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, apresentou um argumento convincente para acabar com as cédulas de dinheiro. Em seu livro The Curse of Cash (A Maldição do Dinheiro, na edição em português), Rogoff argumentou que cédulas de dinheiro em excesso, principalmente as de valores elevados, facilitavam a sonegação de impostos e alimentavam o tráfico de drogas – nas duas pontas da cadeia de abastecimento: um estudo britânico de 1999 descobriu que só quatro de cada cinco cédulas testadas em Londres não tinha traços de cocaína.

Mais que isso, a existência de dinheiro limita a política monetária. É mais difícil para um banco central implementar uma taxa negativa de juros quando o investidor tem a opção de manter um cofre abastecido com notas de US$ 100. Parecia um raciocínio difícil de compreensão para alguns à época, mas a crise da covid-19 vem colocando as taxas negativas de juros de modo decisivo na pauta da política económica de vários países, ainda que isso não esteja acontecendo nos Estados Unidos.

Desde o livro de Rogoff, o dinheiro vem batendo em retirada como mecanismo de pagamento. Na Suécia, por exemplo, a extinção das cédulas de coroa parece próxima. O sistema móvel de pagamentos Swish domina o cenário das notas de pequeno valor. Como qualquer pessoa que tenha tentado comprar cerveja recentemente em Estocolmo sabe, se você estiver com a carteira forrada de dinheiro, vai continuar com sede.

A crise da covid-19 também está dando às pessoas outro motivo para manter distância do papel-moeda. Foi amplamente divulgado que o vírus podia ser transmitido pelas notas, o que levou vários estabelecimentos a colocar avisos de “não aceitamos dinheiro”. Na minha vila, agora até a van de fish and chips só aceita cartão. De fato, há pouca ou nenhuma veracidade na história de terror. A Organização Mundial da Saúde já disse que não há evidência de que  cédulas de dinheiro transmitam coronavírus. O vírus dura praticamente o mesmo tempo nos cartões de plástico, e Christine Tait-Burkard, especialista em doenças contagiosas da universidade de Edimburgo, disse que dinheiro não é um vetor de doenças “a menos que alguém esteja usando as notas para assoar o nariz”.

Mas o estrago já estava feito e, no primeiro mês da crise, o uso de dinheiro impresso no Reino Unido caiu mais de 60%. O volume de transacções chegou à metade. Em uma pesquisa, cerca de 75% dos participantes disseram que esperam usar menos dinheiro no futuro.

Esta tendência, que vem se repetindo por todo o mundo desenvolvido, deu um incentivo ainda maior aos bancos digitais e prestadores de serviços de pagamento não-bancários. A Apple Pay e o PayPal estão indo bem. Os neobancos e fintechs continuam a ampliar sua base de usuários, embora muitos continuem a questionar se elas já chegaram a um modelo de negócios sustentável. A moeda Libra, do Facebook, está pronta para descolar, com seus apoiantes tentando convencer os órgãos regulatórios de que o modelo é seguro e está de acordo com os protocolos anti-lavagem de dinheiro.

O declínio ainda maior do dinheiro vem dando muito mais fôlego ao trabalho dos bancos centrais com moedas digitais. Com as cédulas, há séculos cidadãos e empresas têm se visto como proprietários directos de cada banco central. Se o dinheiro desaparecesse, não seria esse um argumento para uma moeda digital dos bancos centrais, seja para atacado, varejo ou os dois? Um relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) diz que diversos bancos centrais estão activamente cogitando criar uma, embora nenhum tenha feito isso até agora. O banco sueco Riksbank pode muito bem ser o primeiro, com a e-coroa pronta para ser lançada.

Ou seja, o adeus ao dinheiro de papel está próximo? Será que até mesmo as verdinhas vão seguir o mesmo destino dos que caminham sobre a terra?

A resposta não é tão clara. Em primeiro lugar, ainda que o número de transacções realizadas por meio de transferências em dinheiro de fato venha caindo, mesmo no volume mais baixo, o volume de cédulas em circulação de fato continuou aumentando em muitos países. Desde o fim do ano passado, segundo o BIS, o valor do câmbio em circulação vem crescendo a 8% na Itália e 7% nos EUA. O armazenamento preventivo de dinheiro vem crescendo. Traficantes e sonegadores de impostos não são os únicos que acham interessante dinheiro físico como uma reserva de valor e que valorizam privacidade. Entre as maiores economias, apenas a China está começando a ver um declínio absoluto na relação moeda física ante o PIB.

Há também sinais de retaliação política contra o recuo no número de locais que aceitam dinheiro. O Banco do Canadá está pedindo ao comércio que continue a aceitar papel-moeda, alegando preocupações com exclusão financeira, uma vez que pessoas sem acesso a contas em banco e cartões se vêem impossibilitadas de fazer compras. Nova York, São Francisco e o Estado de Nova Jersey estão proibindo lojas de recusar dinheiro. Na Suécia mesmo, os usuários do Swish ainda não ganharam o jogo. Um grupo activista chamado Kontantupproret (Rebelião do Dinheiro) vem fazendo campanha para manter a possibilidade de uso de papel-moeda pelos consumidores mais pobres. No Reino Unido, o governo tem publicado relatórios sobre o “acesso ao dinheiro”, em que recomenda a manutenção obrigatória de um grande número de caixas electrónicos no país, ainda que seu uso venha caindo rapidamente.

Em resumo, talvez seja cedo para encomendar a alma da nota de um dólar. A procura por serviços continua grande. Pode fazer sentido para os bancos centrais oferecer serviços digitais para não-bancos, talvez em parte para evitar a perda de receita com a senhoriagem, o que enriqueceria o Facebook, em vez dos governos, num mundo dominado pela Libra. Porém, a menos que os bancos centrais também queiram entrar no negócio de concessão de crédito, eles vão querer evitar uma desintermediação do sistema bancário em larga escala.

Suspeito que, no futuro próximo, iremos viver em uma espécie de sistema de pagamento de economia mista. O dinheiro continuará a ter seu papel, embora mais modesto que no passado, ao lado de uma série de cartões e transferências digitais directas.

HOWARD DAVIES

Howard Davies, o primeiro presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido (1997-2003), é presidente do Royal Bank of Scotland. Foi director da London School of Economics (2003-11) e actuou como vice-governador do Banco da Inglaterra e director-geral da Confederação da Indústria Britânica.

 

Voltar 


Subscreva a nossa News Letter
CONTACTOS
COLABORADORES
 
Eduardo Milheiro
Cordenador
Marta Milheiro
   
© O Notícias de Almeirim : All rights reserved - Site optimizado para 1024x768 e Internet Explorer 5.0 ou superior e Google Chrome