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Aprenderão as Universidades com os Bloqueios?

17-07-2020 - Kenneth Rogoff

Será que o COVID-19 finalmente desencadeará a disrupção tecnológica  há muito esperada no ensino superior? Em todo o mundo, repentinos bloqueios no meio do período lectivo destinados a combater a pandemia, forçaram as universidades a passar quase da noite para o dia para o ensino a distância. Mas, embora essa repentina transição tenha sido difícil para professores e alunos, algo de bom ainda podem surgir.

Como muitas empresas, as universidades estão lutando para reiniciar as actividades e vem adoptando uma série de estratégias. Por exemplo, a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, anunciou que suas palestras serão todas apenas on-line até pelo menos meados de 2021. Outras, incluindo a  Universidade de Stanford, estão oferecendo um mix de aulas presenciais e on-line, bem como prolongando seu ano lectivo para que menos estudantes venham ao campus a qualquer hora.

Não nos enganemos: o COVID-19 representa um enorme golpe económico para o ensino superior. Alojamentos dos estudantes estão desocupados, estádios desportivos continuam vazios e alunos se recusam a pagar por seus estudos. Para muitas faculdades e universidades, é provável que a queda na receita de estudantes estrangeiros, especialmente chineses, seja dolorosa; várias escolas menores com menos recursos podem vir a fechar.

Até mesmo as melhores universidades enfrentam desafios. A Universidade de Michigan prevê uma perda induzida pela pandemia de até US$1 bilião  até o final de 2020, enquanto a Universidade de Harvard projecta um déficit na receita de US$ 750 milhões para o próximo ano.

Mas será que o choque do COVID-19 poderá, por fim, ajudar a proporcionar melhor educação a mais pessoas a um custo menor? A resposta dependerá em parte de as universidades deixarem a tecnologia de lado à medida que a pandemia for diminuindo, ou então buscarem as melhores maneiras de aproveitá-la. Esse não é um desafio fácil, dada a importância das interacções entre professores, estudantes de pós-graduação e universitários, dentro e fora da sala de aula.

Quando fiz pós-graduação, 40 anos atrás, eu estava convencido de que o aprendizado por vídeo (a tecnologia da época) remodelaria o ensino universitário. Afinal, pensei, por que os estudantes de todo o mundo não poderiam ter acesso aos melhores palestrantes e materiais, principalmente porque, de qualquer maneira, as palestras presenciais no campus para 200 alunos ou mais oferecem um espectro extremamente limitado para interacção pessoal, não é?

Certamente, o ensino em sala de aula ainda teria um papel importante a desempenhar. Os professores ainda desenvolveriam seus materiais didácticos e responderiam perguntas. Na ocasião, eu não poderia prever palestras gravadas para atender turmas menores (embora os materiais gravados possam, é claro, funcionar também nesse cenário). Mas, embora seja emocionante assistir pessoalmente a uma óptima aula, certamente uma boa palestra gravada é melhor do que uma presencial medíocre.

Se avançarmos rapidamente quatro décadas, no entanto, o progresso tem sido limitado. Uma provável causa é a governança da universidade: são os docentes quem administram essas instituições e poucos tendem a seguir um caminho que reduziria a demanda por seus serviços. Sem dúvida, os professores também se preocupam com o fato de as aulas gravadas dificultarem a procura de emprego por parte dos estudantes de pós-graduação. E os estudantes de pós graduação, com disposição e novas ideias, são os principais impulsionadores da pesquisa.

As mudanças demográficas há muito exercem pressão sobre as matrículas nas faculdades. Mesmo que alguns professores (como de ciência da computação) ainda vejam uma grande demanda, para muitos outros, o número decrescente de estudantes certamente amplia a resistência às novas tecnologias que economizam trabalho.

Mas talvez o maior obstáculo seja o alto custo da produção de palestras gravadas de alta qualidade que satisfaçam alunos tanto quanto aulas presenciais. Produzir até uma única palestra para consumo em massa é uma proposta arriscada e demorada. E como as palestras gravadas são muito facilmente clonadas, fica difícil cobrar preço alto o suficiente para cobrir os custos. Uma infinidade de start-ups de educação (incluindo muitas na área de Boston  e arredores, onde moro) está tentando resolver esses problemas, mas até agora não conseguiram causar impacto no sistema.

Portanto, parece razoável perguntar se o governo dos Estados Unidos deveria arcar com os custos de criação de materiais básicos para palestras pré-gravadas ou on-line em determinadas áreas. (O mesmo poderia ser feito para cursos para adultos.) Em particular, os materiais introdutórios do curso on-line em assuntos apolíticos, como matemática, ciências da computação, física e contabilidade, deveriam ser os principais candidatos a financiamento federal.

Muitas outras disciplinas académicas, certamente incluindo a economia, meu próprio campo, também têm um grande potencial online. O candidato presidencial democrata dos EUA Joe Biden agora apoia tornar o ensino universitário grátis, o que anima alguns professores. Mas, em vez de expandir o sistema universitário existente nos EUA, o financiamento federal para o aprendizado online não seria um caminho mais justo e eficiente, especialmente por que ele poderia ajudar adultos de todas as idades?

O ensino superior confere aos alunos uma variedade de habilidades e conhecimentos importantes para a vida, ajuda-os a levar uma vida mais rica e completa e, espera-se, transforma-os em melhores cidadãos. Mas está longe de ser óbvio que todos os diferentes aspectos do ensino superior, incluindo aprendizado de habilidades e desenvolvimento social e intelectual, precisam ser agrupados da maneira que agora o são. Os alunos precisam estar juntos, mas não necessariamente o tempo todo.

Praticamente todos concordam que ampliar o acesso ao ensino superior é uma das melhores maneiras de corrigir a desigualdade e que isso pode ajudar a tornar a sociedade mais justa e produtiva. Também é essencial em um mundo onde a tecnologia e a globalização (ou hoje, talvez a desglobalização) exijam maior sentido de adaptação e possivelmente reciclagem para atender às mudanças na demanda do mercado de trabalho.

É provável que a crise do COVID-19 traga mais mudanças velozes e de longo alcance no campo económico que nos envolve. Mas não precisamos nos apavorar com essas mudanças se a pandemia também impulsionar uma transição para um ensino superior melhor e mais universal.

KENNETH ROGOFF

Kenneth Rogoff, professor de Economia e Políticas Públicas da Universidade de Harvard e vendecor do Prémio Deutsche Bank em Economia Financeira de 2011, foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional de 2001 a 2003. Ele é co-autor de Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira e autor de A maldição do dinheiro.

 

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