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A lógica política dos erros estratégicos da China

17-07-2020 - Minxin Pei

Algumas das políticas recentes do governo chinês parecem fazer pouco sentido prático, sendo a sua decisão  de impor uma lei de segurança nacional a Hong Kong um excelente exemplo. A promulgação apressada da lei com o carimbo do Congresso Nacional do Povo da China, a 30 de Junho, encerra efectivamente o modelo de “um país, dois sistemas” que prevaleceu desde 1997, quando a cidade passou do domínio britânico para o chinês e as tensões entre a China e o Ocidente aumentaram acentuadamente.

O futuro de Hong Kong como centro financeiro internacional está agora seriamente ameaçado, ao passo que a resistência dos moradores determinados a defender a sua liberdade tornará a cidade ainda menos estável. Além disso, a última jogada da China ajudará os Estados Unidos a persuadir os aliados europeus vacilantes a unirem-se à sua coligação nascente contra a China. As consequências a longo prazo para a China serão, provavelmente, terríveis.

A ideia de os principais erros de cálculo das políticas da China serem uma consequência da concentração excessiva de poder nas mãos do presidente Xi Jinping é tentadora: o governo de um homem forte inibe o debate interno e torna mais provável a tomada de decisões erradas.  Este argumento não está necessariamente errado, mas omite uma razão mais importante para as políticas autodestrutivas do governo chinês: a mentalidade do Partido Comunista da China (PCC).

O PCC vê o mundo como uma selva, acima de tudo. Tendo sido moldado pela sua própria luta sangrenta e cruel pelo poder contra adversidades impossíveis entre 1921-49, o partido está firmemente convencido de que o mundo é um lugar hobbesiano onde a sobrevivência a longo prazo depende unicamente do poder bruto.  Quando o equilíbrio dos poderes é contra, o PCC tem de confiar na esperteza e na cautela para sobreviver. O falecido líder chinês, Deng Xiaoping, resumiu apropriadamente este realismo estratégico com o seu ditado sobre política externa: “esconde a tua força e dá tempo ao tempo”.

Assim, quando a China prometeu na Declaração Conjunta de 1984 com o Reino Unido manter a autonomia de Hong Kong durante 50 anos após a entrega em 1997, estava a agir mais por fraqueza do que por acreditar no direito internacional. Como o equilíbrio dos poderes mudou a seu favor desde então, a China esteve sempre disposta a violar os seus compromissos anteriores quando isso serve os seus interesses.  Além de reprimir Hong Kong, por exemplo, a China está a tentar solidificar as suas reivindicações nas áreas disputadas do Mar da China Meridional, construindo aí ilhas artificiais militarizadas.

A visão do mundo por parte do PCC também é influenciada por uma crença cínica no poder da ganância. Mesmo antes de a China se tornar a segunda maior economia do mundo, o partido estava convencido de que os governos ocidentais eram meros lacaios dos interesses capitalistas.  Embora esses países possam professar lealdade aos direitos humanos e à democracia, o PCC acreditava que eles não poderiam dar-se ao luxo de perder o acesso ao mercado chinês – principalmente se os seus rivais capitalistas tivessem lucro como resultado disso.

Agora, esse cinismo permeia a estratégia da China de afirmar o controlo total sobre Hong Kong. Os líderes chineses esperam que a raiva do Ocidente pelas suas acções desapareça rapidamente e calculam que o facto de as empresas ocidentais estarem fortemente documentadas na cidade não permita que os perigos do estado policial da China sejam um motivo para haver quebra de confiança.

Mesmo que o PCC saiba que sofrerá sérias penalidades pelas suas acções, raramente se retrai ao tomar medidas – tal como a repressão a Hong Kong – consideradas essenciais para manter o seu poder. Os governos ocidentais esperavam que ameaças credíveis de sanções contra a China fossem um poderoso impedimento à agressão do PCC contra a cidade. Mas, a julgar pela falta de respeito que China mostrou ter pelo Ocidente, e especialmente pelos EUA e pelo presidente Donald Trump, esse não foi obviamente o caso.

Estas ameaças ocidentais não têm falta de credibilidade ou substância: sanções abrangentes que abrangem viagens, comércio, transferências de tecnologia e transacções financeiras podem prejudicar seriamente o bem-estar económico e o prestígio chinês de Hong Kong. Mas as sanções impostas a uma ditadura geralmente causam mais danos às vítimas do regime do que aos seus líderes, reduzindo assim o seu valor dissuasivo.

Até há bem pouco tempo, a aquiescência do Ocidente face à assertividade chinesa parecia ter confirmado a visão de mundo hobbesiana do PCC. Antes da ascensão do Trumpismo e da subsequente mudança radical na política dos EUA em relação à China, os líderes chineses praticamente não encontraram nenhuma resistência, apesar de repetidamente exagerarem nos seus actos.

Mas a China finalmente encontrou um adversário equiparado no Trump e nos seus falcões da segurança nacional. À semelhança dos seus homólogos em Pequim, também o presidente dos EUA e os seus conselheiros não só acreditam na lei da selva, como também não têm medo de exercer poder bruto contra os seus inimigos.

Sendo assim, infelizmente para o PCC, ele tem agora de enfrentar um adversário muito mais determinado. Pior ainda, a disposição dos EUA de absorver enormes sofrimentos económicos a curto prazo para obter uma vantagem estratégica a longo prazo sobre a China indica que a ganância perdeu a sua primazia. Em particular, a estratégia dos EUA de “dissociar”– rompendo a densa rede de laços económicos sino-americanos – apanhou a China totalmente de surpresa, porque nenhum líder do PCC jamais imaginou que o governo dos EUA estivesse disposto a desprezar o mercado chinês em prol de objectivos geopolíticos mais amplos.

Pela primeira vez, desde o final da Revolução Cultural, o PCC enfrenta uma ameaça existencial genuína, principalmente porque a sua ideologia levou-o a cometer uma série de erros estratégicos calamitosos. E a sua última intervenção em Hong Kong sugere que não tem intenção de mudar de rumo.

MINXIN PEI

Minxin Pei é professora de governo na Claremont McKenna College e membro sênior não residente no Fundo Marshall alemão dos Estados Unidos.

 

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