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HISTÓRIAS – XLVIII

03-04-2020 - Henrique Pratas

Venho-vos contar a minha primeira ida há ilha das Berlengas, isto aconteceu no Verão de 1967, tinha eu 11 anos.

A aventura adivinhava-se tentadora e ao mesmo tempo curiosa, mal sabia eu o que estava para me acontecer.

Ao tempo as partidas ocorriam de Peniche, no local onde as outras embarcações de pesca “estacionavam”.

A embarcação era uma traineira transformada em qualquer coisa para levar pessoas, assim que entrei reparei que por debaixo dos bancos onde nos iriamos sentar vi uns baldes como utilizamos nas nossas casas para apanhar a água, ou para fazer outro tipo de limpezas, achei estranho mas não me desmanchei.

A distância de Peniche às Berlengas é significativa, a embarcação quando sai do porto de Peniche não nos dá conta do que irá acontecer.

Chegados ao mar mais batido é que foram elas, como lhes referi a embarcação era uma traineira transformada para poder levar pessoas, aí logo me apercebi para que eram os baldes colocados debaixo dos bancos, eram para as pessoas vomitarem ou chamarem pelo gregório. Posso-lhes dizer que tive medo porque a embarcação até chegarmos às Berlengas foi sempre a apanhar porrada de tal modo que eu em vez de vir na popa da embarcação me fui colocar junto há casa das máquinas, precisamente no meio da embarcação e via tudo as ondas vinham e esta descia a cava e eu a ver logo a outra onda que vinha a seguir, pensei que a embarcação não subiria a próxima onda, tal era a sua dimensão, o medo foi muito até chegar às Berlengas.

Ao tempo era acompanhado pela minha mãe, pelo meu tio e pelo seu filho mais novo.

Quando chegámos às Berlengas as coisas acalmaram mas os baldes tiveram o seu uso e não foi pouco, eu por acaso aguentei-me e não cheguei a vomitar.

Quando atracámos nas Berlengas, reparei que a proa da embarcação estava completamente lascada, tamanhos tido sido os embates que esta sofreu até lá chegar, apanhei mar como nunca tinha apanhado na minha vida, mas como costumamos dizer há sempre uma primeira vez para tudo e foi desta vez que senti pela primeira vez que nós não somos rigorosamente nada se o zé salgado quisesse tinha-nos engolido com a maior das facilidades e ninguém daria conta desse facto.

Como lhes escrevi a proa da embarcação estava completamente lascada a madeira que a compunha estava completamente partida, tal tinha sido a tormenta.

Bem passado este episódio havia que desfrutar daquelas praias com água cristalina e apanhar os meus banhos de Sol, nessa altura não me lembrei que no final do dia teria que fazer a viagem de regresso, as crianças têm esta vantagem não pensam no que lhes poderá acontecer a seguir.

Nadei, dei mergulhos da única prancha que ainda hoje existe na enseada onde as embarcações atracam, nadei nessa enseada onde a água era cristalina e a areia muito branca.

Nesse tempo existiam uns pescadores que com os seus pequenos barcos faziam visitas guiadas às grutas que existiam e ainda existem na parte rochosa da ilha e que apenas se podem visitar quando a maré estava baixa, porque em caso contrário nem sequer se consegue lá entrar. Quem nos guiou foi um pescador com muita experiência, mas digo-lhes a mesma é claustrofóbica porque se não se tem, em conta a subida da maré não saímos de lá ou saímos já sem vida. Foi uma experiência inesquecível, mas eu estava deserto que ela acabasse, pois temia que a maré começasse a encher e depois era muito complicado.

Acabou a visita às grutas e no ano seguinte só para poderem avaliar do risco que é fazer estas “viagens” o pescador que nos tinha levado mais umas pessoas acabaram por morrer nessas mesmas grutas única e exclusivamente porque arriscaram a maré já estava a encher e eles continuaram, foram apanhados numa gruta e nunca mais saíram de lá, ou saíram já cadáveres.

O final de tarde estava a terminar e a hora do regresso aproximava-se, aí começaram as minhas dores de barriga seria que a viagem de regresso iria ser o mesmo tormento, cheguei mesmo a dizer há minha mãe e ao meu tio que eu ficava lá, eles com a sua persuasão é que me disseram para ir que a viagem não seria igual, só que eu não acreditava.

A nervoseira era muito ao entrar para a mesma embarcação que nos levara, os baldes continuavam lá e eu não estava nada convencido que não iria acontecer o mesmo episódio de ida para as Berlengas, apesar de toda a gente me dizer o contrário, mas como nós dizemos gato escaldado de água fria tem medo.

Bem, com todas as minhas interrogações e medos lá entrei para dentro da embarcação, sentei-me na popa, muito duvidoso e cheio de medo, mas o mar tem destas coisas a viagem em direção decorreu como eu nunca esperaria o mar estava chão e a embarcação fez a viagem sem qualquer percalço como tinha ocorrido na viagem de ida, a meio da viagem comecei a tranquilizar-me e vi que a situação não se iria repetir, mas só me tranquilizei quando coloquei os pés em terra.

Esta foi uma das minhas primeiras experiências em termos náuticos, onde aprendi que nós não somos rigorosamente nada, a natureza faz de nós o que quiser e nós não temos meios para lhe fazer frente, podemos atenuar as consequências mas controlá-las completamente é perfeitamente impossível.

Hoje a viagem é completamente diferente eu já lá fui depois e não foi nada do que me aconteceu, porque as embarcações que começaram a fazer estas viagens foram construídas para o efeito.

Henrique Pratas

 

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