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Notícias e Opnião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

HISTÓRIAS – XXVIII

30-08-2019 - Henrique Pratas

Estávamos em 1969 quando ocorre a primeira greve digna dessa nome na CARRIS (Companhia de Caminhos de Ferro de Lisboa), que ao tempo era de capitais ingleses, independentemente das condições que eles davam aos trabalhadores, existiam determinadas reivindicações que deviam ser feitas, com o intuito de igualar as condições de trabalho aos ingleses.

Esta tomada de posição dos trabalhadores portugueses da CARRIS face há intransigência da Administração da Empresa, na altura inglesa, decidiu – se pela realização de uma greve que paralisou toda a Companhia, já nesta altura o Governo Português fazia pressão para que fossem reduzidas as condições de trabalho e as remunerações aos funcionários da empresa que comparativamente com as outras eram muitas, uma das que quiserem retirar era perfeitamente ridícula e que se referia ao facto de retirarem aos trabalhadores a capacidade que possuíam de poder tomar banho nas estações onde tinham sido instaladas casas de banho com condições que permitiam aos trabalhadores fazerem a sua higiene pessoal, quer fosse de manhã quando iniciassem as suas funções e ao final do dia quando as mesmas fossem terminadas.

Esta medida fora tomada pelos ingleses pois queriam que os seus trabalhadores andassem a fazer a prestação de serviços para a empresa em boas condições de higiene perante os seus clientes, como na altura na cidade de Lisboa a maior parte das habitações em Lisboa, não possuíam casas de banho condignas, os ingleses decidiram criar este benefício para os seus trabalhadores, ao tempo era uma regalia social muito avançada para a época que levou o setor da construção civil a construir habitações com casa de banho dignas desse nome. Esta alteração gerou na sociedade portuguesa algum mal-estar, pois implicou na altura alguma pressão no Governo português que era conservador e construía habitações sem condições para a maior parte dos seus habitantes da cidade.

Convém aqui recordar que em Lisboa muitos dos trabalhadores viviam em bairros de lata, sem o mínimo de condições para viverem, partilhando o espaço com ratazanas e outros animais rastejantes, dado que o preço do arrendamento das habitações rodava os 700$00 escudos mensais, valor insuportável para a maior a maior parte dos casais portugueses, por isso algumas empresas como a CARRIS, criaram condições de vida que os portugueses não possuíam.

Como lhes referi anteriormente o Governo português começou a pressionar a CARRIS para retirar as regalias que a CARRIS tinha criado para os seus trabalhadores. Tudo isto conjugado com os movimentos sindicais ao nível de internacional levou a que em Lisboa se fizesse uma greve em que eu participei e assisti ao vivo e a cores e onde assisti os trabalhadores a levarem pancada e serem “pintados” de azul com o carro da tinta que a polícia possuía, acompanhada de jatos de água. Os trabalhadores reagiram de forma adequada, convém aqui lembrar que muitos deles já tinham cumprido missões militares ao tempo designados por Províncias Ultramarinas, tinham sidos preparados para a guerra, alguns deles vinham com stress de guerra e a situação foi dura, violenta, mas quem a ganhou foi quem estava melhor armado e que tinha o apoio de todo o aparelho politico e militar, isto é o Governo. Não imaginam a forma como os trabalhadores envolvidos resistiram, levaram pancada em barda mas não desarmaram, foram pintados de azul mas não arredaram pé, completamente espancados e alguns deles mais resistentes e que foram apanhados pela PIDE, tiveram que ir até há António Maria Cardoso e aí sofreram sevícias inqualificáveis, praticadas por um regime ditatorial, mas quer se queira quer não a cidade agitou, mexeu com muitas consciências e teve o privilégio de chamar há atenção para muitos factos que a maior parte da população desconhecia por completo, acelerou a indignação gerada pela Guerra Colonial, bem como as condições de trabalho dos trabalhadores portugueses.

Todos os regimes cometem os seus erros, no caso vertente o regime da altura acendeu a mexe que já ardia tenuemente, acelerou completamente o processo de descredibilização e de deterioração do sistema.

Não sei se consegui por palavras descrever o que realmente se passou mas foi indiscritível a consciência de classe e os objetivos eram comuns, por isso o sucesso, na minha opinião foi extraordinário em termos globais, mas obviamente que para alguns que foram apanhados pelo sistema, sofreram na pele as agruras características do regime vigente.

Para mim foi aqui que tudo começou a sério.

Henrique Pratas

 

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