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Kissinger foi Inventado por um Homem

13-07-2018 - Henrique Pratas

Como é do vosso conhecimento a Europa sofreu em 1928-1929 o Inverno mais frio e mais longo há mais de 100 anos. Todos os principais rios, Reno, Danúbio, Elba, Ródano e seus afluentes gelaram e ficaram neste estado até aos fins de março. Quando a Primavera chegou finalmente, manifestou-se de forma irreconhecível, com granizo e neve semiderretida em lugar dos tépidos chuviscos de abril que fazem florir os goivos. Muito depois dos sólidos lençóis de gelo se terem quebrado, massas de gelo flutuante enchiam águas agitadas das correntes caudalosas e turbulentas.

Foi num desses dias miseráveis do início de abril, com ventos gelados e rajadas de chuva persistente que foi observado um caiaque entre as massas de gelo do rio Meno, no meio da cidade de Frankfurt. No barquinho, um homem cadavérico, todo nu à exceção de reduzidíssimos calções pretos e de um monóculo com uma grande fita preta, remava furiosamente contra a corrente e na popa da embarcação flutuava a flâmula de combate preta, branca e vermelha da defunta Marinha Imperial Alemã.

As pessoas na ponte que se apressavam para se protegerem da intempérie paravam para olhar. Algumas faziam o sinal habitual dos Alemães para designar um maluco, tocando na testa com o indicador estendido. Questionou-se quem era, um dos transeuntes respondeu era o maluquinho do costume, um estudante de Direito, chamado Kraemer, é o mais chanfrado possível, mas inofensivo.

Kraemer, fazia parte de um grupo de estudantes inscritos num seminário de Direito Internacional e, como o professor adoecera, o início do seminário ficara adiado até abril e o grupo, em vez da universidade, reunia-se na casa do professor.

Kraemer era uma personagem estranha, mesmo vestido, para começar, havia o monóculo, ninguém, a não ser os oficiais Junker da Alemanha anterior à primeira Guerra Mundial, usava monóculo, até hoje, nunca se soube onde Kraemer arranjou o dele, por curiosidade, tentou-se encontrar um oculista que vendesse monóculos, mas não se conseguiu. No que diz respeito ao resto da indumentária era tão estranha como o monóculo e igualmente datado, ao tempo todos os estudantes usavam casacos de tweed e calças largas, o nosso “amigo” Kraemer envergava o tipo de roupa que os cavalheiros costumavam vestir para provas de equitação em circunstâncias mais formais: lenço branco, colete aos quadrados, casaco de hipismo, calças de montar maravilhosamente cortadas e reluzentes botas altas de cavaleiro até ao joelho. Apesar de mostrar um certo pedantismo, essa indumentária ficava-lhe a matar e se todos o consideravam um excêntrico, mudavam de opinião no momento em que ele abria a boca e dizia algumas palavras na sua voz aguda, anasalada e lânguida. Todos ficavam com a certeza que estavam perante um mestre incluindo o professor. Kraemer não se limitava a ser brilhante e culto, apesar de ainda não ter completado os 20 anos, apesar disso ele já poderia integrar história politica, direito internacional, e política internacional numa consciente filosofia politica. Era cortês e extremamente modesto, controlava-se sempre, de uma maneira total e absoluta.

Kraemer era um homem de altura mediana, magro que lhe via as costelas quando subia o rio no seu caiaque, era um tipo de alemão bastante comum, com uma cabeça longa e estreita e feições muito marcadas, apesar disso essas características eram levadas nele quase ao extremo da caricatura: um nariz grande, triangular e afinado que se projetava no rosto como uma vela; maçãs do rosto salientes; um queixo pontiagudo e olhos penetrantes, de um cinzento cor de ardósia, fazia lembrar um cruzamento entre um galgo e um lobo-cinzento, porém, em certas alturas, mostrava semelhanças com um dos grandes heróis de outros tempos Frederico, O Grande, da Prússia que, nos meados do século XVIII, convertera a pobre e atrasada Prússia-Brandeburgo numa grande potência e Berlim de uma remota aldeia de pescadores situada à beira de um rio pantanoso no iluminismo europeu. A alcunha de Frederico o Grande, fora “Velho Fritz”. Deste modo o nosso Kraemer muito cedo começou a ser conhecido pelo “Jovem Fritz”.

Kraemer é um nome alemão muito comum e sem nada de aristocrático que significa “vendedor ambulante”. Nada nas origens de Kraemer explicava o uso do monóculo, as botas de montar e a voz arrastada com uma afetação que fora moda entre os oficiais prussianos da guarda de 1900, a sua mãe fora filha única de um fabricante de produtos químicos da região do Ruhr. Era brilhante como filho, mas, na sua juventude, foi um problema sério, pois era voluntariosa, independente e imaginativa, era magra, muita parecida com Eleanor Roosevelt, quando esta era jovem. Como tinha muito dinheiro, arranjaram-lhe um marido, um advogado indigente, com pais da baixa classe média, mas com ambição desmedida.

Encurtando razões e outras considerações Kraemer era considerado como escumalha e lixo proletário, pelos ultranacionalistas e nazis alemães, motivados pelos ressentimentos da sua própria inferioridade e pela inveja dos que eram melhores e ainda mais desprezíveis por disfarçarem a sua marginalidade jacobina com os farrapos de uma retórica nacionalista e pseudoconservadora, Kraemer, considerava-se um conservador genuíno, um monárquico prussiano, da velha cepa pré-bismarckiana, luterana e espartana.

Ao tempo um monárquico prussiano, mesmo entre os jovens alemães da República de Weimar, era algo de que nunca se ouvira falar, até a nostalgia da monarquia, como regra, era considerada uma coisa de velhos. Mas tal como Bismark, Kraemer, estava convencido que os Alemães precisavam de uma figura paternal e tornar-se-iam vítimas de um tirano se não tivessem um rei legítimo e respeitador da lei. Mas Kraemer não tinha ilusões acerca do Kaiser, considerava-o, vaidoso, instável e insensato, mas era da família real e assim sendo, Kraemer aceitava-o como seu legitimo soberano e todos os anos lhe enviava um telegrama de parabéns, já que o velho Guilherme II vivia exiliado na Holanda.

A Prússia era para Kraemer um anacronismo maior do que ele apresentar-se de monóculo e botas de montar nas aulas de Direito.

Com o crescimento do poder na Alemanha de Bismark, cresce também o “horrível alemão” que junta a este predicado a arrogância, o servil ambicioso, arrivista, autoritário agressivo.

Mas existia também o “outro alemão”, o “bom alemão”, o “liberal” alemão levemente sentimental, ligeiramente toldado pela cerveja, que adorava a música e era bem-disposto. Igualmente personagem, tipo que em cada geração, se transforma realidade: Willy Brandt, por exemplo.

É o magistral ensaio de Jonh Maynard Keynes sobre o Dr. Melchior, patriota alemão, banqueiro judeu e um autêntico europeu, que se suicidou quando Hitler chegou ao poder.

Kraemer odiava o “horrível alemão”, respeitava o “bom alemão”, mas não acreditava que ele pudesse vencer o “horrível alemão”, para ele, o “bom alemão”, pelo facto de ser “liberal”, “sentimental” e “ bem-disposto”, não tinha energia política para resistir às forças do mal nem sofisticação politica para manter e utilizar o poder.

Kraemer demonstrava o seu ponto de vista fazendo menção à maneira como Bismark tinha utilizado a retidão e a ingenuidade dos “bons alemães”, os poderosos liberais do seu tempo, para subverter, subjugar e, por fim destruir o liberalismo alemão.

Desta forma, Kraemer decidira que só o ”terceiro alemão” dava garantias de autodomínio e de controlo politico, que só o “terceiro alemão “ podia ao mesmo tempo conseguir o poder e usá-lo sensatamente e esse “ terceiro alemão”, que se opunha tanto à monstruosidade e ao barbarismo que então avançavam tão depressa a coberto da suástica nazi como ao liberalismo sem garra, bem-intencionado e decente mas débil do “bom alemão”, era o antigo ideal prussiano do homem satisfeito, orgulhoso mas temente a Deus, autodisciplinado, segundo o código de honra de um oficial e cavalheiro.

Todos os maneirismos de Kraemer equivaliam a um manifesto deliberado.

Muitos anos depois da Segunda Guerra Mundial, teve que se explicar que Kraemer não era nazi nem podia sê-lo porque era um conservador genuíno, ele alistou-se no exército americano para combater os nazis e os serviços secretos militares americanos tinham muita dificuldade em engolir a história dele.

Para os americanos só existiam dois tipos de alemães, um autoproclamado “ conservador prussiano” que tinham que ser os maus e por mais que romântica fosse a visão de Kraemer e do seu comportamento, ele que era uma jovem nessa época era considerado um “conservador” à moda antiga e anteriores a Bismark ou luteranos pré-bismarkianos.

Os homens que fizeram a desesperada tentativa para matar Hitler em julho de 1944, o conde Hellmuth Moltke, o conde Stauffenberg e o Dr, Goerdeler, antigo burgomestre de Leipzig, eram” conservadores prussianos da velha guarda” e o líder da resistência protestante, o pastor Niemoeller, era um monárquico luterano muito tradicional e antigo comandante de submarinos.

Para Kraemer só forças externas poderiam travar Hitler e por esse motivo abandonou a Alemanha.

Quando Hitler subiu ao poder em 1933, Kraemer termina os seus estudos em Direito, doutorara-se em Direito Internacional e estava a meio de um estágio de três anos nos tribunais que os advogados alemães têm que fazer antes uma exame forense, com a demissão de todos os juízes e estagiários judeus ordenados pelos nazis, Kraemer, sem hesitar um momento demitiu-se e abandonou imediatamente a Alemanha. O seu código de honra não lhe permitia manter qualquer relação com um regime tão desonesto e desrespeitador da lei, decidiu ir par Itália.

Em 1934, quando passava férias no golfo de Sorrento, Kraemer, remava o seu caiaque, que ostentava ainda a flâmula de combate da defunta Marinha Imperial Alemã, ao tempo o adido naval nazi estava também em Sorrento de férias e foi suficientemente palerma para apresentar um protesto formal no Ministério dos Negócios Estrangeiros Italianos contra esse “insulto” à Alemanha nazi, cuja bandeira nessa altura, como sabemos exibia a suástica tendo como fundo as velhas cores dos Hohenzollern. Ordenaram a Kraemer retirasse a bandeira, em vez disso ele apresentou reclamação em tribunal que as leis internacionais lhe concediam o direito de ostentar a sua bandeira privada no seu barco em águas territoriais. Este processo correu todas as instâncias até chegar ao Supremo Tribunal de Justiça Italiano, onde Kraemer ganhou.

Na altura Hitler e Mussolini eram inimigos declarados, tendo mesmo este último em 1934 ameaçado ir para a guerra contra os Alemães.

Esta vitória de Kraemer teve uma repercussão enorme e causou muita irritação às hostes nazis alemãs e este processo teve uma enorme divulgação em Itália.

Quando em 1937 /1938 Mussolini se aliou a Hitler, Kraemer foi rapidamente aconselhado pelos seus amigos italianos a abandonar Itália, pois a sua cabeça estava a prémio, e partiu para os Estados Unidos da América, onde conforme já referi anteriormente se veio a alistar nas forças armadas americanas, como um simples soldado.

Esteve em Pearl Harbor, combateu ao lado do general Patton, tendo terminado a sua carreira militar como brigadeiro.

Terminada a II Guerra Mundial, Kraemer deixou o serviço militar e voltou à vida civil e tornou-se conselheiro político em assuntos europeus para o chefe de estado-maior do Exército Americano, o seu título oficial era algo mais modesto, “ analista político sénior” ou algo semelhante, mas evidentemente, os “analistas políticos” não eram enviados para a Escola de Defesa dos Estados Unidos, reservada a generais ou a figuras mais proeminentes, mas com Kraemer as coisas foram diferentes, ele não só para a Escola Superior de Defesa como ensinou lá. O seu gabinete no Pentágono era pequeno e, como todos os escritórios que ocupou estavam atulhados de alto a baixo de livros, jornais e revistas em todas as línguas imagináveis.

Durante a administração Kennedy o chefe do estado-maior “espreitou” pela porta do gabinete de Kraemer pelo menos umas oito vezes questionado-do se lhe podia conceder um minuto, até que foi chamado para uma reunião confidencial com todos os chefes de estado-maior.

Depois dessa reunião muitos anos antes de Henry Kissinger se ter tornado secretário de Estado, Kraemer passou a considerar que preparar um secretário Estado era mais importante do que fazer política, pois em larga medida, foi Kraemer quem fez Henry Kissinger, descobriu-o, formou-o e, em grande parte, inventou-o.

Há muito que andava para escrever um texto como este porque entendo que exercer cargos de poder político é a capacidade que temos para influenciar a decisão, muitas das vezes quem de facto manda não são aqueles que aparecem na televisão ou nos jornais, esses apenas corporizam aquilo que alguém lhes diz para reproduzir.

Deixo-vos no final deste meu texto uma questão quem é que de facto manda na verdadeira aceção da palavra e o que é isto do poder?

Henrique Pratas

 

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