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Carlucci e Companhia

29-06-2018 - Jorge Seabra

Se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».

Voltar ao passado pode parecer fútil num tempo em que se desenrolam importantes lutas pela reposição de direitos do trabalho e já cheio de temas «fracturantes», que um amigo, com humor, diz serem uma questão ortopédica.

Contudo, as memórias podem ajudar a perceber como algumas forças políticas se alinharam em tempos idos, escondendo, debaixo de um manto diáfano de belas frases, objectivos estratégicos ligados aos piores interesses.

Vem isto a propósito do recente falecimento de Frank Carlucci, antigo embaixador americano em Portugal entre 1975 e 78, indo depois ocupar o cargo de Director-adjunto da CIA (78-81).

«Durante o longo tempo em que esteve em Portugal, criou, com o futuro Presidente Mário Soares, uma cumplicidade estratégica essencial», – declarou o Presidente Marcelo, também ele um amigo de Frank Carlucci.

Na realidade, Carlucci esteve só três anos como embaixador em Portugal mas foi, de longe, o mais famoso de todos. E a forma como se fala dele é, agora, muito diferente.

«Cumplicidade estratégica» entre Carlucci e Mário Soares?...

Nos anos 70, se alguém o dissesse, corria o sério risco de ser apelidado de mentiroso, radical, sectário comunista! Mesmo o jovem Marcelo, ainda a adaptar-se à mudança por ter vivido sempre «encostado» à ditadura, talvez dissesse que nem conhecia o ianque…

A ligação aos USA e à CIA, então implicados no sangrento golpe de Pinochet, no Chile (1973), queimava. O presidente eleito, Salvador Allende, e a via pacífica para uma sociedade mais justa de matriz socialista, sucumbiam à violência da CIA que supervisionou a imposição de uma brutal ditadura.

Um ano depois, em Portugal, a Revolução do Cravos, punha de novo o povo a berrar «o povo unido jamais será vencido» e outras coisas acabadas de silenciar à bala no Chile.

Para os USA, era mais uma intolerável chatice. Agora na Europa. Lá teria a CIA de fazer as malas e vir tratar do assunto. E foi o que fez. Demitiu o embaixador «normal» e enviou para cá um dos seus mais qualificados agentes em assuntos «especiais».

Carlucci era o homem. Tinha estado no Congo onde desempenhara um papel principal no assassinato de Lumumba, o mítico dirigente nacionalista africano, admirado em todo o mundo.

Obedecendo a Eisenhower (Robert Johnson, membro do National Security Council, confirmou depois ter ouvido o presidente dos USA dar a ordem para matar o primeiro-ministro congolês), Carlucci foi enviado para o Congo para tratar do assunto.

A CIA chegou a pensar usar armas químicas (método que agora se diz ser uma marca dos russos), mas o crime resolveu-se com a ajuda de belgas e catangueses.

«Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil "ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard" (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.»

O desaparecimento de Lumumba serviu para os americanos imporem Mobutu, um exemplo de democrata que matou todos os que vagamente se lhe opuseram na delapidação das riquezas do país. Anos depois, como detalhou a revista Afrique-Asie, a sua fortuna pessoal (incluindo um palacete isolado, frente ao mar, no Algarve), correspondia a toda a dívida externa do país.

Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil «ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard» (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.

A CIA apoiou e financiou os generais golpistas de extrema-direita (Ranieri Mazilli , Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e João Figueiredo), que instalaram um longo período de ditadura. E Carlucci lá estava a ajudar o Brasil a libertar-se de «comunas», intelectuais e cantores, manifestando mais uma vez o seu amor pela democracia, com prisões, torturas e assassinatos da «Operação Condor», aproveitando para aprender o português.

Chegado em Janeiro de 75, Frank Carlucci iniciou as suas funções de embaixador em Portugal, passando as primeiras semanas em… Madrid.

A estadia na capital espanhola aparece justificada, pelo Presidente Marcelo, por «razões de segurança».

Mas talvez essa questão fosse secundária, até porque Carlucci era um homem habituado a riscos que, de resto, em Portugal e em Janeiro de 75, nem eram demasiados.

A explicação será mais pragmática. Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP («Exército de Libertação de Portugal»), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP («Movimento Democrático de Libertação de Portugal»), de Spínola, que queriam «libertar» a terra-pátria, supostamente dominada pelos «comunas». Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar. Em breve o ar em Portugal, principalmente a Norte, iria aquecer.

Como sumariza Jorge Sarabando, no seu livro O 25 de Novembro a Norte (que, com o de Miguel Carvalho, Quando Portugal Ardeu, constituem leituras obrigatórias para perceber o que se passou), «a estratégia delineada, sem nada de inteiramente novo que já não tivesse sido experimentado em outros teatros de operações, foi adaptada às circunstâncias, às forças em presença e ao perfil dos actores no terreno. Captar apoios militares, dividir o MFA e o movimento popular, impedir a coordenação dos centros de decisão, promover a sabotagem económica e a fuga de capitais, utilizar a chantagem económica e militar internacional, financiar organizações patronais e sindicais divisionistas, controlar a comunicação social, incentivar a instabilidade e o descrédito das instituições no quadro de uma escalada de insegurança e de tensão. Em pano de fundo, a defesa da liberdade supostamente ameaçada.»

Logo a 11 de Março de 75 deu-se o golpe falhado de Spínola, fugindo aos hábitos mais organizados de Carlucci. Mas o «Verão Quente» estava a chegar já com o trabalho adiantado, com os padres a pregarem contra os vermelhos e o terrorismo das bombas do ELP e do MDLP a incendiarem e matarem à esquerda, tudo enquadrado na «cumplicidade estratégica essencial» de Carlucci com Soares, forjada «numa pequena cúpula do telhado da embaixada», longe dos olhares dos portugueses.

«O doutor Soares e eu passávamos muitas horas aqui a conversar sobre os problemas políticos portugueses», disse o ex-embaixador dos USA, numa entrevista ao Público, em 23-9-2006.

E, entre Maio de 75 e Abril de 77, houve 566 acções terroristas, contabilizando 310 atentados à bomba, 194 assaltos e incêndios a sedes e centros de trabalho do PCP e de organizações de esquerda, 16 atentados a tiro.

«Uma onda de fundo do povo português», dirá Soares, englobando toda a agitação da época. Para além do apoio às bombas e bombistas que aterrorizaram o país no «Verão Quente» de 75 e a sua coordenação «estratégica» com manifestações do PS contra a imaginária ameaça da «ditadura comunista», Carlucci não se esquece de visitar a hierarquia da igreja que pregava o medo dos «comunas» que matavam os velhos com injecções atrás da orelha (ao contrário do que agora votaram).

Entre 3 e 6 de Novembro, nas vésperas do golpe, reúne com os bispos de Viseu, Vila-Real e Braga. Homem experiente, Carlucci, «pequeno e vivo… um típico mafioso italiano», na descrição de Soares, apoia também, à socapa, os super-revolucionários «de esquerda» que combatem os «revisas» do PCP com a mesma raiva da direita, como o MRPP, a quem encheu de dinheiro.

«São como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem, e retirado à medida das necessidades», como refere, num ensaio, Saldanha Sanches, então ex-dirigente dissidente da organização.

Em entrevista à «Association for Diplomatic Studies and Training», Carlucci, rememorando os seus tempos em Portugal afirmou, divertido: «O MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (sic) –,tomou a estação de rádio católica, mas foi o Partido Comunista que foi considerado culpado. Então temos o líder do Partido Comunista Português na televisão a dizer que não são anti-católicos. Claro que ninguém acreditou!...».

Relatórios americanos desclassificados esclarecem o papel de Carlucci em Portugal, pela sua própria voz: «Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando».

E se as coisas tivessem corrido mal no 25 de Novembro? – a pergunta surge no contexto da entrevista de Carlucci e Soares ao Público. «Honestamente, não tínhamos nenhum plano de contingência. Soares vai para o Porto, no dia 25. Por estradas secundárias. O general Lemos Ferreira tinha levado os aviões para o Norte. O general Pires Veloso comandava as forças militares no Norte e o grupo dos nove conspirava activamente».

Mas Carlucci admite ao jornal que «havia alguns apoios preparados». «Sobretudo dos ingleses», diz. Um «simpático» agente do M16, enviado por Callaghan, estivera em Portugal a ver o que era preciso. «Combustível para os aviões do Lemos Ferreira. E isso eles podiam garantir.»

Assim se conclui que se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro, tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».

Por essa descarada ingerência da CIA em Portugal, então escondida mas depois elogiada sem pudor por PS,PSD e CDS, Carlucci foi condecorado, em 2004, por Jorge Sampaio e Santana Lopes, com a grã-cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, e Portas atribuiu-lhe a medalha de Defesa Nacional. «Por relevantes serviços prestados».

À bomba e a tiro, quase sempre. No Congo, no Brasil ou em Portugal. Sem a piedade de um anjo ou a vida de um político «normal», como agora o querem descrever. Deixando um rasto de pobreza, corrupção e morte.

Também, na altura, o PS, com um discurso de esquerda e agitando de vez em quando um retrato de Marx, optou pela defesa dos grandes interesses…

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PS – Apesar do que ainda agora se diz sobre o descalabro financeiro causado pelo «gonçalvismo», uma missão da OCDE que visitou Portugal em finais de 1975 considerou «a economia portuguesa surpreendentemente saudável», com um «desempenho extremamente robusto», atendendo à crise internacional e às mudanças acontecidas. Os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo é que ficaram mais pobres.

Fonte: AbrilAbril

 

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