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DOSSIERS
 
O Museu Etnográfico da Casa do Povo de Almeirim (continuação)

08-11-2013

No sentido de dotar a Casa do Povo de instalações mais dignas, consentâneas com a função social que desempenhava [1], o Museu muda de local (figuras 2.11 e 2.12) Assim,

 
“Em 1967, foram inauguradas pelo Ministro das Corporações e Previdência Social as novas instalações da Casa do Povo, num amplo edifício de 2 pisos do último período do Estado Novo. [2] Neste edifício foi planeada a reinstalação do Museu numa sala de 120 m 2 situada no 1.º piso, com entrada independente dos outros serviços da Casa do Povo – posto médico, biblioteca, salão de festas e serviços administrativos.” (Dias, 1997: 126) (figuras 2.13 e 2.14)[3]

Considerando as fontes que contribuem para a caracterização do extinto Museu, salientamos o Roteiro de Museus de 1997.Esta monografia, de entre um conjunto de cinco,cumpre os objectivos do Projecto de Investigação: “Representações da Cultura

Portuguesa nas Colecções Etnográficas dos Museus locais”. [4] Do ponto de vista da sua organização, o Roteiro divide -se consoante as Comissões de Coordenação Regional (Algarve, Alentejo, Centro, Norte e Vale do Tejo) e Regiões Autónomas (Açores e Madeira), respeitando a proposta de Orlando Ribeiro, considerada pelos autores.[5] Para cada unidade museológica é apresentada uma breve descrição das colecções, a sua história, instalações, morada, horário, entidade de tutela, actividades desenvolvidas e publicações. A investigação compôs-se por cinco etapas, entre as quais: selecção de bibliografia específica de museologia etnográfica; recolha de monografias locais; recolha de informação junto das autarquias e dos responsáveis pelas unidades; trabalho de investigação por dois membros da equipa in situ; e numa fase final, elaboração dos relatórios relativos a cada um. Este Projecto encetou-se no sentido de constituir uma base de dados sobre as unidades museológicas etnográficas em Portugal, analisando as razões da sua criação; os contextos e os critérios segundo os quais se compilaram os acervos; as técnicas expositivas e o tipo de museografia utilizada; o que estava de facto representado e quais as lacunas; as práticas culturais empreendidas pelas instituições no sentido de divulgarem a cultura local (actividades, publicações, colóquios) através das colecções expostas.[6]

Relativamente às conclusões que consideramos importantes retirar deste Roteiro, estas prendem-se com o facto da entidade de tutela ser na sua maioria de câmaras municipais; quanto à temática, pode-se referir que existe um certo equilíbrio, dado que por um lado, temos uma diversidade enorme de colecções (ao nível das temáticas e dos materiais de suporte), por outro, em igual circunstância, existe uma especificidade temática, com os museus dedicados exclusivamente ao vinho, ao azeite, ao barro, etc.

Um ponto comum a todos eles é a maior atenção dada às dinâmicas laborais e domésticas em detrimento do lazer. No que concerne aos modos expositivos estes prendem-se sobretudo com a representação da cultura popular, no sentido desta ser recuperada (nomeadamente a agricultura), num diálogo museográfico que reconstitui ambientes ou musealiza sítios (adegas, moinhos, lagares).

Tal como atrás referimos, a etnografia relaciona-se com o estudo dos materiais que caracterizam comunidades, localidades, regiões e neste estudo é possível apontar precisamente a especificidade dos objectos incorporados nestas colecções. A representatividade local é assumidamente o principal objectivo destas unidades, porém, também existem casos em que se assiste a uma apropriação de objectos comuns, que estas comunidades assumem como seus, por também fazerem parte do quotidiano local, aí ser normal encontrarmos diferentes apontamentos (objectos) comuns em todos eles.[7]

Segundo esta fonte, à data da sua edição, o Museu Etnográfico da Casa do Povo de Almeirim apresentava “a mesma exposição desde 1967”, sendo que “foram doados mais de 58 objectos, perfazendo um total de 440, distribuídos sem critérios museológicos, sem percurso proposto (…)”. Segundo a mesma fonte, os objectos estavam

  “(...) expostos em vitrinas, sobre prateleiras, em mesas, no chão e nas paredes. Dificilmente, se encontrará um percurso lógico nesta exposição (…) parece montada (…) pronta a encher um instantâneo fotográfico. Vejamos alguns exemplos: embora a numismática tenha uma vitrine própria, sobre esta encontra-se cerâmica regional; no caso da armaria que se encontra em volta de uma coluna, junto temos uma cadeira de cortiça trabalhada, uma ânfora romana, uma miniatura de caldeira a vapor, uma fiadeira, etc.. Talvez o caso mais marcante desta ¢ não sistematização ¢ esteja na zona das pedras tumulares, sobre as quais estão alguns quadros naïf de uma artista local; em prateleiras, uma mostra da produção vinícola e ao lado, uma bomba de transfega e brinquedos de cana.” ( Dias, 1997: 126) [8]

Esta citação sugere que não terá havido, na recolha dos objectos, qualquer preocupação de carácter científico, como sistematizar, classificar ou inventariar. Foi feita sim, “uma recolha passiva” ( Dias, 1997: 127), uma vez que “o impulsionador do Museu se limitou a esperar que a população oferecesse material susceptível de formar uma exposição (…).” (Dias, 1997: 127). Existe nesta fonte bibliográfica referência ao Livro de Tombo, todavia, quando o acervo foi transferido para as instalações onde hoje está instalado o Museu Municipal, que incorporou essas colecções, esse Livro não foi encontrado pela equipa responsável pela mudança. As únicas referências relativas aos diferentes objectos museológicos são uns pequenos cartões com o selo da Casa do Povo, com o número do objecto e o nome - em alguns casos com a proveniência também definida (figura 2.18). Consideramos que com a extinção das Casa do Povo, este Museu foi sendo negligenciado e o património votado a um relativo abandono. Interessante é salientar o relevante contributo que o princípio da constituição deste tipo de museus deu ao que mais tarde denominaremos de ecomuseus: “Quando em 1974, um golpe de estado militar marcou o advento de uma nova era para Portugal, esta ‛ideia de museu’encontrou no ecomuseu o quadro discursivo ideal para evoluir sem renegar o que anteriormente havia sido realizado”. (Pimentel, 2005: 209) Porém, em Almeirim, esse acervo ficou fechado sobre si mesmo durante pelo menos uma década até ao seu resgate pela Câmara Municipal de Almeirim, cujo projecto museológico descreveremos mais adiante.

Figura 2.18 – Cartão identificação dos objectos do Museu Etnográfico da Casa do Povo de Almeirim. (Museu Municipal de Almeirim)

© Marta Milheiro (2011).

[1] Vd. Vermelho , 1968.

[2] Da autoria do Arquitecto Samuel Quininha, o projecto de 1959, materializou-se num edifício que veio dar um forte incremento à Casa do Povo, nas suas diversas vertentes. Localizado no Largo dos Charcos em Almeirim, este edifício, dentro da lógica da arquitectura da época, inseria-se na vertente mais funcional do estilo, que deveria parecer robusto, sólido, resistente e corresponder às necessidades das actividades desenvolvidas do organismo que acolhia, neste caso a Casa do Povo de Almeirim. Através da planta em anexo, verifica-se a existência de diversos espaços, à semelhança de um verdadeiro edifício público, tais como gabinete médico, salão de festas, zona de secretaria, arquivo, biblioteca, sala de reuniões, etc.

[3] Segundo Pedro Vieira de Almeida (1986), apesar de ser frequentemente referida uma “arquitectura do Estado Novo”, analisando com rigor as obras deste período, fica claro que houve antes uma mistura de estilos. Poder-se-á no entanto falar de uma resposta dos arquitectos, não constituindo uma corrente ou uma tipologia específica, mas antes, o que se tem vindo a denominar, de “estilo português”, como uma consequência do modernismo nacional, com maior incidência em Lisboa (Almeida, 1986: 105). De forma sintéctica, não se pode negar que houve de facto um investimento na arquitectura durante este período, com a política de obras públicas empreendida, que levou a que se abrissem novas oportunidades para os profissionais, comprometendo-os de certa forma com o poder. Deste tema, de difícil sintetização, importa-nos retirar a ideia de que a arquitectura durante este período, segundo o mesmo autor, “permanece (...) numa situação de hesitação e expectativa. Em primeiro lugar, hesitação que correspondia certamente à menor ou maior cedência às pressões políticas, (...) muitas vezes contraditórias mas simultâneas, de cada um dos organismos que no aparelho de Estado podia estabelecer-se como cliente. Daí que essa ‛hesitação’ tivesse, por um lado, um aspecto de cíclica alternância no tempo e, por outro, o carácter de simultaneidade de orientações divergentes, se não contraditórias. Em segundo lugar a expectativa porque em todo o processo foi deixado espaço para a arquitectura ocupar, ocupação a que os arquitectos parece não terem podido ou sabido proceder de maneira convincente.” (Almeida, 1986: 111) Verdadeiramente difícil para os arquitectos deste período será a aceitação por parte do Estado das novas propostas; a opção entre o modernismo e o tradicionalismo vai tornar-se num dilema, sem que eles próprios entendessem bem os limites, de um e de outro. A “geração do compromisso”, formada a partir dos anos 20, com nomes como Carlos Ramos, Cristino da Silva, Pardal Monteiro, Cottinelli Telmo, Cassiano Branco, etc., é a geração a quem se introduz aquela problemática de estilo, tentando articular a arquitectura moderna com os desígnios do regime. (Almeida, 1986: 112)

[4] Refira-se a este propósito que este foi um Projecto financiado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e pelo Instituto Camões, no âmbito do programa Lusitânia, no período compreendido entre Janeiro de 1994 e Dezembro de 1996, concretizado por uma equipa de sete investigadores. Vd . D ias, 1997.

[5] Vd. Ribeiro , 1987.

[6] É importante salientar que a metodologia utilizada foi sendo adaptada às diferentes realidades com que a equipa se ia deparando, pois a noção de museu, tal como é definida pelo International Coucil of Museums (http://www.icom-portugal.org/documentos_def,129,161,lista.aspx) não abarcava os diferentes casos. Assim, a análise das colecções teve que ser alargada e ao invés de analisarem museus, passaram-se a denominar-se por núcleos museológicos. Outra das dificuldades prendeu-se com a diversidade das colecções, isto é, os objectos extravasavam o carácter etnográfico, pelo tipo de materiais de que eram compostos, entendendo a equipa do projecto, em alargar este conceito e incluir no aspecto etnográfico todo o tipo de objectos que contribuíssem para a definição de uma identidade (colecções de arqueologia, arte sacra, história natural, etc.).

[7] Os autores chamam a atenção para a importância em se apurarem os “responsáveis” pela constituição destes acervos e quais os seus objectivos, apontando os trabalhos de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, bem como a actividade de entidades como o SNI (Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo), a Federação Portuguesa de Folclore ou o INATEL.

[8] Vd . Anexos capítulo 2, Figuras 2.15,2.16 e 2.17.

Milheiro*, Marta (2013) Contributos para uma candidatura à Rede Portuguesa de Museus – o caso do Museu Municipal de Almeirim (trabalho de Projecto para obtenção do grau de Mestre em Museologia).

*Licenciada em História da Arte e Mestre em Museologia pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa.

 

 

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