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Almeirim: o desenvolvimento oitocentista

04-10-2013

Foi, então, com D. João VI, regente em nome de sua mãe, D. Maria I, que se determinou a demolição dos Paços, pois a sua recuperação seria muito dispendiosa, demorando esta tarefa vários anos. Em 1891, o pórtico é finalmente demolido.(1)

Citando mais uma vez Custódio e Rodrigues (1990), existiu um terceiro momento relevante na definição histórica de Almeirim, o período compreendido entre 1821 e 1889, segundo os autores, foi uma

 

“(…) época de profundas transformações da propriedade e mutações económicas e sociais do seu hinterland(2). São acompanhadas pelo desaparecimento completo do Paço e da coutada que foram vendidas em hasta pública e aforadas a particulares, bem como da relativa mutação do espaço urbano que se adapta aos novos condicionalismos das relações sociais e produtivas.” (p. 6)

Finalmente os mesmos autores definem um quarto período entre 1889 – 1989 que se refere ao “Crescimento e expansão de Almeirim à luz das novas funções que adquiriu no período anterior.” (Custódio e Rodrigues, 1990: 7)

Seguindo a metodologia adoptada ao longo deste estudo, falemos agora no início de oitocentos, enquadrando Almeirim no contexto da política nacional, definindo o mais importante sobre o Concelho, dado que no aprofundamento de aspectos que não sejam fundamentais para a sua caracterização, referiremos bibliografia de apoio.

Ora, no quadro do Vintismo, da Constituição de 1822 e da Revolução Liberal, Almeirim herdou a extinção das coutadas, dos impostos feudais e dos privilégios dos nobres, como aspectos fundamentais a referir. Estes pontos são fruto de um contexto bastante complexo que se insere num elaborado quadro de resistências e novas legitimidades que vão marcar todo o século XIX.(3) No seguimento das principais transformações económico-sociais inscreveram-se as alterações na propriedade e na organização estrutural do país, levadas a cabo pela extinção das ordens religiosas e da venda dos bens nacionais. Esta nova organização administrativa levou a que o Concelho se expanda, ou seja, a partir de 1836, Almeirim passou de uma freguesia para cinco: S. João Baptista, Santo António da Raposa, Benfica do Ribatejo, Muge e Alpiarça.

O Liberalismo facilmente penetrou no território concelhio, pelo contágio da tomada de Santarém em 1834, tanto na fase de preparação da mesma como à posteriori.(4) Das transformações relevantes e que puderam ser consideradas determinantes no reconhecimento do Concelho como hoje se apresenta, referimos a criação de uma burguesia agrária que adquire os bens nacionais anteriormente referidos. Estas unidades ligam-se à exploração agrícola e à criação de gado, estabelecendo coudelarias. A industrialização que caracteriza as políticas liberais e que facilmente se espalha pelo Concelho, fez com que esta fosse uma zona pioneira na mecanização da agricultura, com a introdução de maquinaria agrícola, tal como ceifeiras mecânicas, debulhadoras e locomóveis. Nesta perspectiva, e marcadamente a partir da segunda metade do século XIX, industrializaram-se lagares de azeite, estabeleceram-se destilarias de aguardente vínica, sendo introduzida, em 1859, a primeira máquina a vapor no Concelho, na Quinta da Alorna. No seguimento das ideologias de desenvolvimento da Regeneração, incrementaram-se os transportes na margem direita e esquerda do Tejo, estabelecendo-se as linhas de caminho-de-ferro do Norte e Este, com a chegada do comboio a Santarém.

Por outro lado, a regularização do Tejo permite captar mais terrenos para a agricultura, fomentando o desenvolvimento de uma burguesia agrária liberal. O desenvolvimento das comunicações e o aproveitamento que se pretendia das vias fluviais levou a intervenções profundas no rio Tejo, relacionadas com as políticas liberais e as opções políticas desde meados do século XIX. Neste contexto, foi determinante o papel do Coronel Eng.º José Júlio Guerra(5), que a este propósito fez a primeira planta topográfica de Almeirim, datada de 1855.

Assim, o liberalismo não originou directamente a divisão da propriedade e, muito pelo contrário, originou a sua concentração. Essas propriedades passaram a ser grandes explorações agrícolas, geridas por grandes lavradores, muitos deles descendentes de antigos nobres, outros da nova nobreza e outros ainda simplesmente homens de negócios, que no advento da produção empresarial agrícola pretendiam investir o seu dinheiro na actividade económica dominante.

Para descrever as condições de vida do Concelho salientámos a obra do médico Guilherme Tiago do Couto, a que outros autores chamam de Topografias Médicas e que foram efectivamente importantes para a caracterização do Concelho(6). Não nos importa agora fazer uma descrição exaustiva destes estudos, importa sim sublinhar que foram importantes no entendimento do modo de vida dos almeirinenses, do ponto de vista cultural, social e económico no século XIX.

Almeirim, naquela época, era um centro importante da lavoura ribatejana. A agricultura, por sua vez, era a actividade económica mais relevante e aquela que mais deveria ser fomentada e apoiada. A guerra civil, que terminara em 1834, tinha deixado Portugal na miséria, agora havia que alimentar o povo e dinamizar a economia. Almeirim foi, assim, um pólo de esperança para o desígnio de desenvolvimento económico e a vinha que então já se plantava e o seu principal instrumento. Na época da inauguração da Ponte D. Luís, em 1881, havia uma grave crise social provocada pela praga da Filoxera, que matava e empobrecia. Essa grave crise provocada pela praga, originou uma autêntica revolução social. A recuperação das vinhas de Almeirim provocou uma nova e mais forte onda de emigrantes que aqui encontravam trabalho e oportunidades. Muitos deles, chegados nessa altura, enriqueceram e passaram a constituir a nova elite social e económica.

Ruínas dos Paços Reais de Almeirim

Fotografia

Século XIX

N.º Inventário: 735

Museu Municipal de Almeirim.

(1) Apesar da decadência e posterior desaparecimento do edifício real, nos arredores da Vila de Almeirim, começaram a surgir o que podemos chamar de retiros de pessoas ilustres, que pelas características que enumerámos ao longo deste texto, escolheram a zona para aí residirem. Não sendo este o momento para nos alongarmos nesta temática, importa referir que de entre estes palácios se salienta a Quinta da Alorna, construída em 1723, quando D. Pedro de Almeida, Vice-Rei da Índia e primeiro Marquês de Alorna, comprou a Francisco Soares de Aragão o domínio útil do Casal de Vale de Nabais. Para finalizar o que aqui se referiu de importante acerca desta Quinta, salienta-se que ali permaneceu a Condessa de Assumar, Leonor de Almeida Portugal, a ilustre poetisa que assinava sob o nome de Alcipe (1750-1839). Com a morte da Marquesa de Alorna, nome pelo qual viria a poetisa a ser conhecida, decidiram as suas filhas vender a Quinta a José Dias Leite Sampaio, responsável pela dinâmica agrícola e pela produção vitivinícola e de azeite. Na Quinta da Alorna foi, então, plantado um enorme olival e instalado um lagar a vapor.

(2) Tradução da autora: área de influência.

(3) Vd. Mattoso [et al.] 1993.

(4) Vd. Henriques, 1989.

(5) Vd. Guerra, 1861.

(6) A Breve Notícia de Almeirim, de Guilherme Filipe Tiago do Couto, foi publicada numa edição da Associação de Defesa do Património Histórico-Cultural do Concelho de Almeirim, sendo a primeira monografia conhecida actualmente sobre a vila. Encontra-se manuscrita na Biblioteca Nacional, Secção dos Reservados, sendo um caderno de 47 páginas manuscritas pelo autor, em folhas de papel de 264X162mm, encadernadas e com capa de cartão. Para o autor, o caderno não pretendia ser um ensaio monográfico, fosse ele de natureza literária ou estadística, é antes de mais o registo do ponto de vista de um médico, que queria definir as causas que poderiam de alguma forma influenciar a saúde da população do concelho. Deixando transparecer uma análise meticulosa do assunto, acaba por fazer muito mais que isso.

Milheiro*, Marta (2013) Contributos para uma candidatura à Rede Portuguesa de Museus – o caso do Museu Municipal de Almeirim (trabalho de Projecto para obtenção do grau de Mestre em Museologia).

*Licenciada em História da Arte e Mestre em Museologia pela FCSH - Universidade Nova de Lisboa.

 

 

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