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ÁFRICA É A ÚLTIMA FRONTEIRA PARA O CRESCIMENTO MUNDIAL
Autor: Colin Coleman

14-02-2020

África representa actualmente cerca de 17% da população mundial, mas apenas cerca de 3% do PIB global. Estas estatísticas não só confirmam o fracasso em explorar o potencial de desenvolvimento do continente, mas também destacam as enormes oportunidades e riscos que há pela frente. Enquanto o continente de África continuar atrasado em termos económicos, será uma fonte de instabilidade global e extremismo. Mas se progredir, poderá ser uma das principais fontes de crescimento para o mundo.

África está bem familiarizada com o sofrimento. O continente foi assolado por escravos, saqueado por colonizadores, explorado pelas potências mundiais durante a Guerra Fria e devastado pelos conflitos pós-coloniais, deixando um legado de volatilidade implacável, violência horrível e pobreza generalizada.

Veja-se o exemplo das atrocidades cometidas pelo rei Leopoldo II da Bélgica no chamado Estado Livre do Congo (hoje a República Democrática do Congo, RDC) no final da década de 1890, enquanto saqueava o marfim e a borracha do país. Tal como Adam Hochschild relata no seu livro, O Fantasma do Rei Leopoldo, um jovem Edmund Morel, que testemunhou o saque de Leopold pelo lucro, descreveu os trabalhos forçados, “conduzidos pelos colaboradores mais próximos do rei”, como “terríveis e continuados”.

As mulheres eram raptadas e violadas. Os homens eram escravizados e trabalhavam até à morte. Os resistentes arriscavam a morte e as suas mãos seriam cortadas – enquanto ainda estivessem vivos – como prova de punição. E quando não havia mais ninguém para cultivar ou encontrar comida, milhões de pessoas enfrentaram uma quase falta de alimentos e morreram de doenças às quais poderiam ter sobrevivido. “Tem de ser suficientemente mau deparar-se com um assassinato ”, lembrou Morel. “Deparei-me com uma sociedade secreta de de assassinos com um rei como compincha”.

Mais de um século depois, a RDC ainda luta para manter a paz e a estabilidade, sem falar no crescimento e no desenvolvimento. De facto, toda a África Central sofreu conflitos aparentemente intermináveis – uma dinâmica que, desde o final da Guerra Fria, “se transformou numa avalanche de matança e destruição”, tal como disse o analista e advogado regional, Kris Berwouts, há uma década. Aproximadamente seis milhões de pessoas morreram como consequência directa ou indirecta das duas guerras na RDC – em 1996-1997 e 1998-2002 – que se seguiram ao genocídio brutal em Ruanda.

No entanto, apesar desta história, África conseguiu obter ganhos importantes nas últimas décadas. Na África Subsariana, o crescimento do PIB tem tido uma média de 5% ao ano desde 2000. Em todo o continente, a taxa é apenas ligeiramente inferior.

Além disso, de acordo com um relatório, do Banco Mundial de 2019, a pobreza em África (definida como um rendimento inferior a 1,90 dólares por dia) caiu de 54% em 1990 para pouco mais de 41% –  afectando cerca de 400 milhões de pessoas – em 2015. Se a economia continuar a crescer à taxa actual até 2030, a taxa de pobreza do continente cairá para os 23%. Tendo em conta as taxas de redução da pobreza noutras partes do mundo, isso ainda representaria uma parcela crescente da pobreza mundial.

África tem potencial para ir muito mais além. Sendo o continente mais jovem e com a urbanização mais rápida do mundo, África terá, em média, 24 milhões de pessoas a viver nas suas cidades todos os anos entre 2015 e 2045 – mais do que a Índia e a China juntas – de acordo com uma estimativa da McKinsey & Company de 2016.

Isto implica grandes aumentos no consumo. As despesas dos consumidores e das empresas em África já totalizam 4 biliões de dólares. O consumo das famílias deverá crescer 3,8% ao ano até 2025, atingindo 2,1 biliões de dólares, e as despesas empresariais deverão passar de 2,6 biliões de dólares, em 2015, para 3,5 biliões de dólares, em 2025. No total, o relatório da McKinsey prevê 5,6 biliões de dólares em oportunidades de negócio em África, até 2025.

Algumas dessas oportunidades estão na agricultura: se o continente de África, que possui 60% das terras aráveis não cultivadas do mundo, intensificasse a sua produtividade agrícola, poderia produzir duas a três vezes mais cereais e grãos, com aumentos similares nas culturas hortícolas e pecuária. Outras oportunidades estão nas infra-estruturas: em 2010, África ainda precisava de pelo menos 46 mil milhões de dólares em despesas adicionais por ano, para melhorar as suas redes energéticas, hidrográficas e de transportes.

É claro que algumas oportunidades valiosas de investimento também envolvem os abundantes recursos naturais de África, que incluem 10% das reservas de petróleo do mundo, 40% do seu ouro e 80% da sua platina. Mas a importância de tais recursos para a prosperidade futura de África não deveria ser sobrestimada. De acordo com um relatório de investigação económica da Goldman Sachs de 2019, as matérias-primas representaram apenas cerca de 30% do crescimento do PIB de África, desde 2000.

Na verdade, o relatório conclui que os propulsores da “aceleração secular” de África parecem ser “profundos e estruturais”. Isso reflecte o sucesso, que precisa de ser reforçado a partir de agora, ao continuar-se a fortalecer instituições, apoiar a estabilidade política, promover a democratização, aprimorar a coordenação de políticas, melhorar a facilidade de fazer negócios, reduzir a dívida, abrir mercados financeiros, atrair investimentos estrangeiros directos, facilitar transferências de tecnologia e estimular o capital humano (por exemplo, através da educação e dos cuidados de saúde).

Alguns países – principalmente as economias mais pequenas da África Oriental – já estão a demonstrar o quão poderosas essas reformas podem ser. Se todo o continente adoptasse essa estratégia, sustentando e acelerando as reformas necessárias ao longo do próximo meio século, há quem acredite que o continente de África poderia imitar a rápida ascensão da China durante os últimos 50 anos.

Mas nem toda a gente está optimista em relação à capacidade de África de cumprir a sua promessa. Há quem duvide que o continente consiga superar o seu legado de escravidão, colonialismo e competição de grandes potências.

Também existem preocupações sobre o panorama económico mundial, especialmente as tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, e os consequentes efeitos do crescimento e dos preços das matérias-primas. Muito dependerá do desempenho das maiores economias de África – Egipto, Nigéria e África do Sul – e do progresso em tornar a Zona de Livre Comércio Continental Africana um bloco económico regional funcional.

Se África for bem-sucedida, poderá tirar milhões de pessoas da pobreza, ao mesmo tempo que servirá como um parceiro económico estável e próspero para o resto do mundo. Caso contrário, o continente permanecerá limitado pela pobreza, letargia institucional e corrupção, que alimentarão a instabilidade e possivelmente se espalharão para o resto do mundo. África será em breve o lar de um quinto da população mundial. O mundo dormiria melhor se o continente pudesse colocar-se no caminho do crescimento e da prosperidade.

COLIN COLEMAN

Colin Coleman, ex-CEO da Goldman Sachs na África Subsaariana, é membro sénior e professor do Instituto Jackson para Assuntos Globais da Universidade de Yale.

 

 

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