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RISCOS EMERGENTES PARA ECONOMIAS EMERGENTES
Autor: Barry Eichengreen

19-04-2019

De repente, parece que as economias emergentes tomaram fôlego. Os fluxos de capital para estas economias esgotaram no segundo semestre do ano passado, no momento em que a Reserva Federal dos EUA aumentou a sua política de juros por cinco trimestres consecutivos e reduziu o seu balanço. Mas em janeiro, a Fed anunciou uma pausa, que agora parece ter sido alargada: as projeções (dot plots) dos membros do Comité de Operações de Mercado Aberto atualmente indicam que não haverá novas subidas das taxas de juro até ao final do ano. Além disso, a Fed deu sinais de que o “aperto quantitativo”, o processo de permitir que títulos do Tesouro e títulos garantidos por hipotecas saiam do seu balanço, continuará somente até setembro.

Isso significa um alívio misericordioso para as economias emergentes, que foram sustentadas pela retomada das entradas de capital. Neste momento, parece improvável uma repetição do segundo semestre do ano passado, sem falar da “fase turbulenta dos mercados” (taper tantrum), em 2013.

Além disso, há a recuperação da economia chinesa. Outros mercados emergentes, ligados à China por meio de cadeias globais de fornecimento e exportações de matérias-primas, dependem do seu crescimento. Desta forma, eles tinham boas razões para ficarem preocupados quando a atividade industrial chinesa diminuiu em fevereiro, pelo terceiro mês consecutivo. As exportações chinesas estão em baixa. A venda de automóveis está em baixa. Recentemente, há duas semanas, só havia desgraça e tristeza.

Agora sabemos que esse pessimismo foi exagerado. A atividade industrial recuperou em março, refletindo as medidas tomadas pelas autoridades chinesas. Os governantes estão a confiar mais no estímulo fiscal e menos na criação de liquidez para compensar a fraca procura.

No meu ponto de vista, ao contrário do de outros, é que isso é algo que a China pode bem suportar. A dívida do governo ainda é baixa, tendo em conta os padrões dos mercados emergentes. Mais importante, o diferencial entre a taxa de juros e a taxa de crescimento, que molda a dinâmica da dívida, é menor do que praticamente em qualquer outro lugar do mundo.

Consequentemente, o governo central conseguiu aumentar o limite de isenção do imposto sobre o rendimento e adicionar uma dedução fiscal para os cuidados parentais de idosos. Teve margem de manobra para reduzir impostos às pequenas empresas. Pode reduzir o imposto sobre o valor acrescentado (IVA) e gastar acima de 1,5% do PIB em ferrovias, rodovias e outros projetos, conforme anunciado em março.

Não há dúvida de que a carga da dívida empresarial da China é pesada. O financiamento social total ainda deverá crescer até 10% este ano, um crescimento acima do PIB nominal. Grande parte dessa nova liquidez é destinada a empresas públicas relativamente ineficientes, já sobrecarregadas com empréstimos duvidosos. Dito isto, a China continua a ser uma economia controlada o suficiente para que as autoridades possam mitigar a sua desaceleração, tal como a recuperação da produção no mês passado indica.

O alívio pode também estar a chegar na frente da batalha tarifária. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter endurecido a sua retórica anti-China a pedido do seu representante comercial, Robert Lighthizer, que vê as ameaças como sendo necessárias para extrair concessões do governo chinês na propriedade intelectual e transferência de tecnologia. Há também o perigo de tarifas adicionais dos EUA sobre outros produtos e fontes, como veículos motorizados fabricados na Europa e no México.

Mas quando o assunto é tarifas, Trump “ladra mais do que morde”. Quando outros países se recusam a acatar de forma passiva as suas exigências, ele tem um historial de aceitar concessões limitadas e declarar vitória, tal como aconteceu com a renegociação do Acordo de Comércio Livre da América do Norte. Agora, tudo indica que um acordo superficial semelhante está prestes a acontecer com a China.

Ao mesmo tempo, Trump nunca abandona inteiramente a ameaça tarifária. Os conflitos comerciais são um ruído de fundo útil que desvia a atenção das investigações políticas e dos constrangimentos que estão a decorrer. Dão a impressão, para os leigos e desinformados, que a administração está a fazer alguma coisa em relação à desaceleração do crescimento nos EUA.

Consequentemente, as ameaças tarifárias de Trump continuarão a prejudicar os mercados globais e as relações internacionais. Mas elas não culminarão numa guerra tarifária aberta e no completo colapso do sistema multilateral.

Mas ainda existe um risco significativo e grave para os mercados emergentes: uma recessão nos EUA. A inversão da curva de juros no final do mês passado sugere que os investidores estão agora a levar a sério essa possibilidade. Alguns especialistas que estão em instituições como a JPMorgan, que ganham a vida a prever tais eventos, acham que há uma hipótese significativa de haver uma recessão este ano ou no próximo.

Se ocorrer uma recessão, será severa, porque os governantes dos EUA não poderão fazer muita coisa em relação a isso. As taxas de juro nos EUA continuam baixas, dando à Fed pouca margem de manobra para reduções. E, como o défice orçamental já explodiu, haverá menos apetência pelo estímulo fiscal.

Além disso, uma recessão nos EUA iria interagir com outros riscos. Trump procuraria alguém para culpar, para que a guerra comercial pudesse regressar. Nesse caso, a China teria mais dificuldade em ultrapassar o seu problema da dívida corporativa, o que, por sua vez, enfraqueceria o principal mecanismo de expansão económica do mundo.

Por esta razão, o recente fôlego para as economias emergentes poderá ser de curta duração. Dadas as incertezas sobre a política dos EUA e as perspetivas de crescimento da China, ainda é muito cedo para concluir que esses países estão a salvo.

BARRY EICHENGREEN

Barry Eichengreen é professor de economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ex-conselheiro sénior de política do Fundo Monetário Internacional. Seu último livro é The Temptation Populist: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era.

 

 

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