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OS LIMITES DA OFENSIVA DE CHARME DA CHINA
Autor: Minxin Pei

30-11-2018

Durante a última década, a China adoptou uma abordagem cada vez mais musculada nas relações com os países da Ásia Oriental. Mas nos últimos meses surpreendeu os seus vizinhos com uma ofensiva de charme. O que mudou?

Relativamente ao comportamento da China na região, muitas coisas mudaram. Em 2013, a China declarou unilateralmente uma Zona de Identificação para Defesa Áerea que cobria as contestadas ilhas Senkaku/Diaoyu do mar da China oriental – uma movimentação que agravou as tensões com o Japão. Um ano depois, a China começou a construção de ilhas artificiais de grandes dimensões em zonas disputadas do mar da China meridional. Em 2016, a China impôs sanções à Coreia do Sul, como resposta à decisão de permitir que os Estados Unidos implementassem aí um sistema de defesa anti-mísseis.

Agora, porém, a intimidação geoestratégica parece estar a dar lugar à diplomacia. No mês passado, o presidente chinês Xi Jinping recebeu o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, em Beijing. A visita de Abe à China foi a primeira de um líder japonês em sete anos, e a visita programada de Xi ao Japão no próximo ano será a primeira de um presidente chinês em mais de uma década.

Na semana passada, o primeiro-ministro chinês Li Keqiang esteve em Singapura, onde assinou uma versão melhorada do acordo de livre comércio entre a China e Singapura. Além disso, também espera assinar e implementar no próximo ano a Parceria Económica Regional Abrangente, iniciada há vários anos pela China para contrariar a agora extinta Parceria Trans-Pacífico (uma meta demasiado ambiciosa e com pouca probabilidade de ser conseguida, devido às complexidades dos acordos comerciais multilaterais).

A nova e menos antagónica abordagem da China não reflecte uma mudança de opinião nem de objectivos por parte dos seus líderes, mas antes uma mudança na paisagem geopolítica regional. Ao longo dos últimos seis meses, os EUA abandonaram a sua política de envolvimento com a China, adoptando em seu lugar uma estratégia de contenção. Ao enfrentar uma concorrência geopolítica acrescida com os EUA, a China está a esforçar-se para ganhar amigos na região.

Embora a ofensiva de charme da China seja muito recente, os seus contornos já são muito claros. A característica mais saliente é o comércio. Sendo o maior parceiro comercial de muitos países asiáticos, a China oferecerá condições comerciais atraentes aos seus vizinhos, tal como tem feito com Singapura.

A nova táctica da China também inclui um envolvimento diplomático de alto nível mais frequente, centrado nos principais intervenientes regionais, como a Coreia do Sul, a Indonésia e o Vietname, para além do Japão. Xi Jinping, por exemplo, tem agendada uma visita às Filipinas de 20 a 21 de Novembro. Através de cimeiras e de outras oportunidades para reunir com dirigentes, a China tentará cultivar relações mais amigáveis com os seus vizinhos. Para apoiar estes esforços, a máquina propagandística da China já terá provavelmente sido instruída para amainar a retórica nacionalista e excluir conteúdos que possam ofender os seus vizinhos.

Finalmente, a China poderá suavizar temporariamente as suas reivindicações territoriais. Por exemplo, no futuro previsível não deverá transformar os baixios de Scarborough, capturados às Filipinas em 2012,  numa outra ilha artificial. Do mesmo modo, evitará provavelmente enviar navios para perto das ilhas Senkaku/Diaoyu, o que antagonizaria o Japão.

Até agora, os países da Ásia Oriental responderam de forma positiva à nova diplomacia da China, não existindo dúvidas de que saudariam quaisquer tréguas da beligerância chinesa. Mas palavras mansas e acordos comerciais não serão suficientes para assegurar aliados fiáveis à China, especialmente numa competição contra os EUA.

Poucos na Ásia Oriental pretendem viver à sombra de uma China hegemónica. Há muito que o receio desse cenário sustenta a arquitectura da segurança americana na Ásia Oriental, que se baseia em alianças bilaterais e no destacamento contínuo de forças militares dos EUA. E o mesmo cenário sustenta um apoio generalizado na Ásia Oriental para que os EUA ajam como um contrapeso estratégico na região.

Na verdade, a maior parte dos países da Ásia Oriental preferiria não ter de escolher lados. Mas caso os EUA e a China se envolvam num conflito estratégico directo – um cenário cada vez mais provável – seriam os EUA quem recolheria mais apoios, especialmente de aliados como o Japão, a Coreia do Sul, e o Vietname. A Malásia e Singapura também apoiariam provavelmente os EUA.

Se a China quiser fazer amigos de confiança na sua vizinhança, terá de fazer muito mais concessões em questões de segurança, especialmente nas disputas territoriais. Por exemplo, um acordo permanente relativo às Ilhas Senkaku/Diaoyu faria muito para convencer o Japão de que a China não constitui uma ameaça séria. De modo semelhante, se a China aceitasse a arbitragem internacional das suas pretensões no mar da China meridional, isso apaziguaria os receios dos seus vizinhos no sudeste asiático.

Presentemente, não existem indicações de que Xi, que prometeu “devolver a grandeza à China”, esteja sequer a considerar tais concessões. Mas enquanto a abordagem da China for puramente táctica, só produzirá ganhos puramente tácticos. Para a construção de amizades que possam resistir ao conflito estratégico com os EUA, esses ganhos dificilmente serão suficientes.

MINXIN PEI

Minxin Pei é professor de governança no Claremont McKenna College e autor do Capitalismo de Compadrio da China.

 

 

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