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CLARIFICAÇÃO SOBRE A ESTAGNAÇÃO SECULAR
Autor: Lawrence H. Summers

14-09-2018

Joseph Stiglitz rejeitou recentemente a relevância da estagnação secular para a economia americana, e nesse processo atacou (sem me nomear) o meu trabalho nas administrações dos presidentes Bill Clinton e Barack Obama. Não sou um observador desinteressado, mas esta não é a primeira vez que considero o comentário de Stiglitz sobre questões de política tão fraco quanto é forte o seu trabalho teórico.

Stiglitz secunda conservadores como John Taylor, ao sugerir que a estagnação secular seria uma doutrina fatalista inventada para desculpar o fraco desempenho económico verificado durante os anos Obama. Isto é pura e simplesmente errado. A teoria da estagnação secular, como a apresentou Alvin Hansen e como eu a secundei, defende que, deixada entregue a si própria, a economia privada não conseguirá voltar ao pleno emprego após uma contracção acentuada, o que torna essencial a política pública. Considero que isto é aquilo em que Stiglitz acredita, e por isso não compreendo os seus ataques.

Em todos as minhas referências à estagnação secular, salientei que se tratava de um argumento não para qualquer tipo de fatalismo, mas antes para políticas promotoras da procura, especialmente através de uma política fiscal expansionista. Em 2012, Brad DeLong e eu defendemos que a política fiscal expansionista se pagaria provavelmente a ela própria. Também salientei o papel da desigualdade crescente no aumento da poupança, e o papel das mudanças estruturais na de-massificação da economia para a redução da procura.

Que dizer sobre as políticas? Stiglitz condena a incapacidade da administração Obama quanto à implementação de uma política de maior estímulo fiscal, e sugere que isso reflecte uma incapacidade de entendimento económico. Stiglitz foi signatário de uma Carta datada de 19 de Novembro de 2008, também assinada por progressistas reconhecidos como James K. Galbraith, Dean Baker, e Larry Mishel, que pedia um estímulo entre 300 e 400 mil milhões de dólares – menos de metade do que propunha a administração Obama. Portanto, as questões pareciam menos claras na altura do que em retrospectiva.

Nós, os membros da equipa económica de Obama, acreditámos que seria desejável um estímulo de pelo menos 800 mil milhões de dólares – e provavelmente maior – dada a gravidade da situação económica. Foi-nos pedido, pelos membros da equipa política do novo presidente, que recolhessemos tanta validação quanto possível para um grande estímulo, porque valores tão elevados e que se aproximassem do bilião de dólares gerariam um “choque” no sistema político. Por isso trabalhámos no sentido de encorajar uma série de economistas, incluindo Stiglitz, para que oferecessem maiores estimativas do que seria adequado, como se reflecte no memorando informativo que preparei para Obama.

Apesar da popularidade do presidente entrante e de um esforço político generalizado, a Lei para a Recuperação foi aprovada pela mais estreita das margens, tendo persistido dúvidas quanto à sua aprovação definitiva até ao último momento. Não consigo compreender a base do argumento de que seria viável um estímulo fiscal substancialmente maior. E o esforço para procurar um estímulo muito maior teria certamente originado um maior atraso, num momento em que a economia desmoronava – e que poderia ter levado à derrota do expansionismo fiscal. Embora eu desejasse que o clima político tivesse sido diferente, considero que Obama tomou as decisões correctas na abordagem ao estímulo fiscal. Também é, evidentemente, altamente lamentável que depois da inicial Lei para a Recuperação, o Congresso tenha recusado apoiar uma série de propostas de Obama relativas a infraestruturas e créditos fiscais específicos.

Independentemente do tópico da estagnação secular, Stiglitz ataca-me ao dizer que Obama recorreu “aos mesmos indivíduos que têm culpas na subregulamentação da economia, no período pré-crise” e que esperava que estes “consertassem o que tinham ajudado a destruir”. Considero isto um pouco atrevido. Com o patrocínio do Fannie Mae, uma empresa patrocinada pelo governo (EPG), Stiglitz publicou um  artigo em 2002 onde defendia que a probabilidade do capital do banco imobiliário se esgotar era inferior a um em 500 000, e em 2009 apelou à nacionalização do sistema bancário dos EUA. Portanto, eu esperaria que Stiglitz estivesse bem consciente de que a vista para o passado é muito mais clara que a previsão.

E que dizer sobre a prestação da administração Clinton no campo da regulação financeira? Retrospectivamente, teria claramente sido melhor que tivéssemos previsto a necessidade de legislação como as reformas Dodd-Frank de 2010, e tivéssemos um modo de promulgá-la num Congresso dominado pelos Republicanos. E certamente que não previmos a crise financeira que ocorreu oito anos depois de sairmos do governo. Nem antecipámos o modo como os swaps de incumprimento de crédito cresceriam tão rapidamente depois de 2000. Defendemos, contudo, a reforma das EPG, e medidas para refrear o crédito predatório, que, se tivessem sido promulgadas pelo Congresso, teriam feito muito por evitar a acumulação de riscos antes de 2008.

Ainda não vi um argumento causal convincente que ligasse a rejeição da Lei Glass-Steagall à crise financeira. A observação de que a maioria das instituições envolvidas – Bear Stearns, Lehman Brothers, Fannie Mae, a EPG Freddie Mac, AIG, WaMu, e Wachovia – não estavam cobertas pela Glass-Steagall põe em causa a sua centralidade. Sim, o Citi e o Bank of America estavam centralmente envolvidos, mas as actividades que geraram as principais perdas eram perfeitamente permitidas pela Glass-Steagall. E, em aspectos importantes, a rejeição da Glass-Steagall acabou por possibilitar a resolução da crise, ao permitir a fusão do Bear e do JPMorgan Chase e ao autorizar que a Reserva Federal dos EUA abrisse a sua “janela de desconto” ao Morgan Stanley e ao Goldman, que de outro modo teriam sido fontes de risco sistémico.

O outro ataque importante às realizações da administração Clinton visa a desregulamentação dos derivados em 2000. Com a vantagem da análise   a posteriori , desejo que não tivéssemos apoiado esta legislação. Mas, dada a abordagem extremamente desregulamentadora da administração do presidente George W. Bush, custa a crer sugerir que tivesse criado novas regras importantes sobre os derivados para além da lei de 2000; portanto, não tenho a certeza de como as nossas decisões tenham sido consequentes. É também importante lembrar que implementámos a legislação de 2000 não porque quiséssemos desregulamentar, mas sim para afastar aquilo que os advogados profissionais do Tesouro dos EUA, da Fed, e da Comissão de Valores Mobiliários viam como risco sistémico decorrente da incerteza legal que rodeava os contratos de derivados.

Mais importante do que entrar em litígio relativamente ao passado é pensar sobre o futuro. Mesmo que não concordemos sobre decisões políticas passadas e sobre a utilização do termo “estagnação secular”, fico satisfeito que um teórico eminente como Stiglitz concorde com aquilo que tentei salientar ao ressuscitar essa teoria: não podemos depender de políticas de taxa de juro para garantir o pleno emprego. Temos de pensar seriamente em políticas fiscais e medidas estruturais para promover uma procura agregada sustentada e adequada.

Lawrence H. Summers

Lawrence H. Summers, secretário do Tesouro dos EUA (1999-2001) e director do Conselho Económico Nacional dos EUA (2009-2010), é ex-presidente da Universidade de Harvard, onde atualmente é professor universitário.

 

 

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