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DOSSIERS
 
É tempo de uma remodelação financeira global
Autor: Liu Zhenmin

04-05-2018

NOVA IORQUE – Em 2015, os estados-membros das Nações Unidas reuniram-se e comprometeram-se a atingir um conjunto abrangente e universal de 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que abarcam todas as dimensões do desenvolvimento económico e social.

O investimento será indispensável para que se atinjam os ODS, que visam eliminar a pobreza, acabar com a fome, combater as mudanças climáticas, construir infra-estruturas resistentes, e promover o crescimento inclusivo e sustentável. Contudo, passados três anos, não fizemos ainda o suficiente para prepararmos os nossos sistemas financeiros de modo a cumprirmos os ODS.

A ONU, em coordenação com quase 60 agências e instituições internacionais, publicou recentemente uma avaliação do progresso global no sentido da alteração do financiamento, das políticas e dos regulamentos necessários para atingir os ODS. Nesta avaliação indica-se que, apesar do impulso positivo no investimento sustentável, os objectivos não serão atingidos se não deslocarmos todo o sistema financeiro para horizontes de investimento de longo prazo, e se não transformarmos a sustentabilidade numa preocupação central. Sem uma perspectiva de longo prazo, determinados riscos, especialmente os associados às mudanças climáticas, não serão considerados nas decisões do investimento privado.

Os fluxos financeiros globais são enormes, mas a qualidade do investimento é importante. Actualmente, os padrões de investimento de curto prazo estão a motivar a volatilidade do mercado de capitais e das taxas de juro, e a aumentar significativamente os custos e riscos do investimento sustentável, especialmente para os países em desenvolvimento. Se criarmos incentivos que dirijam o fluxo do financiamento para projectos infra-estruturais de longo prazo como pontes, estradas, e sistemas de água e saneamento, estaremos a contribuir de forma importante para o desenvolvimento e para a estabilidade.

E esses projectos de investimento devem ser mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e social. Como os investimentos de hoje, especialmente nos sistemas energéticos, definirão os caminhos de desenvolvimento para as próximas décadas, teremos de fazer mais para assegurar que os investimentos actuais, e futuros, não comprometam os nossos esforços para enfrentar as mudanças climáticas. Além disso, tal como em todas as políticas económicas, a igualdade de género precisa de tornar-se uma consideração central.

Não será fácil transformar as finanças. Os mercados de capitais de hoje estão altamente orientados para os resultados no curto prazo, como se comprova pela volatilidade do fluxo de capitais e pelo curto período de detenção de acções em alguns mercados desenvolvidos, que decresceu, de uma média de oito anos na década de 1960, para oito meses na actualidade. E, embora os investidores institucionais no longo prazo detenham cerca de 80 biliões de dólares em activos, em que metade destes representam responsabilidades de longo prazo, perto de 75% são detidos em instrumentos de liquidez, contra apenas 3% em infra-estruturas.

A mesma tendência prevalece na economia real. Em 2016, as empresas do S&P 500 gastaram mais de 100% dos seus resultados em dividendos e recompras de acções, que impulsionam os preços das acções no curto prazo, em vez de aumentarem o valor no longo prazo através do investimento. Um relatório de Fevereiro de 2017 do McKinsey Global Institute concluiu que 87% dos executivos e responsáveis corporativos sentem-se “pressionados a demonstrar um forte desempenho financeiro em dois anos ou menos”, enquanto 65% dizem que “a pressão no curto prazo aumentou nos últimos cinco anos”. Além disso, 55% disseram que adiariam investimentos em projectos com rendibilidades positivas para atingirem metas trimestrais relativas ao balanço patrimonial.

Transferir a orientação dos investidores do curto prazo para um pensamento de longo prazo é um pré-requisito para atingirmos todos os nossos objectivos económicos, sociais, e ambientais. Mas o sector privado não fará esta transição sozinho. Os decisores políticos devem intervir e liderar o processo. Os mercados não funcionam de forma justa e no interesse do público sem regras bem ponderadas e bem aplicadas definidas pelos governos. Para além do investimento público, esta é uma das funções mais essenciais do estado.

Especificamente, a transformação das finanças globais obrigará a alterações nas regulamentações prudenciais, nos requisitos de capital, na cultura do investimento empresarial, e na compensação dos executivos, que precisará de novos e mais adequados termos de comparação. As reformas às práticas contabilísticas, especialmente para os investimentos ilíquidos, também serão necessárias, por exemplo, para reduzir o enviesamento de curto prazo introduzido pela contabilização a preços de mercado. E os investidores institucionais devem adoptar uma interpretação mais ampla das responsabilidades fiduciárias, que se devem concentrar no longo prazo e incorporar todos os factores que tenham um impacto relevante sobre os retornos, sejam estes financeiros, ambientais, sociais, ou relativos à governação.

Como ainda faltam 12 anos, poderá parecer que o mundo tem muito tempo para evoluir no sentido dos ODS. Mas as anteriores experiências da ONU com iniciativas orientadas por objectivos demonstram a importância da tomada de acções decisivas num ponto inicial do processo. Para piorar a situação, as tensões geopolíticas e comerciais crescentes ameaçam atrasar-nos, em vez de nos ajudarem. Essas desavenças não devem constituir um obstáculo à consecução dos ODS e à construção de um futuro sustentável.

Acima de tudo, esse futuro precisa de ser financiado. Embora muitas instituições públicas e privadas em vários níveis das finanças internacionais já tenham começado a mudar, o sistema financeiro global ainda tem de conseguir o tipo de transformação necessário. Já concordámos quanto ao que precisamos de fazer; agora, precisamos de fazê-lo.

Liu Zhenmin

Liu Zhenmin é Subsecretário-Geral das Nações Unidas para Assuntos Económicos e Sociais.

 

 

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