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CHINA: O GIGANTE DIGITAL
Autor: Kai-Fu Lee, Jonathan Woetzel

08-12-2017

XANGAI – A China afirmou-se solidamente como líder global nas tecnologias digitais orientadas para o consumidor. É o maior mercado mundial para o comércio electrónico, responsável por mais de 40% das transacções globais, e é um dos três principais países no investimento de capital de risco em veículos autónomos, impressão 3D, robótica, drones e inteligência artificial (IA). Um em cada três unicórnios (start-ups avaliadas em mais de mil milhões de dólares) é chinês, e os fornecedores chineses na nuvem detêm o recorde mundial da eficiência computorizada. Embora a balança comercial da China relativamente a serviços seja globalmente deficitária, ultimamente o país tem apresentado um superávite comercial nos serviços digitais que ascende a 15 mil milhões de dólares por ano.

A sustentar a evolução notável da China na economia digital estão gigantes da Internet como a Alibaba, a Baidu e a Tencent, que comercializam os seus serviços numa escala gigantesca, e que trazem novos modelos de negócio ao mundo. Conjuntamente, estas três empresas têm entre 500 a 900 milhões de utilizadores activos mensais, nos seus sectores respectivos. A sua ascensão foi facilitada por uma regulamentação mínima (ou tardia, para ser mais correcto). Por exemplo, os reguladores só definiram limites para o valor das transferências de dinheiro on-line 11 anos depois do lançamento do serviço pela Alipay.

Actualmente, estas empresas da Internet usam as suas posições para investirem no ecossistema digital da China – e no emergente grupo de empreendedores tenazes que cada vez mais o definem. A Alibaba, a Baidu, e a Tencent financiam, no seu conjunto, 30% das maiores start-ups da China, como a Didi Chuxing (50 mil milhões de dólares), a Meituan-Dianping (30 mil milhões de dólares), e a JD.com (56 mil milhões de dólares).

Com o maior mercado interno do mundo, e uma abundância de capital de risco, os antigos empreendedores “imitadores” da China transformaram-se em motores da inovação. Lutaram como gladiadores no mercado mais competitivo do mundo, aprenderam a desenvolver modelos de negócio sofisticados (como o modelo freemiumda Taobao), e construíram fossos intransponíveis para protecção dos seus negócios (por exemplo, a Meituan-Dianping desenvolveu uma aplicação integrada para alimentação, que inclui entregas).

Como consequência, a valorização dos inovadores chineses é muitas vezes maior do que a valorização dos seus congéneres ocidentais. Além disso, a China lidera o mundo em alguns sectores, do livestreaming (um exemplo disto é a Musical.ly, uma aplicação para sincronização labial e partilha de vídeos) à partilha de bicicletas (a Mobike e a Ofo têm mais de 50 milhões de viagens diárias na China, e estão a expandir-se para o estrangeiro).

De forma mais importante, a China é pioneira nos pagamentos móveis, com mais de 600 milhões de utilizadores móveis chineses capazes de realizar transacções peer-to-peer a um custo praticamente nulo. A infra-estrutura para pagamentos móveis da China – que já suporta um número de transacções muito superior ao do mercado de pagamentos móveis a terceiros nos Estados Unidos – transformar-se-á numa plataforma para um número ainda maior de inovações.

À medida que as empresas chinesas continuam a melhorar a sua capacidade técnica, a vantagem de mercado do país está a transformar-se numa vantagem de dados, que é crítica para apoiar o desenvolvimento da IA. A empresa chinesa Face++ angariou recentemente 460 milhões de dólares, a maior quantia de sempre para uma empresa de IA. A DJI (uma empresa de drones de consumo avaliada em 14 mil milhões de dólares), a iFlyTek (uma empresa de reconhecimento de voz avaliada em 14 mil milhões de dólares), e a Hikvision (uma empresa de vigilância vídeo avaliada em 50 mil milhões de dólares) são as empresas mundiais mais valiosas nos seus respectivos domínios.

Uma outra tendência importante em desenvolvimento na China é a “fusão do on-line com o off-line” (OMO: do inglês, “online merging with offline”) – uma tendência em que a Sinovation Ventures aposta, juntamente com a IA. O mundo físico digitaliza-se, com as empresas a detectarem a localização, os movimentos e a identidade das pessoas, e a transmitirem esses dados para permitir a personalização das experiências on-line.

Por exemplo, as lojas OMO estarão equipadas com sensores que conseguirão identificar os clientes e discernir o seu comportamento provável, de um modo tão integrado como fazem hoje os websites de comércio electrónico. Do mesmo modo, o ensino de línguas OMO combinará professores nativos que darão aulas remotamente, assistentes locais que manterão a animação do ambiente, software autónomo para correcção da pronúncia, e hardwareautónomo para correcção de testes e trabalhos de casa. Estando a China em posição para reconstruir a sua infra-estrutura off-line, poderá garantir uma posição de destaque no OMO.

Porém, embora a China assuma a liderança na digitalização das indústrias de consumo, as empresas atrasaram-se na adopção das tecnologias digitais. Isto pode estar prestes a mudar. Novos  estudos do McKinsey Global Institute concluíram que três factores determinantes da economia digital – a desintermediação (eliminação de intermediários), a desagregação (separação de processos em componentes), e a desmaterialização (deslocação da forma física para a forma electrónica) poderão ser responsáveis por (ou criar) entre 10 e 45% do rendimento industrial até 2030.

Os intervenientes que consigam aproveitar esta evolução com êxito serão provavelmente suficientemente grandes para influenciarem o panorama digital global, inspirando empreendedores digitais muito para além das fronteiras da China. O valor transferir-se-á dos lentos agentes estabelecidos para os ágeis entrantes digitais armados de novos modelos de negócio, e de uma etapa da cadeia de valor para outra. A destruição criativa em grande escala eliminará ineficiências e impulsionará a China para um novo patamar de competitividade global.

O governo da China tem planos ambiciosos para o futuro do país enquanto potência digital global. O Programa para o Empreendedorismo e a Inovação em Massa, liderado pelo Conselho de Estado, resultou em mais de 8 000 incubadoras e aceleradoras. O programa governamental do Fundo Orientador distribuiu um total de 24,7 mil milhões de dólares para capital de risco e investidores em participações privadas – um investimento passivo, mas com incentivos especiais de amortização. As autoridades mobilizam agora recursos para investirem 180 mil milhões de dólares na construção da rede móvel 5G da China durante os próximos sete anos, e estão a apoiar o desenvolvimento da tecnologia quântica.

O Conselho de Estado também emitiu orientações para o desenvolvimento de tecnologias IA, com o objectivo de transformar a China num centro global de inovação em IA até 2030. Xiongan, actualmente a ser construída, poderá ser a primeira “cidade inteligente” concebida para veículos autónomos. Na província de Guangdong, o governo estabeleceu a ambiciosa meta de uma automação a 80% até 2020.

Estas ambições perturbarão inevitavelmente o mercado de trabalho, começando com as funções administrativas rotineiras (como o apoio a clientes e o telemarketing), seguidas das funções braçais rotineiras (como o trabalho em linhas de montagem), e acabando por afectar algumas funções não-rotineiras (tais como a condução ou mesmo a radiologia). Um recente estudo do MGI concluiu que, num cenário de automação rápida, entre 82 a 102 milhões de trabalhadores chineses teriam de mudar de emprego.

A reconversão dos deslocados representará um importante desafio para o governo da China, assim como impedir que os principais intervenientes digitais assegurem monopólios que asfixiem a inovação. Mas a prontidão do governo em aderir à era digital emergente, prosseguindo políticas de apoio e evitando a regulamentação excessiva, já colocou o país numa posição de vantagem significativa.

KAI-FU LEE

Kai-Fu Lee é co-fundador e CEO da Sinovation Ventures, uma das principais empresas de capital de risco que investem na China e na América do Norte.

   

JONATHAN WOETZEL

Jonathan Woetzel é um associado senior da McKinsey, um director do McKinsey Global Institute, e co-autor de No Disruption Ordinário: The Four Global Forces Breaking All the Trends.

 

 

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