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REVERTER A MORTE DE VENEZA
Autor: Carlo Ratti

29-11-2019

As últimas cheias, entre as piores na história de Veneza, submergiram alguns conceituados pontos de referência cultural da cidade, como a Basílica de S. Marcos, na Piazza San Marco. Esta foi apenas a sexta vez em 1200 anos que a basílica foi inundada, mas a quarta nas últimas duas décadas, e a segunda vez em menos de 400 dias. A este ritmo, o frágil bordado de callicampi e palazzi de Veneza, tecido sobre sedimentos que se afundam, poderá nas próximas décadas ser arrastado pelas águas. Mas que dizer das pessoas que o habitam?

Os romanos da Antiguidade usavam duas palavras para descrever as cidades: a urbs, referente aos edifícios e às infra-estruturas, e a civitas, ou a cidadania activa e envolvida. Hoje, o mundo inquieta-se com a urbs inundada e danificada de Veneza, que é reconhecidamente muito vulnerável até a pequenas subidas do nível do mar, como as que são provocadas pelas alterações climáticas. Mas fracassou nitidamente no reconhecimento da medida em que a civitas veneziana se está a desagregar.

Há décadas que a população de Veneza diminui. Hoje existe apenas um terço dos venezianos de há 50 anos. Mas esse declínio é meramente um sintoma de uma doença em rápido agravamento: a imprudente promoção do turismo de massas e a falta de investimento em capital humano.

Se os responsáveis políticos de Veneza não tivessem começado por deslocar recursos do ensino superior e da inovação na década de 1980, Veneza poderia já ter emergido como uma espécie de Cambridge do Adriático. Mas o turismo foi considerado uma via muito mais rápida para o crescimento. Assim, com a ajuda do governo, o número de visitantes subiu constantemente: em 2017, a cidade de 260 000 habitantes recebeu mais de 36 milhões de turistas estrangeiros.

À medida que os venezianos fugiam das hordas, foi-se deteriorando a sociedade civil de Veneza e foi-se consolidando o torpor político. Os responsáveis municipais preferem queixar-se das fraquezas da cidade a tomar medidas eficazes para resolvê-las. E o governo nacional de Itália tem falhado de forma consistente na aplicação construtiva da sua autoridade sobre a cidade. Estas tendências contribuíram para a desadequada vigilância ambiental que deixou tão exposta a urbs.

Sim, Veneza está envolvida num projecto de contenção de cheias, avaliado em 5,5 mil milhões de euros (6 mil milhões de dólares) e denominado Modulo Sperimentale Elettromeccanico (MOSE). Mas o projecto, apresentado em 1984 – quando Veneza já estava a afundar – e iniciado em 2003, deveria ter sido concluído em 2011. Mesmo que o MOSE seja concluído até ao actual prazo limite de 2021, este ou outro projecto de construção não serão suficientes para proteger Veneza. Embora o investimento em infra-estruturas seja obviamente fundamental – especialmente na adaptação às alterações climáticas – Veneza tem de olhar para além da urbs e restaurar a civitas para evitar o fim prognosticado por muitos. SUBSCRIBE

O primeiro passo consiste em remover Veneza da jurisdição do governo italiano, cujos erros consistentes promoveram o declínio da cidade nas últimas décadas. Isto não se trata de uma qualquer exigência provinciana para o ressurgimento da República de São Marcos. Trata-se de um apelo a um novo tipo de constructo político virado para o exterior: uma “cidade aberta” que acolha todos aqueles que pretendam genuinamente instalar-se aí como cidadãos de pleno direito, e não como participantes no que o romancista americano Don DeLillo apelidou de “marcha da estupidez” do turismo.

Esta nova e aberta Serenissima (como se denominava a República Veneziana medieval) funcionaria especificamente para atrair uma civitas capaz e empenhada, que esteja preparada para ajudar a proteger e reconstruir a urbs. Isto incluiria inovadores com planos empresariais credíveis (e os seus financiadores), engenheiros investigadores das adaptações às alterações climáticas, profissionais liberais como médicos e advogados, e estudantes dispostos a dedicar alguns anos no apoio à restauração dos magníficos palazzi da Lagoa de Veneza. Veneza tornar-se-ia desta forma um campo de ensaio para um modelo urbano inovador, baseado num novo contrato social, ajustado ao que o sociólogo Manuel Castells denominou de “espaço de fluxos” global.

Esta proposta pode parecer radical, mas tem precedentes. Em meados do século XIV, a população de Veneza decresceu 60%, devido aos surtos de peste bubónica. A cidade abriu-se aos estrangeiros, oferecendo a cidadania a quem planeasse permanecer no longo prazo. Os recém-chegados só precisavam de adoptar as principais características da “Venezidade”, que incluíam a vontade de trabalhar. Não existem motivos para que uma estratégia semelhante não funcione na actualidade.

Com efeito, graças às ferramentas digitais, seria mais simples do que nunca medir o envolvimento cívico, desde o tempo passado na cidade – muitas propriedades de Veneza são de não-residentes e são usadas apenas alguns dias por ano – até às contribuições tangíveis, o que poderia tornar-se um motivo de orgulho nas redes sociais. Uma tributação avultada sobre os proprietários não-residentes – que são na sua generalidade extremamente abastados – também ajudaria a apoiar a comunidade local.

À medida que o nível do mar sobe e que Veneza se afunda, a cidade tem de tomar medidas resolutas no sentido do restauro e da protecção da sua urbs. Mas estes esforços de pouco servirão sem uma civitas próspera e empenhada. Para salvarmos Veneza, temos primeiro de salvar os venezianos – e acima de tudo, deles próprios.

CARLO RATTI

Carlo Ratti ensina no Massachusetts Institute of Technology, onde dirige o Senseable City Lab, e é co-fundador do escritório internacional de design CRA-Carlo Ratti Associati. Ele é co-presidente do Conselho do Futuro Global do Fórum Económico Mundial sobre as Cidades.

 

 

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