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A liderança climática dos países em desenvolvimento
Autor: Lee Whit, Tanguy Gahouma

01-11-2019

Quando o Gabão ratificou o acordo climático de Paris, de 2015, o seu verdadeiro trabalho estava apenas a começar. O principal desafio foi encontrar formas de conservar o ambiente natural do país e enfrentar a crescente crise climática, sem limitar as oportunidades económicas para o seu povo. Quase quatro anos depois, temos uma compreensão mais profunda da crise que enfrentamos e a necessidade de conciliar o desenvolvimento do nosso país com a sua resposta climática é maior e mais urgente do que nunca.

Os países em desenvolvimento como o nosso não podem seguir o mesmo caminho de desenvolvimento que as economias ocidentais seguiram no último século e meio. Conhecemos as terríveis consequências da rápida industrialização para o clima e o ambiente a nível mundial; por isso, temos de encontrar uma maneira diferente de melhorar os padrões de vida.

É, portanto, justo que as economias avançadas ofereçam assistência tecnológica e financeira adicional ao mundo em desenvolvimento. Afinal de contas, esse é o preço da nossa responsabilidade partilhada pelo planeta. Mas as soluções climáticas não virão apenas do Ocidente. Os países em desenvolvimento – incluindo o Gabão – têm também uma oportunidade de liderar essa transformação.

O crescimento económico não precisa de entrar em conflito com a protecção ambiental e a mitigação climática. No Gabão, o governo está empenhado em reduzir as emissões nacionais de gases com efeito de estufa em pelo menos 50% até 2025. Na qualidade de ministro das Florestas, dos Oceanos, do Ambiente e das Alterações Climáticas e de chefe do Conselho Nacional do Clima, respectivamente, sabemos que a administração das florestas tropicais que cobrem quase nove décimos do país ajudar-nos-á a atingir esse objectivo. Mas também sabemos que as nossas florestas e os nossos recursos naturais são vitais para o desenvolvimento económico e social.

Como é que o Gabão pode conciliar estes objectivas aparentemente contraditórios? Como é que podemos desenvolver os nossos sectores da agricultura e da madeira, que são essenciais para melhorar a segurança alimentar e diversificar a economia, ao mesmo tempo que cumprimos também os nossos compromissos climáticos internacionais e protegemos a biodiversidade rica do Gabão? A resposta está no planeamento inteligente e na redução de danos desnecessários, para que as nossas florestas e terras possam servir de travão natural às alterações climáticas e como base para o desenvolvimento sustentável.

O Gabão pretende cumprir a maior parte do seu compromisso climático através de práticas florestais aprimoradas, que possam reduzir as emissões de dióxido de carbono enquanto mantêm a produção de madeira. Juntamente com a Conservação da Natureza, a Iniciativa Florestal da África Central (CAFI) e o Mecanismo de Parceria para o Carbono Florestal, o governo está a lançar uma iniciativa nacional para reduzir a contribuição da desflorestação para as alterações climáticas e perda de biodiversidade.

Em 2017, realizámos um estudo de referência para quantificar o impacte das práticas de exploração madeireira existentes. Nos próximos 12 meses, trabalharemos com os gestores de concessão para se proceder a melhorias, tais como estreitar as estradas de desflorestação, reduzir o desperdício de madeira e utilizar mais equipamentos de baixo impacte. Em seguida, realizaremos um estudo de acompanhamento para medir o efeito das mudanças.

As últimas investigações mostram que, embora a exploração florestal seletiva danifique geralmente entre 11 e 33% da floresta remanescente, uma floresta bem gerida pode reter até 96% do seu carbono e 85% ou mais da sua biodiversidade. Ao quantificar as reduções destas repercussões, podemos contribuir para os nossos compromissos climáticos partilhados ao abrigo do acordo de Paris, bem como para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Ao desenvolver uma exploração florestal mais sustentável e ecológica, o Gabão pode dar o exemplo. Compreendemos os imperativos económicos dos setores que ajudam a elevar os padrões de vida. Mas também percebemos que, se não conseguirmos proteger as nossas florestas e paisagens naturais, não alcançaremos os objetivos do acordo de Paris. Além disso, qualquer ganho económico será “sol de pouca dura”.

Embora as reduções drásticas de combustíveis fósseis sejam essenciais, só poderemos evitar uma crise climática se aumentarmos a capacidade da natureza de combater o aquecimento global. Isso significa aproveitar o poder das florestas tropicais para absorver o CO2 que já foi emitido. Essas soluções naturais podem potencialmente fornecer um terço da resposta climática de que precisamos até 2030, para manter o aquecimento global abaixo dos limites definidos pelo acordo de Paris.

De facto, o Gabão está no coração de um centro de poder de fixação de carbono na África Central. Em 2015, o Gabão e cinco países vizinhos estabeleceram a CAFI com o objetivo de reconhecerem e preservarem o valor das florestas da região, que juntas formam a segunda maior floresta tropical do mundo, armazenando 70 gigatoneladas de carbono e fornecendo meios de subsistência a 60 milhões de pessoas. A Bacia do Congo pode ter apenas um terço do tamanho da Amazónia, mas armazena 60% da quantidade de carbono que a Amazónia armazena e a sua fixação anual de carbono é proporcionalmente mais alto. Atualmente, a CAFI está a tentar aproveitar os sucessos anteriores, ao assumir compromissos mais ambiciosos, ao melhorar a coordenação entre as iniciativas existentes e ao arranjar novos parceiros e doadores.

Somos encorajados pelo progresso que estamos a fazer no Gabão e na região da Bacia do Congo como um todo. Os governos dos países em desenvolvimento precisam de aproveitar esse sucesso e continuar a liderar pelo exemplo, através dos seus esforços para combater as alterações climáticas, criar resiliência e promover o desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, o recente acordo entre a Noruega e o Gabão, proporcionado pela CAFI, é um passo significativo na direção certa. No âmbito deste acordo de dez anos, a Noruega pagará ao Gabão um preço mínimo de 10 dólares por cada tonelada certificada pela redução das emissões de gases com efeito de estufa causadas pela desflorestação e degradação, bem como pela absorção de CO2 pelas florestas naturais.

Coletivamente, no entanto, ainda podemos fazer muito mais para proteger e restaurar florestas, a fim de combater as alterações climáticas. Muitos governantes ainda mantêm secretamente a ideia errada de que o desenvolvimento económico e a ação climática são incompatíveis. Não é esse o caso, tal como estamos a demonstrar no Gabão. Mas até que mais governos se juntem a nós, o mundo continuará aquém dos seus compromissos climáticos.

Os efeitos das alterações climáticas não são limitados pelas fronteiras nacionais. Somente um esforço verdadeiramente global para reduzir as emissões e reforçar os reservatórios de carbono permitir-nos-á evitar uma crise climática ainda pior.

LEE WHITE

Lee White é Ministro das Florestas, Oceanos, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Gabão.

TANGUY GAHOUMA

Tanguy Gahouma é o chefe do Conselho Nacional do Clima do Gabão.

 

 

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