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ONDE ESTÁ A ÁGUA
Autor: Manzoor Qadir, Vladimir Smakhtin

25-05-2018

Em muitos lugares no mundo, já não existem recursos convencionais de água doce disponíveis para satisfazer a procura crescente. Para além de limitar o desenvolvimento económico, a falta de recursos suficientes de água doce ameaça o bem-estar de milhares de milhões de pessoas, causando conflitos, agitação social e migrações. A única maneira de abordar este desafio consiste em repensar radicalmente o planeamento e a gestão dos recursos hídricos, de um modo que saliente a exploração criativa de fontes não-convencionais de água.

Existe um número grande e crescente de fontes não-convencionais de água doce com um potencial enorme, a começar pela dessalinização de água do mar ou altamente salobra. Já existem 18,000 unidades de dessalinização em mais de 100 países, que produzem perto de 32 mil milhões de metros cúbicos de água doce – cerca de um terço do volume que passa anualmente nas Cataratas do Niágara.

Perto de 44% da produção global de água dessalinizada ocorre no Médio Oriente e na África do Norte, e estão a ser construídas novas unidades na Ásia, nos Estados Unidos, e na América Latina. A capacidade de dessalinização anual em todo o mundo aumenta em média entre 7 e 9%.

Estudos recentes demonstram que o custo da irrigação com água dessalinizada, embora continue mais elevado que no caso da água potável convencional, está a diminuir. Há algumas décadas, a água dessalinizada custava mais de 5 dólares por metro cúbico; hoje, custa menos de 50 cêntimos de dólar.

Uma segunda e prometedora fonte alternativa de água doce é o nevoeiro: podemos usar uma rede vertical para capturar a humidade atmosférica, acumulando as gotículas num tanque ou num sistema de distribuição. Como o nevoeiro é bastante comum, mesmo em regiões secas, os sistemas para captação do nevoeiro representam um modo prático e económico para proporcionar água doce directamente às comunidades rurais.

Já existem alguns países a aproveitar esta tecnologia. Em Cabo Verde, um metro quadrado de um sistema de captação rende diariamente até 12 litros de água potável na época alta. Na Eritreia, uma rede com 1600 metros quadrados recolhe até 12 000 litros por dia. O maior sistema de recolha e distribuição de nevoeiro do mundo foi construído em 2015 nas montanhas de Marrocos, uma região com fraca disponibilidade de água, mas com nevoeiro abundante durante seis meses por ano.

A colheira de nevoeiro custa hoje entre 1 e 3 dólares por metro cúbico de água. Espera-se que estes custos decresçam, à medida que for crescendo o mercado para o equipamento, e mais populações se responsabilizem pelo seu funcionamento e manutenção. Devido à sua simplicidade, os sistemas para colheita do nevoeiro apresentam custos mínimos de operação e são facilmente geridos por equipas não especializadas.

De modo semelhante, a “recolha de águas pluviais por micro-captação”, que usa declives e contornos específicos para aumentar o escoamento das águas pluviais e para concentrá-los numa bacia-cisterna onde é “armazenada” no solo, é útil para os ecossistemas em zonas áridas, onde se perde a maior parte da precipitação. Vários projectos no Médio Oriente e na África do Norte demonstram o potencial desta abordagem para a sustentação do crescimento vegetal em regiões muito secas.

Uma outra fonte não-convencional de água doce são as águas cinzentas e residuais usadas e provenientes de áreas urbanas. Já foram demonstrados e documentados mecanismos para a recolha, tratamento e reutilização seguras dessas águas, através de regulamentação exigente sobre descargas de efluentes, com a América do Norte, a Europa do Norte e o Japão a servirem de exemplo para o mundo. As águas subterrâneas confinadas em formações geológicas profundas e em aquíferos no alto mar também podem ser aproveitadas.

Uma última – e especialmente surpreendente – opção potencial, que os Emirados Árabes Unidos estão a explorar, é o reboque de icebergues. Embora a indústria petrolífera do Canadá reboque icebergues com regularidade para impedir que estes danifiquem plataformas em alto mar, manter o gelo intacto ao longo de uma viagem de 10 000 quilómetros (6 200 milhas) para sul, que pode demorar até um ano, não será um pequeno feito para os EAU. Mas dada a quantidade de água retida num icebergue de dimensão média, valerá a pena ser considerado.

Apesar da promessa confirmada das fontes não-convencionais de água, para não falar da urgência do desafio da água em muitos países, o potencial destas soluções permanece lamentavelmente sub-explorado. Enquanto os países com falta de água regulamentam a utilização da água dessalinizada, os responsáveis pelas decisões precisam de actualizar as suas estratégias de investimento, as suas políticas para gestão da água, e os orçamentos públicos, de modo a integrarem toda a gama de recursos hídricos.

Para esse efeito, os governos devem abandonar o seu pressuposto obsoleto de que o aproveitamento das fontes não-convencionais de água será tecnicamente impraticável ou excessivamente dispendioso. Devem envidar-se esforços para analisar os benefícios potenciais de um tal investimento, considerando as consequências da escassez de água em termos económicos, sociais, ambientais e para a saúde.

Os governos também devem clarificar as responsabilidades das agências nacionais de gestão da água, e melhorar a capacidade das instituições relacionadas com a água, a todos os níveis, para a implementação de programas em larga escala relativos a fontes não-convencionais de água. As melhores práticas devem ser explicitadas, as inovações devem ser identificadas e testadas, e o conhecimento e a experiência devem ser partilhados.

O sector privado também tem um papel a desempenhar na transição para os recursos hídricos não-convencionais – um papel que deve ir além dos esforços actuais para aproveitamento da água dessalinizada e das águas urbanas cinzentas e residuais. Finalmente, as instituições locais, as organizações não-governamentais e as comunidades locais devem ser mobilizadas, por exemplo através de campanhas públicas que demonstrem os benefícios de aproveitar o potencial dos recursos hídricos não-convencionais.

O Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 6  exige o acesso universal a água limpa e ao saneamento. Se os governos não adoptarem os recursos hídricos não-convencionais, atingir este objectivo será tão difícil como extrair água de uma pedra, e as consequências para as regiões com falta de água serão desastrosas.

Manzoor Qadir

Manzoor Qadir, é director assistente no Instituto Universitário da ONU para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH), apoiado pelo Governo do Canadá e sediado na Universidade McMaster.

Vladimir Smakhtin

Vladimir Smakhtin, é director no Instituto Universitário da ONU para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH), apoiado pelo Governo do Canadá e sediado na Universidade McMaster.

 

 

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