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Patriarcado, Mãe Terra e feminismos
Autor: Raúl Zibechi

02-02-2018

Estudo da revista Scientific American consegue rastrear alguns comportamentos que permitem ir além para compreender como o patriarcado é uma das principais causas da deterioração ambiental do planeta.

Cuidar do meio ambiente ou da Mãe Terra é coisa de mulheres, segundo um recente estudo da revista Scientific American publicado no final de dezembro, onde se destaca que as mulheres superam os homens no campo da ação ambiental; em todos os grupos de idade e em todos os países.

No título do artigo diz “Os homens resistem ao comportamento verde”, considerado pouco masculino, e chega a essa conclusão após realizar uma ampla pesquisa com 2 mil homens e mulheres estadunidenses e chineses. O estudo afirma que para eles, a atitudes mais elementares, como utilizar bolsas reutilizáveis para fazer compras em vez das de plástico, é considerado pouco masculino.

O trabalho está enfocado no marketing, com o objetivo de conscientizar o público masculino à importância de ter um comportamento mais “verde”, ou sustentável. Outra conclusão interessante – embora triste se visto por outro ângulo – é que os homens que se adaptam melhor ao estilo de vida “verde” são os que se sentem mais seguros de sua masculinidade.

Entretanto, o estudo consegue rastrear também alguns comportamentos que permitem ir além para compreender como o patriarcado é uma das principais causas da deterioração ambiental do planeta. Donald Trump não é uma exceção ao negar o colapso climático e defender as ações destrutivas, tanto as guerras quanto o consumismo irresponsável.

Proponho, então, três visões que podem ser complementares e que afetam o mundo dos machos, não para que adotemos atitudes politicamente corretas – com suas doses de cinismo – e sim para ajudar no processo de emancipação coletiva dos povos.

A primeira se relaciona com o capitalismo de guerra que enfrentamos (e sofremos) atualmente. Esta guinada do sistema a um modelo mais agressivo, que se acelerou na última década, não só provoca mais guerras e violências como também uma profunda mudança cultural: a proliferação dos machos alfa, desde os mandatários dos grandes e poderosos estados até os machos altaneiros dos bairros e populações mais pobres, que pretendem marcar seus territórios, seus dominados e, sobretudo, suas dominadas.

Uma visão com mais amplitude geopolítica do tema permite uma leitura mais bem posicionada neste período de decadência do império hegemônico – que se complementa com a aparição de infinidade de machinhos alfa nos territórios dos setores populares, onde narcos e paramilitares pretendem substituir o padre, o comissário e o pai de família no controle da vida cotidiana dos de baixo.

A segunda visão vem insinuada no estudo citado, quando conclui que as mulheres tendem a viver um estilo de vida mais ecológico, já que desperdiçam menos, reciclam mais e deixam uma marca de carbono menor.

Isto se relaciona diretamente com a reprodução, que é o ponto cego das revoluções, empenhadas num produtivismo radical para, supostamente, superar os países capitalistas. A produção fabril e o operário industrial têm sido peças centrais na construção do novo mundo, desde Marx em diante. Em paralelo, a reprodução e o papel das mulheres têm sido sempre desconsiderados.

Não podemos combater o capitalismo nem o patriarcado, nem cuidar do meio ambiente nem dos nossos filhos e filhas, sem discutir o tema da reprodução – que é, precisamente, o cuidado da vida. Entendo que a reprodução pode ser também questão dos homens, mas isso requer uma política explícita nessa direção.

Como diz o comunicado de convocatória do Primeiro Encontro Internacional, Político, Artístico, Esportivo e Cultural das Mulheres que Lutam, os homens zapatistas se encarregarão da cozinha e de limpar e do que se necessite.

Será que essas tarefas são menos revolucionárias? Nos dão menos visibilidade, mas são as ações esquecidas que tornam possível as grandes façanhas. Mas nos envolvermos mais nessa missão, nós homens precisamos nos dedicar a um forte exercício para limitar os nossos egos, ainda mais quando se trata de um ego revolucionário.

A terceira visão é talvez a mais importante: o que os homens heterossexuais de esquerda podem aprender dos movimentos feministas?

A primeira lição seria reconhecer que as mulheres avançaram muito mais que nós nas últimas décadas. Ou seja, ser um pouco mais humildes, escutar, perguntar, aprender a perder o protagonismo às vezes, a guardar silencio para que se escutem outras vozes. Uma das questões que podemos aprender é como elas se colocam de pé sem holofotes nem aparatos hierárquicos, sem comitês centrais e sem a necessidade de ocupar o governo estatal.

Como o fizeram? Se organizando entre elas, entre iguais. Trabalhando para o patriarca interior: o pai, o dirigente social, o caudilho. Isso é bem interessante porque as mulheres que lutam não estão ocupando os mesmos papeis que combatem, já que não se trata de substituir um opressor por uma opressora, nem um opressor de direita por um opressor de esquerda. Por isso digo que avançaram muito.

A segunda questão que podemos aprender é que a política, em cenários bem iluminados e mediáticos, com programas, estratégias e discursos grandiloquentes, não é mais que a reprodução do sistema dominante. Com a politização da vida cotidiana, o cozinhar, o cuidado dos filhos, as artes, a costura, entre tantas outras tarefas. Pensar que tudo isso é pouco importante, que existem hierarquias entre umas e outras dimensões, é similar a seguir buscando machos alfa que nos emancipem.

Certamente há muitas outras questões que podemos aprender dos movimentos de mulheres, que ignoro o que ainda devemos descobrir. O que importa não é ter a resposta já preparada, e sim buscar a simplicidade e a humildade para aprender deste maravilhoso movimento de mulheres que está mudando o mundo.

Raúl Zibechi é jornalista uruguaio especializado em movimentos sociais, docente e investigador da Multiversidade Franciscana da América Latina

Fonte: La Jornada

 

 

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