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Acelerar a transição energética de África
Autor: Charlotte Aubin

19-01-2018

PARIS – Para uma grande parte do continente africano, a transição dos combustíveis fósseis para formas de energia mais limpas é considerada como um imperativo ambiental. Com os combustíveis fósseis a representar a maioria — ascendendo a 70% em alguns casos — do cabaz energético, a situação no continente é efectivamente terrível do ponto de vista ecológico.

Contudo, a transição energética de África é urgente do ponto de vista económico. Todos os anos, os subsídios aos combustíveis consomem 1,5% do PIB do continente, ou seja cerca de 50 mil milhões de dólares. Este montante é suficiente para fornecer energia solar a cerca de 300 milhões de pessoas. Se o continente pudesse reequilibrar a sua pasta energética, acabando lentamente com os hidrocarbonetos, aqueles subsídios poderiam ser reafectados de forma a gerar benefícios tanto a nível económico como ambiental.

Actualmente, os exportadores e os importadores de petróleo não estão adequadamente imunes aos choques de preços. Quando os preços do petróleo sofreram uma rápida redução em 2015, por exemplo, os importadores de energia de África gastaram menos em petróleo, ao passo que os países exportadores foram negativamente afectados do ponto de vista financeiro. Quando os preços recuperaram, a situação inverteu-se: as receitas dos países exportadores de energia aumentaram, ao passo que os países importadores enfrentavam dificuldades para manter os níveis de consumo.

Este ciclo é desnecessário. A integração de energias mais limpas nos sistemas energéticos nacionais permitiria não só aumentar as capacidades locais, como também pôr termo à exportação de hidrocarbonetos. As receitas daí resultantes poderiam então ser investidas em novas formas de energia mais ecológicas. Esta transição, que iria necessitar da cooperação com o sector petrolífero, promete impulsionar o progresso sócio-económico.

Entre os maiores benefícios figuraria a electrificação das zonas que, nos actuais sistemas de distribuição, estão literalmente às escuras. Actualmente, apenas 30% do continente africano tem acesso a electricidade fiável. No entanto, com uma capacidade total estimada em cerca de 10 terawatts, a capacidade solar instalada em África poderia expandir substancialmente o acesso. Com efeito, de acordo com algumas estimativas, o aumento do aproveitamento da energia solar em 2030 poderia variar entre 15 e 62 gigawatts.

A eliminação gradual dos combustíveis fósseis não está prevista para breve, mas um cabaz energético que incluísse um aumento significativo da energia solar teria grandes vantagens económicas para África, sobretudo nas regiões onde a agricultura constitui o maior sector económico. A electrificação das zonas agrícolas poderia facilitar o armazenamento e o transporte de produtos agrícolas, melhorar a segurança alimentar e aumentar a capacidade de obtenção de rendimentos dos agricultores.

Na acção em favor do reequilíbrio do cabaz energético de África, o continente mantém uma vantagem fundamental sobre as economias desenvolvidas: uma “tábua rasa”. A relativa ausência de investimentos anteriores é a principal razão pela qual a energia verde é a melhor opção de energia para África. Embora cada país tenha de equilibrar as respectivas necessidades energéticas, a dependência de fontes renováveis, e a energia solar em particular, é a estratégia mais adequada em termos de custo-eficácia para promover um desenvolvimento económico célere em todo o continente.

Podem ser encontradas provas deste potencial em algumas centrais fotovoltaicas que começaram a operar em África. Por exemplo, a central solar Senergy 2 no Senegal vende electricidade à rede eléctrica senegalesa a um preço que diminui para 50% o custo do cabaz energético. Estão a ser implementadas soluções solares semelhantes pelas telecomunicações africanas para electrificar as torres de comunicação.

A melhor forma de acelerar a transição dos hidrocarbonetos para formas de energia mais ecológicas seria redireccionar uma parte das subvenções nacionais aos combustíveis para as energias renováveis. Esta solução permitiria criar mais incentivos para reduzir o consumo de combustíveis fósseis, incentivando simultaneamente o investimento e o crescimento na produção de energia verde. Além disso, para as regiões rurais de África, estas políticas poderiam ajudar a tirar as comunidades das trevas e conduzir à instalação de outras infra-estruturas essenciais ao crescimento económico.

No entanto, embora as energias renováveis possuam a chave para a prosperidade a longo prazo de África, a transição do continente para energias mais limpas não deve conduzir à rejeição imediata e total dos hidrocarbonetos. O sector petrolífero continuará a ter um papel importante a desempenhar. A experiência da indústria no continente será necessária para orientar a transformação energética. Além disso, tendo em conta que os combustíveis fósseis continuarão a fazer parte do cabaz energético do continente, o sector petrolífero deve ser incentivado a arrumar primeiro a sua própria casa.

Isto pode parecer uma aliança impossível. Porém, na medida em que os decisores políticos em todo o continente procurem garantir um aprovisionamento adequado de energias limpas para assegurar um crescimento económico rápido e inclusivo, bem como a sustentabilidade ambiental, é possível que cheguem à conclusão de que não existe alternativa. A cooperação entre as antigas e as novas indústrias energéticas poderá ser o único motor capaz de fazer avançar o continente africano.

Charlotte Aubin

Charlotte Aubin é CEO da GreenWish Partners, um produtor de energia renovável dedicado à África Subsaariana.

 

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