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O MITO DA ELIMINAÇÃO PROGRESSIVA DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS
Autor: Samuele Furfari

22-12-2017

BRUXELAS – A forma como o mundo utiliza a energia é um tópico importante para um planeta que está em aquecimento, e os receios relativos à poluição e à pressão sobre os recursos geraram uma corrida às armas virtual de estratégias em matéria de eficiência energética. Desde a União Europeia até à China, as economias prometem reduzir a sua intensidade energética com a ajuda de inovações tecnológicas e de alterações legislativas.

No entanto, apesar destas promessas, a Agência Internacional da Energia prevê que a procura de energia pelos consumidores irá aumentar, pelo menos, até 2040. Com a crescente necessidade energética a nível mundial, como poderão os decisores políticos garantir o aprovisionamento?

Para falar francamente, o mundo não tem nada a recear no que se refere às reservas. Após 40 anos de receio de escassez energética, entrámos numa era de abundância. Devemos proteger-nos contra as falsas narrativas, não contra a escassez de recursos.

O culpado desta história é o Clube de Roma, um grupo de reflexão mundial que, na década de 1970, suscitou receios relativamente à energia com as suas profecias absurdas, derivadas de modelos questionáveis. Enquanto seguidor devoto de Thomas Malthus e Paul Ehrlich, o clube alegou que o crescimento exponencial origina aspectos negativos, e o crescimento linear origina aspectos positivos. Esta ideia alimentou a previsão de que o mundo iria deixar de ter petróleo em 2000.

Ao adoptarem este dogma absurdo, os países desenvolvidos permitiram que os líderes autoritários com recursos abundantes, como Muammar Kadhafi na Líbia e o Ayatollah Ruhollah Khomeini no Irão, utilizassem as suas reservas de petróleo como ferramentas de oposição ao Ocidente — e, em particular, o seu apoio a Israel. Isto contribuiu para os choques petrolíferos da década de 1970 e reforçou a percepção errónea de que as reservas de hidrocarbonetos estavam ainda mais limitadas e amplamente confinadas ao Médio Oriente.

A evolução rápida da tecnologia, nomeadamente no domínio da exploração e a capacidade de extracção de hidrocarbonetos em novos locais acabaram por fazer cair por terra tais narrativas. A “crise” energética de hoje não é resultante da escassez, mas sim da ansiedade relativamente à poluição.

Contudo, esta ansiedade não abrandou os nossos hábitos de exploração. Pelo contrário, a política e o direito internacional, como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, foram adaptados de modo a permitir a descoberta. Consideremos, por exemplo, a jazida de gás de Rovuma ao largo da costa de Moçambique. Actualmente, um consórcio de empresas internacionais de países onde se incluem a Itália e a China está a preparar a produção, e um dos países mais pobres de África deverá colher benefícios enormes.

Do mesmo modo, Israel, outrora considerado o único lugar no Médio Oriente livre de hidrocarbonetos, está assente em 800 mil milhões de metros cúbicos de reservas gás offshore, mais de 130 anos do actual consumo de gás anual do país. Outrora um importador líquido de energia, Israel enfrenta actualmente o verdadeiro desafio de exportar a sua prosperidade de gás.

No entanto, nos últimos anos, a maior convulsão com base na tecnologia para os mercados globais da energia resulta provavelmente da produção de gás de xisto e de óleo de xisto nos EUA. Cifrando-se em 8,8 milhões de barris por dia, a produção de petróleo dos EUA é actualmente superior à Iraque e à do Irão, no seu conjunto. O gás de xisto norte-americano está a ser distribuído na Ásia, América Latina e em partes da Europa. Estes mercados foram há muito travados pelo Qatar, a Rússia e a Austrália, mas actualmente a indústria global de gás natural liquefeito (GNL), assim como o mercado do petróleo, entrou num período de excesso de produção.

No seu conjunto, estes desenvolvimentos contribuíram para reduzir os preços da energia e diminuir a força da OPEP. Além disso, tendo em conta que o GNL é favorecido pelo sector dos transportes (nomeadamente as transportadoras os carregadores marítimos) por razões ambientais, a capacidade de usar o petróleo como arma geopolítica desapareceu. O Irão estava tão desesperado por aumentar as suas exportações de petróleo que aceitou renunciar ao seu programa nuclear (surpreendentemente, o acordo nuclear do Irão menciona o termo “petróleo” 65 vezes).

As energias solar e eólica são muitas vezes apresentadas como alternativas ao petróleo e ao gás, mas não têm condições para competir com as fontes tradicionais produção de electricidade. Se tivessem, não haveria razão para a UE a apoiar a produção de energias renováveis através de legislação. Além disso, embora as tecnologias solar e eólica produzam electricidade, a maior procura de energia tem origem no aquecimento. Na UE, por exemplo, a electricidade representa apenas 22% da procura final de energia, enquanto o aquecimento e a refrigeração representam 45%; e os transportes representam os restantes 33%.

Todos estes factores ajudam a explicar a razão pela qual os combustíveis fósseis, que actualmente dão resposta a mais de 80% das necessidades de energia do mundo, continuarão a ser a espinha dorsal da produção global de energia para o futuro previsível. Isto pode não ser uma boa notícia para aqueles que insistem na eliminação gradual imediata dos hidrocarbonetos. No entanto, talvez seja possível obter um certo consolo no facto de a inovação tecnológica vir também a desempenhar um papel-chave na redução dos impactos negativos na qualidade do ar e da água.

Entre as conversações globais sobre as alterações climáticas, é compreensível que as economias desenvolvidas prometam benefícios significativos em termos de eficiência energética. Contudo, embora a UE possa estar empenhada em reduzir as emissões de CO2, outros signatários do acordo climático de Paris de 2015 não parecem estar tão determinados. Não seria de estranhar que a maioria dos signatários aumentasse efectivamente o seu consumo de energia nos próximos anos, voltando-se para os combustíveis fósseis por não ter condições para pagar qualquer outra opção.

A política energética permanecerá na ordem de trabalhos das economias avançadas durante muitos anos. No entanto, nos esforços envidados com vista ao equilíbrio entre a segurança do aprovisionamento e as metas ambientais, os países devem comprometer-se igualmente em colocar os factos no seu devido lugar.

Samuele Furfari

Samuele Furfari é professor de geopolítica da energia na Universidade Livre de Bruxelas e autor de The Changing World of Energy e Geopolitical Challenges.

 

 

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