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Artefactos Intrigantes Encontrados no Campo de Batalha Mais Antigo da Europa

08-11-2019 - Erin Blakemore

Os arqueólogos passaram várias décadas a tentar descobrir os intervenientes da batalha que ocorreu perto do rio Tollense, na Alemanha, há cerca de 3300 anos. Agora, um achado invulgar aprofunda o mistério sobre este confronto brutal.

Desde 1997 que os arqueólogos escavam quilómetros de terra ao longo do rio Tollense, no norte da Alemanha, onde recuperam armas e os restos mortais de centenas de homens que lutaram nas suas margens, por volta do ano 1200 a.C. A enorme escala e a violência encontradas em Tollense – considerado o campo de batalha mais antigo da Europa – refutam a ideia de que a Europa da Idade do Bronze era um lugar relativamente pacífico.

Mas qual foi o motivo para a batalha de Tollense? Foi uma batalha entre grupos diferentes de pessoas de toda a Europa, ou uma enorme disputa familiar e localizada? Os investigadores continuam a examinar as pistas deixadas pelos ossos e armas presentes no local, e um artigo publicado na Antiquity analisa um conjunto invulgar de artefactos que vem complicar ainda mais as décadas de investigação que tentam descobrir quem lutou em Tollense – e porquê.

Objectos da antiguidade

De acordo com o artigo, foram encontrados 31 objectos de bronze em sedimentos do rio, a cerca de 300 metros de distância de um antigo passadiço, onde se acredita que a batalha pode ter começado. Os investigadores acreditam que a batalha teve lugar em ambas as margens do rio Tollense, e que os guerreiros morreram enquanto se moviam rio abaixo, deixando os seus ossos e pertences para trás.

Os objectos de bronze foram encontrados próximos uns dos outros e os investigadores acreditam que eram mantidos, todos juntos, dentro de um recipiente orgânico – talvez numa bolsa de couro, ou numa caixa de ferramentas de madeira – que entretanto se desintegrou. Os objetos incluem um furador de bronze, um cinzel, uma faca, fragmentos de bronze e uma pequena caixa cilíndrica de bronze projectada para ser usada num cinto. Também foram encontrados restos humanos no depósito de sedimentos, suportando a ideia de que a área fazia parte do campo de batalha da Idade do Bronze.

Entre os objectos estão 3 cilindros de bronze que podem ter sido acessórios para bolsas, ou caixas projectadas para guardar objectos pessoais – objectos incomuns que até agora só foram descobertos a centenas de quilómetros de distância, no sul da Alemanha e no leste de França.

"Para nós, isto é muito intrigante", diz Thomas Terberger, arqueólogo na Universidade de Göttingen, na Alemanha, que ajudou a iniciar a escavação em Tollense e é um dos coautores do artigo. Para Terberger e para a sua equipa, isto credibiliza a teoria de que a batalha não foi apenas um caso localizado. "Cada vez é mais provável que não estamos a lidar com um conflito local.”

Mas o significado de “local” depende da dimensão das antigas redondezas do Vale do Tollense.

Teoria “aborrecida”

A equipa de Terberger revelou os resultados do trabalho sobre Tollense em 2011. Desde então, publicaram vários artigos no site, incluindo um estudo do português Fernando João Coimbra que confirmou o estatuto de campo de batalha através da análise às lesões presentes nos ossos das vítimas, e outro estudo que especula que o conflito começou no passadiço. Com o tempo, a equipa ficou cada vez mais convencida de que a batalha ocorreu entre dois grupos de guerreiros. A equipa acredita que um dos grupos era constituído por “habitantes locais”, e o outro era composto por um grupo heterogéneo de guerreiros que se podem ter reunido a centenas de quilómetros de distância, talvez num impasse semelhante ao da Guerra de Tróia.

Os resultados preliminares dos testes feitos a ADN antigo alimentaram as teorias de que esta batalha massiva foi um acontecimento regional, não local. Em 2016, Joachim Burger, geneticista populacional na Universidade de Mainz, disse à Science que a análise inicial do ADN sugeria um grupo de guerreiros "altamente diversificado", com ligações genéticas ao sul da Europa.

A análise isotópica parecia reforçar esta conclusão. Em 2017, os investigadores publicaram a sua análise dos isótopos de estrôncio, carbono e nitrogénio – encontrados nos dentes de 52 dos mais de 140 mortos cujos restos foram recuperados. Foram identificados dois grupos de guerreiros: um grupo de habitantes do norte da Alemanha, e outro grupo mais diverso proveniente da Europa Central. Para já, a região da Boémia, uma região histórica no sudoeste da Alemanha, que cobria a parte ocidental da actual República Checa, é uma das regiões prováveis do segundo grupo.

De momento, os resultados de ADN mais detalhados, obtidos no início deste ano pela equipa de Joachim, parecem contradizer esta teoria, pelo menos do ponto de vista genético. "Na nossa amostra, não encontrámos sinais de dois grupos diferentes a lutar entre si", disse Joachim Burger à National Geographic. (Joachim Burger não é o autor do artigo actual.)

Joachim diz que, em 2016, um dos ossos que recebeu para analisar acabou por ser da era neolítica, que antecede a batalha de Tollense entre 8750 e 3250 anos. Um tamanho de amostra maior e uma análise mais longa revelaram uma população ligeiramente mais homogénea, em termos de ADN, do que Joachim pensava inicialmente. "São parecidos com os europeus da Europa central e do norte.”

A nova análise de ADN descartou a possibilidade de a batalha ter sido um desentendimento familiar. Mas também não é um argumento convincente para a teoria dos dois grupos.

“Os resultados não são espectaculares”, diz Joachim. “Na realidade, são aborrecidos.”

Lugar perigoso para viver

A análise ainda por publicar de Joachim pode lançar uma sombra negra sobre a tese dos guerreiros vindos de longe, mas não descarta a hipótese de participantes vindos de lugares como a Boémia. "Podemos excluir o sul da Europa – lugares como a Sérvia ou a Hungria. Mas, mesmo com os genomas modernos, não é possível distinguir na totalidade os habitantes da Boémia e do norte da Alemanha."

Mas os objectos encontrados pertenciam a um guerreiro, certo? Não é bem assim, diz Anthony Harding, arqueólogo e especialista em Idade do Bronze que não esteve envolvido na investigação. "Porque razão é que um guerreiro andaria com um monte de sucata?", pergunta Harding. “Para mim, dizer que estes objectos – que incluem ferramentas de metal distintamente não-bélicas – pertenciam a guerreiros é um bocado rebuscado.”

De facto, alguns guerreiros da Idade do Bronze tinham pequenas colecções de sucata armazenadas em encaixes nos machados. Estes esconderijos nos machados foram provavelmente projectados para colecções de culto, diz Oliver Dietrich, arqueólogo no Instituto de Arqueologia da Alemanha. Será que isto pode significar que os guerreiros andavam com estas peças de bronze para oferecer aos deuses?

Por outro lado, diz Dietrich, “este conjunto não é um depósito de sucata. O período, o local e o seu armazenamento provável dentro de um recipiente são características diferentes das dos depósitos de sucata conhecidos da Idade do Bronze, eliminando assim o seu transporte por razões espirituais.” Dietrich diz que os objectos eram provavelmente a propriedade pessoal de alguém envolvido nos confrontos, mas admite que não se sabe se um guerreiro ou outra pessoa os levou para a zona da batalha. "O bronze não está a oferecer indícios claros sobre a personalidade do seu proprietário.”

As origens do metal podem ser desconhecidas, mas a sua perda aponta para uma batalha que foi caótica o suficiente para separar um grupo de objectos valiosos do seu dono. Este caos – e o que revela sobre a violência existente na Idade do Bronze – fornece um ponto de concordância raro entre investigadores e especialistas externos.

Estes objetos podem significar que o local de Tollense foi usado para algo mais do que apenas um campo de batalha – ou que os guerreiros tinham mais itens do que os arqueólogos suspeitavam. E como este sítio arqueológico é o único do seu tipo (e não conseguimos viajar no tempo), é difícil ter a certeza. "Estamos a lidar com o primeiro campo de batalha da Idade do Bronze", diz Terberger. "Não temos um paralelo para comparar."

"Quando encontramos algo sem precedentes, não sabemos o que fazer com isso", concorda Martin J. Smith, professor de antropologia forense na Universidade de Bournemouth, no Reino Unido. Smith, que não participou na investigação de Tollense, diz que a enorme escala da batalha ilustra a violência dos guerreiros da Idade do Bronze. Mais de 3 milénios depois de o sol se pôr nas margens do Tollense, a sua batalha ainda inspira intensos debates.

Afinal de contas, diz Smith, a pré-história era um lugar perigoso para viver.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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