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“Ad Astra”, de James Gray: dos subúrbios de Nova Iorque para os anéis de Neptuno

04-10-2019 - Bruno Victorino

Volvidos dois anos o realizador James Gray está de regresso, com a sua primeira incursão pela ficção científica. Os filmes do cineasta norte-americano sempre orbitaram em torno da vivência de idiossincráticas famílias imigrantes em Nova Iorque. Mais recentemente, com “The Lost City of Z” (2017), Gray subverteu esta tendência, expandindo a escala do seu cinema, de pequenos bairros na Big Apple para a floresta amazónica. “Ad Astra” leva-nos agora até aos confins do espaço. É como se o próprio realizador se quisesse afastar da sua zona de conforto, abrindo o escopo dos seus filmes e submetendo-os às convenções de diferentes géneros cinematográficos. As semelhanças entre as suas duas últimas obras são sintomáticas, dois exploradores que abandonam a sua família em busca do inalcançável (civilização perdida vs vida alienígena). A perspetiva é invertida, no entanto, no filme anterior seguimos o pai que abandona, agora o filho abandonado.

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São naturais as comparações com os clássicos “2001: Odisseia no Espaço” (1968) de Stanley Kubrick ou “Solaris” (1972) de Andrei Tarkovsky, mas Gray volta a aproximar-se mais de Francis Ford Coppola e, neste caso, do seu “Apocalypse Now” (1979). A sombra de Coppola sempre pairou sobre os seus filmes, e as semelhanças voltam a ser por demais evidentes. No trajeto de descoberta do protagonista, no seu objetivo de resgatar alguém que se afastou da sociedade e assume um comportamento alienado que aparenta a demência.

Existe um vincado contraste entre a grande escala da superfície do filme – que vai cumprindo os códigos do género de ficção científica no espaço – e o seu interior – que se aproxima mais do drama familiar, fundado na relação tóxica entre pai e filho. Os acontecimentos têm lugar nos anéis de Neptuno mas poderiam ocorrer nos subúrbios de Nova Iorque, na pequena vila de Odessa – local do primeiro filme do autor (“Little Odessa” (1994)).

O filme acaba por se constituir como meditação em volta do fim da existência, da morte, do legado deixado de pai para filho, da inevitabilidade do determinismo genético no condicionamento do comportamento humano. No final o que fica é aquela mão de Roy, que avança na direção do pai, mesmo depois de este o abandonar e de ouvir da sua boca que nunca o amou e nunca quis saber dele. É esta incomensurável compaixão que atravessa a obra de Gray que é cada vez mais rara no cinema e o eleva ao patamar dos mais importantes autores americanos contemporâneos.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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