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O jornalismo e a política

12-04-2019 - Os truques da imprensa portuguesa

Na passada sexta-feira, o CDS-PP definiu e apresentou as suas listas de candidatos às próximas eleições legislativas, onde constam três nomes que têm suscitado alguma polémica: Sebastião Bugalho, Raquel Abecasis e Rui Lopes da Silva.

A inclusão destes ex-jornalistas lança algumas questões pertinentes: pode um jornalista ter consciência e orientação política? Deve um ex-jornalista desempenhar cargos públicos? Quais são e como se definem as fronteiras entre estes dois campos?

A reposta, em abstracto, parece-nos evidente: sim, um jornalista pode (e deve) ter consciência política e é normal que essa consciência se traduza numa orientação, fazendo parte dos requisitos práticos da profissão impedir que dessa orientação resulte um viés. Sim, um ex-jornalista tem a sua qualidade de cidadão intacta, podendo fazer o que bem lhe apetecer após abandonar a profissão.

Mas mais do que sobre o facto em si da escolha de ex-jornalistas para as listas — que tanto pode querer dizer muito, como pode não querer dizer rigorosamente nada —, a avaliação que neste momento deve ser feita é sobre o percurso que cada um desses ex-jornalistas trilhou até lá chegar e sobre o potencial cruzamento indesejável de interesses, resultante, ou não, de uma relação que se estabeleceu previamente.

Centremo-nos no caso de Sebastião Bugalho.

Sebastião Bugalho, co-autor de um programa de debate na TVI, apresentado nessa estação como “jovem prodígio” do jornalismo português, colunista do Observador, esteve no jornal i / SOL entre Dezembro de 2016 e Maio de 2018, altura pela qual se reformou do jornalismo, aos 22 anos. Ao longo deste período, foram algumas as vezes em que nos referimos a ele.

Ao que sabemos, entre Dezembro de 2016 e Novembro de 2017, Bugalho exerceu a profissão de forma irregular, sem deter qualquer título ou acreditação legal. Terá sido apenas no final de 2017 que formalizou o início do seu estágio junto da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), ficando com o título provisório n.º TP560; estágio que dura praticamente até ao momento da sua reforma.

Durante quase um ano, Bugalho terá então exercido sem formação nem acompanhamento. Talvez por isso, foi também neste período que emergiram erros assinaláveis. A título de exemplo:

1. A 20 de junho de 2017, três dias depois da tragédia da EN236-1 de Pedrógão Grande, onde 47 pessoas morreram cercadas pelas chamas, Bugalho publica uma notícia de última hora que mais nenhum jornal avançara: “Pedrógão Grande cercado pelas chamas. Ministra e Deputados não conseguem sair” O pânico provocado pelo receio de se repetir (em proporções muito maiores) a tragédia instalou-se e imediatamente contaminou tudo e todos. A notícia era, porém, falsa. Sebastião Bugalho não estava sequer no local.

2. A 9 de Setembro de 2016, o i fazia manchete com a abertura da tão pretendida primeira faculdade de medicina privada, um projeto ali retratado como totalmente definido e até já com data marcada. “A Universidade Católica Portuguesa vai, finalmente, ter uma faculdade de medicina.” – era desta forma peremptória que Bugalho nos servia o tema. A consulta à A3ES fazia perceber logo no momento, no entanto, que nem sequer um processo de acreditação prévio tinha sido instruído pela UCP. Mas a notícia estava “confirmada” pela Câmara de Cascais, insistia Bugalho. “O município cascalense” até oferecera um “contributo determinante na negociação de terrenos da autarquia”, concluía. Depois de se reformar do jornalismo, Sebastião Bugalho foi contratado como consultor pela Câmara de Cascais.

E enquanto jornalista da secção de política, como caracterizar a relação de Sebastião Bugalho com o CDS-PP e, em particular, com a JP e o seu líder, Francisco Rodrigues dos Santos?

Em agosto de 2016, Bugalho fez uma grande entrevista política e de vida a Francisco Rodrigues dos Santos. A promoção do líder da JP é reforçada no título “Queremos uma juventude do povo! Não temos de ter medo de dizê-lo.” Em momento algum a entrevista é confrontativa ou minimamente crítica.

Mas esta entrevista foi só o início. Nos tempos que se seguiram, Bugalho fez do jornal i / SOL um verdadeiro Boletim Informativo da Juventude Popular e da atividade do seu líder, Francisco Rodrigues dos Santos. Eventos, encontros partidários, propostas internas, posições e até pequenas ações de propaganda e divulgação – tudo servia para colocar a JP nas rotativas ou no online do i / SOL. Uma atenção mediática sem precedente nem paralelo noutro órgão de comunicação social, noutro jornalista, ou em relação a qualquer outra juventude partidária. Deixamos aqui alguns exemplos de um curto período de 4 meses que retratam bem o exagero:

15/09/2016

Presidente da JP critica sindicatos: ‘Jota’ do CDS ataca postura contraditória da CGTP sobre os contratos de associação.

4/11/2016

Manuel Monteiro regressa ao CDS nos 42 anos da Juventude Popular: Ex-líder regressa a um grande evento dos centristas depois de prolongada ausência. Assunção Cristas também estará presente.

7/11/2016

CDS-PP. Aniversário com reunião da família política: 42 anos da Juventude Popular juntam Cristas e Manuel Monteiro. Jantar com presença de passado, presente e futuro correu sereno.

12/11/2016

Bancada do CDS estende mão à Juventude Popular: Juventude Popular propôs crédito estudantil e possibilidade de escolher disciplinas de áreas diferentes no secundário.

20/11/2016

CDS propõe crédito para estudantes: Centristas aceitam propostas da JP e levam-nas à Assembleia.

5/12/2016

Direita. Juventude do CDS ouve homem das campanhas de Sarkozy: Olivier Ubéda, Paulo Portas e Mota Soares foram alguns dos que falaram na reunião europeia da Juventude Popular e da Fundação Adenauer.

22/12/2016

Direita. Proposta da Juventude Popular lança polémica: A juventude partidária do CDS-PP lançou seis propostas para a educação sexual nas escolas. O tema gerou reações.

18/01/2017

Jovens centristas recolheram mais de tonelada e meia em iniciativa solidária: “A Juventude Popular não ambiciona reclamar créditos políticos com esta iniciativa social”.

A máquina de fazer notícias pró-CDS e pró-JP manteve-se em atividade. A situação mais caricata, porém, aconteceu a 23 de Abril de 2018, poucas semanas antes de Bugalho abandonar o jornalismo: “Assunção prepara revolução parlamentar.” A notícia era sobre as listas do CDS para as próximas legislativas, as mesmas que o próprio autor acabaria por integrar como candidato.

Bugalho dava a fórmula: “Mais mulheres, mais independentes, mais renovação. Afinal, nas autárquicas também foi assim – e não correu mal de todo por Lisboa.” O tom elogioso em relação à corajosa “revolução” de Cristas era indisfarçável: “Com Cristas, os cadernos têm sido marcados por três pesos, das europeias do próximo ano (já com pódio anunciado) às locais já relembradas. Maior paridade de género – uma causa inseparável de Assunção mesmo que arrisque, por vezes, algum isolamento interno por isso –, maior ligação à sociedade civil, com nomes conhecidos do mundo filantrópico e empresarial, e uma manutenção cautelosa dos quadros oriundos do ‘portismo’.” “A fórmula estava lá: aparelho/mulheres/independentes.”

Raquel Abecasis era uma das caras novas avançadas por Bugalho na notícia. Mas o que tem Abecacis de especial, para Bugalho? “Abecasis tem um grau de popularidade e exposição como ex-jornalista que facilitam a conversão do CDS num partido mais popular, que é outro dos objetivos da atual liderança.” – perceberam a deixa? O CDS percebeu.

O corolário de toda esta situação surge logo a seguir. Em subtítulo, pergunta Bugalho: “Cabemos todos em Lisboa?” E prossegue: “Em 2015, em Lisboa, entraram cinco: Portas, Ana Rita Bessa, Isabel Galriça Neto, João Rebelo e Filipe Lobo d’Ávila. (…) A questão não é tanto, por isso, quem fica ou quer ficar mas quem entrará ou se pretende que entre.“

“Cabemos todos em Lisboa?” A pergunta parece premonitória: o então jornalista acabaria por integrar justamente a lista de Lisboa, na sexta posição. Se caberão todos e mais um, ou não, não sabemos. Mas sabemos, porque é evidente, que Sebastião Bugalho esteve a escrever sobre um lugar que ele próprio viria a ocupar. Se na altura o fez conscientemente ou não é agora irrelevante, porque o simples facto de ter aceitado ocupar um lugar sobre o qualquer escreveu previamente e que ajudou a formar é suficiente para levantar um caso de incompatibilidade flagrante.

Bugalho usou o jornalismo com trampolim para ascender ao patamar da política. O seu apurado sentido de oportunidade, sagacidade e ambição pode ter resultado num benefício pessoal considerável, mas foram muitos os custos para o jornalismo, que já se arrasta numa crise por todos reconhecida. Foi, ainda, prejudicial para os verdadeiros jornalistas, que vêem a sua imagem contaminada por quem nunca o foi, verdadeiramente.

Mas — diga-se, a bem da verdade — o jornalismo também se deixou usar. Em janeiro de 2017, Bugalho foi convidado para ser orador no congresso dos jornalistas. Mesmo sem ser jornalista, condição essencial para se participar no evento (estagiários e equiparados estão limitados à condição de observadores).

Como começámos por dizer, o problema da presença de jornalistas em listas partidárias não é, nem nunca poderá ser, estarem lá; o problema é o que fizeram, ou não, para lá chegar.

Quanto a nós, o caso de Sebastião Bugalho é paradigmático.

“Man on a mission. Mission Accomplished.”

Esta crónica foi publicada originalmente no página oficial d’Os truques da imprensa portuguesa, tendo sido aqui reproduzida com a devida autorização.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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