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A comunicação em massa aos olhos de Denis McQuail

10-08-2018 - Lucas Brandão

Dos teóricos da comunicação, o rosto de Denis McQuail é um dos principais, tendo em conta o seu trabalho académico, desenvolvido especialmente em Amesterdão, onde lecionou. O britânico procurou estudar os meios de comunicação social e acompanhar o seu desenvolvimento, emparelhando-o com a chegada das tecnologias e com o emergir da globalização. Nesta senda, empenhou-se em desenvolver uma perspetiva que cruzasse a sociedade e a comunicação, tendo em conta os meios e os métodos através dos quais a primeira é transmitida e difundida pela segunda, que a faz ecoar nos diversos canais que informam toda a sociedade.

Denis McQuail nasceu em Londres, no dia 12 de abril de 1935, falecendo a 25 de junho de 2017. Licenciado em História na Universidade de Oxford, tornou-se mestre em Administração Pública e Social e doutor em Estudos Sociais na Universidade de Leeds, no ano de 1967, com a tese “Fatores que afetam o interesse público em peças televisivas”. Esta derivação no seu percurso deveu-se à sua curiosidade por investigação da comunicação, influenciado pelos teóricos Richard Hoggart e Raymond Williams, associados ao movimento da “New Left”; para além de deter uma especial apetência por línguas, entre as quais o russo. O seu interesse também se fez acompanhar da chegada da televisão às famílias inglesas e, com esta, dos comerciais televisivos, dedicando-se a aferir os efeitos políticos e culturais da televisão.

Permaneceu como professor de sociologia em Southampton (começou a lecionar em 1975, após propor um código escrito da prática jornalística) e como investigador no Reino Unido até, dez anos mais tarde, se tornar professor de Comunicação Massificada na Universidade de Amesterdão, onde explorou os efeitos da comunicação em massa, para além dos seus contextos e circunstâncias. Em simultâneo, continuou a dar aulas, na condição de professor-convidado, na Universidade de Southampton. Acreditando na importância da colaboração no desenvolvimento deste tipo de estudos, fundou o European Journal of Communication e o Euromedia Research Group, em busca de sinergias internacionais do estudo dos papéis da comunicação social. Pelos serviços prestados, a Escola de Investigação da Comunicação de Amesterdão criou o Prémio Denis McQuail, a conferir ao melhor artigo ao abrigo da Teoria da Comunicação, sendo galardoado desde 2006.

As relações entre a sociedade e os meios de comunicação social trazem, implícitos a si, uma carga sociocultural profunda, que mexem com os conceitos de liberdade e de controlo. A repercussão destes meios é o objeto de estudo do percurso investigativo de McQuail, procurando investir num pensamento crítico daquilo que é produzido por estes mesmos meios, para além de detetar o seu papel nas suas redações. A televisão é visada em “Television and the Political Image: A Study of the Impact of Television on the 1959 General Election” (1961, obra redigida com Joseph M. Trenaman), onde discutiu o papel da televisão e da sua comunicação na política, ressalvando a sua importância nas dinâmicas democráticas. No entanto, defendendo a isenção dos meios de comunicação, era apologista de medias independentes para a consolidação da esfera pública. O entendimento sociológico desta realidade foi dos primeiros passos teóricos do britânico, tanto em “Towards a Sociology of Mass Communications” (1969), como na coletânea “Sociology of Mass Communications” (1972), produzindo uma imensa influência no contexto académico. Acompanha, assim, a consumação da sociologia como uma ciência social, enriquecendo o estudo sobre a comunicação e procurando potenciar a autonomia da qual usufruía, sem deixar de desmistificar o incómodo que se fazia sentir ao abordar estas questões. A importância de construir uma base conceptual sobre a qual discutir e a partir da qual desconstruir foi tomada em conta por McQuail, mesmo com a emergência da internet. As variáveis de estudo foram as mesmas – a informação, a identidade pessoal, a integração social e o papel do entretenimento – mas reajustadas perante as diferentes técnicas de persuasão e de exploração comunicacionais.

As várias publicações que o inglês redigiu foram sobre as temáticas da Teoria da Comunicação e comunicação política, desconstruindo a sua ciência como um processo marcadamente social. Na extensão do seu percurso académico, procurou explanar as várias teorias da comunicação, para além dos seus fins e usos, assim como identificar e transmitir os prós e contras da comunicação massificada. Entre os trabalhos lançados, destaca-se “Communication Models” (1980, redigido com Sven Windahl), em que se apresentam os modelos de Lasswell (a informação é categorizada e classificada para se estimar as suas propriedades e os efeitos das mensagens), de Shannon e Weaver (um modelo integrado, onde, mesmo com a discriminação do emissor e do recetor, entram as variáveis do feedback, ruído, capacidade do canal comunicativo e a proporção de informação transmitida), e de Gerbner (a abundância televisiva acaba por distorcer os níveis de relevância dos seus vários protagonistas, assim como os da própria ciência, naquilo que é a teoria da cultivação, que gera efeitos a longo prazo tendo em conta a proporção da quantidade de tempo a ver televisão e a sua influência na perceção da realidade social). Para além disto, também outras teorias dos media, modelos orientados para a análise dos recetores e sistemas dos meios de comunicação massificados são apresentados e cruzados com as linhas de orientação do duo de autores; este, que considerava o modelo de Lasswell o mais célebre, mas ao qual faltava uma ligação modular, que conjugasse os vários elementos do ato comunicativo.

Outra das obras proeminentes é “Mass Communication Theory” (1983, que conhece a sua edição mais reputada em 2000), que traz uma análise ao conceito de comunicação em massa, cobrindo o processo investigativo inerente a este. Em suma, apresenta esse conceito, para além das repercussões individuais e sociais que esse tipo de comunicação produz, de difícil identificação, tendo em conta as contingências políticas, económicas e culturais. Apresenta tendo em conta o lastro investigativo desenvolvido até à data, acompanhando a expansão dos seus estudos e clarificando possíveis dissociações que existam em termos de ideias, entre os conceitos de emissor, recetor, mensagem e público(s), assim como os diversos órgãos comunicacionais. Para o futuro, aponta algumas linhas através das quais os meios de comunicação sociais podem-se deslocar para se tornar responsáveis e eficazes, ao invés de um cenário que se avizinha, das duas uma, ou fragmentado e fraturado, ou unificado e estandardizado.

Trata-se de uma referência académica naquilo que é uma perspetiva que se encaixa nos âmbitos das ciências sociais e humanas, no estudo da relação entre os indivíduos e os meios de comunicação. Este trabalho conhece um sucessor em “Media Performance” (1992), onde se discute a importância de se ter um público informado, cujas perceções não sejam distorcidas por aquilo que os media veiculam. Estas conclusões resultam da aplicação dos modelos estudados e enquadrados na Teoria da Comunicação, modelos que assumem a televisão como uma referência, apesar das transformações dos seus usos, agora mais orientados para o entretenimento familiar. Para além das obras mencionadas, também “Audience Analysis” (1997) e “Media Accountability and Freedom of Publication” (2003), assim como “Journalism and Society” (2013), são o prolongamento do estudo assinalado e apresentado. Nos últimos anos de vida, já jubilado na Universidade de Amesterdão, procurou contornar os condicionalismos físicos e dar aulas através das novas tecnologias, entenda-se Skype e o seu iPad.

Denis McQuail plantou as sementes de um estudo que se revela de especial pertinência, particularmente pelos meios de comunicação massificados que atuam no contexto presente, sem deixar de atender à qualidade/quantidade do seu conteúdo. Perante uma nova fase de criar métodos de reprodução, armazenamento, distribuição, troca e acesso a esses conteúdos comunicados, as premissas de atuação e de repercussão da comunicação pública são problematizadas e postas em causa. Elogiado nos vários cantos do mundo, não só pelos contributos teóricos, mas também pela personalidade acessível e eloquente nas conferências em que participou, o inglês deixou a sua marca num estudo cada vez mais proeminente, que permanece com mais perguntas e propostas do que certezas e respostas.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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