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Sábado 22 de Setembro de 2018  
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O copo meio cheio e meio vazio de F. Scott Fitzgerald

13-07-2018 - Lucas Brandão

Nos loucos anos 20 e convalescentes anos 30, em que o jazz rompia e a juventude se debatia com a frivolidade e o vazio das suas vidas, F. Scott Fitzgerald surgiu como uma das vozes mais audíveis desse período, ao lado da sua companheira Zelda Fitzgerald. A literatura norte-americana brilhava nesses tempos, assim como tantas outras fontes de expressão cultural e artística. Na literatura, em que o álcool e as drogas eram companheiros regulares, cresceu, numa vida fugaz, este autor, que brilhava nos palcos de festa, mas que se remetia à perdição no compadecer daquilo que era, de facto, a essência de viver.

Francis Scott Fizgerald nasceu a 24 de setembro de 1896 no estado do Minnesota, numa família da classe média-alta norte-americana, família essa que já havia perdido duas crianças. A ascendência do seu pai era inglesa e irlandesa, tal como a sua mãe, filha de um imigrante irlandês que havia conseguido obter sucesso com uma mercearia. A sua infância foi passada no leste do país, nomeadamente em Buffalo, no estado de Nova Iorque, recebendo uma educação católica. Essa educação desvendou um jovem com uma vocação peculiar pela literatura e com um talento invulgar par as letras. Porém, o seu pai seria despedido da loja onde trabalhava, o que obrigou a família Fitzgerald a voltar ao Minnesota, embora com uma avultada herança da tia do futuro escritor.

Aos 13 anos, já tinha escrito um conto de detetives, que lançou no jornal da escola em que então estudava. Dois anos depois, foi enviado para a Newman School, no estado de New Jersey, uma instituição de fundações católicas, mas que não impediu que um dos professores, o Padre Sigourney Fay, incentivasse-o a seguir as suas ambições literárias. Assim, prosseguiu os seus estudos naquele estado, na Princeton University, onde fez amizade com futuros literatos, como Edmund Wilson e John Peale Bishop. Escreveria para o Princeton Triangle Club, a trupe músico-cómica de teatro da universidade, assim como a revista de humor universitária “Princeton Tiger”, envolvendo-se no grupo de debate político e literário Americano Whig-Cliosophic Society. Fitzgerald viria a escrever e a conviver com os vários núcleos da universidade, incluindo nos seletos clubes de refeições da faculdade, como o University Cottage Club.

Porém, o exercício militar obrigaria o futuro escritor a sair da universidade, no ano de 1917, sendo estudante do futuro presidente norte-americano Dwight Eisenhower, por quem nutria um desgosto amplo. Assentou, assim, praça no Fort Leavenworth, no estado do Kansas, e, receoso de perder a vida na guerra, redigiu “The Romantic Egotist”, que não haveria de conhecer grande repercussão, embora sentindo um cunho de grande originalidade. O incentivo desta escrita e desta vida vinha, de igual forma, de uma presença que tinha conhecido na universidade, a sua amada Ginevra King, em quem se inspiraria para as suas paixões em “This Side of Paradise” (1920) e em “The Great Gatsby” (1925). Este sentimento seria, de igual forma, vertido na correspondência que estabelecia com ela diariamente, mas que nunca chegaria a ser consumado.


F. Scott Fitzgerald

Isto porque Fitzgerald viria a conhecer uma outra jovem, enquanto estava como tenente no Camp Sheridan, no estado do Alabama. Zelda Sayre era o seu nome, filha do presidente do tribunal supremo desse estado à data, e, aos olhos do autor, era a  golden   girl . A guerra viria a acabar em 1918, sem que chegasse a ser colocado, o que o levou para a cidade de Nova Iorque, trabalhando numa agência de publicidade. Zelda seria pedida em casamento por Scott, mas as condições económicas precárias deste viriam a cancelar, então, o enlace. Por via dessas circunstâncias, voltou a casa dos pais, no estado do Minnesota, onde se dedicou à reformulação de “The Romantic Egotist”, agora transformado em “This Side of Paradise”. Esta obra retrata os anos de universidade do autor, desdobrando-se sobre as consequências morais da Primeira Guerra Mundial, com uma roupagem ficcionada, embora as personagens se associem facilmente àquelas que protagonizaram este percurso da sua vida. O seu registo descontraído e relativamente livre, oscilando entre o drama prosaico e o verso espontâneo onde o lirismo sobressai, chegou às bancas em 1920, vendendo mais de 40 mil cópias. Numa fase em que o norte-americano até reparava capôs de automóveis, seria um ponto de transição determinante, que conseguiria abarcar com as exigências de uma vida de casal. Scott e Zelda casariam na catedral de Saint Patrick, em Nova Iorque, tendo uma filha, “Scottie”, no ano seguinte ao do lançamento do livro.

Fitzgerald entrou assim na alucinante “Jazz Age”, conforme cunhou, nos loucos anos 20 do século XX. Visitou a Riviera francesa e Paris, para além de outros lugares na Europa, levando consigo Zelda. Encontrou-se com vários dos membros da comunidade americana em Paris, entre os quais Ernest Hemingway, de quem, entretanto, se viria a afastar. Muito disto graças à relação menos positiva entre este e Zelda, que levou a graves acusações por parte deste autor em relação à influência dela em Fitzgerald, que vinha escrevendo em magazines, como a “Esquire”, a “Collier’s Weekly” ou a “The Saturday Evening Post”. Aqui, redigia pequenas histórias, que vendia não só a estas, como aos estúdios de Hollywood, embora tomasse o cuidado de as reescrever, para além do seu pendor comercial, direcionando-as para a sua identidade criativa.

Esta sumptuosidade chegaria à literatura de Scott, consumando-se na notável obra “The Great Gatsby” (1925), que, na narração de Nick Carraway, aborda a insaciável paixão do seu vizinho, Jay Gatsby, um jovem milionário pela sua prima Daisy Fay Buchanan, uma rapariga já casada e de origens aristocráticas. Isto em plena folia de Long Island, entre os ficcionais West e East Egg, simbolizando as classes ricas emergentes, de faixas etárias baixas, mas dispostas a tudo pelo  american dream , por mais consequências nefastas a si associadas. Também “The Beautiful and Damned” representa em pleno a  café society  protagonizada pela elite nova-iorquina e do restante leste norte-americano, assim como as próprias agruras da relação que unia Scott e Zelda, perante os rasgos egoístas e egotistas dos dois. As brigas que se sucediam entre ambos, que iam gerando comportamentos desviantes e quezilentos, não afetavam as aparências que permaneciam polidas e incólumes aos olhos dos seus amigos.

Reservar o nosso pensamento implica uma esperança infinita.

The Great Gatsby (1925)

Porém, este fluxo literário do autor não conseguia suportar um estilo de vida que se tinha tornado opulento, imiscuído nas grandes celebridades nova-iorquinas. Os problemas financeiros deram lugar a problemas pessoais, como a esquizofrenia que foi detetada em Zelda. Esta seria hospitalizada dois anos depois de ser diagnosticada, em 1932, em Baltimore, tornando-se numa mulher cada vez mais frágil nas suas emoções, que se consolidava na dependência de fármacos e na sua mescla com as bebidas alcoólicas. Scott acompanhou-a ao alugar uma propriedade nos seus subúrbios, não deixando de escrever com essa dimensão autobiográfica, que se fez acompanhar de um alcoolismo que seria a herança pessoal dessa vida de boémia. A relação entre os dois era titubeante, que conheceu enfoque no romance escrito por Zelda, “Save Me the Waltz” (1932), também ele de cariz biográfico e com muito das turbulências vividas entre ambos. A resposta chegaria dois anos depois, com Scott a publicar “Tender is the Night”, onde os valores de decadência e de iminente rutura caem como pano de fundo de uma vida de excessos e de extremos materiais e emocionais.

Eu gostaria de poder escrever um belo livro para quebrar aqueles corações que, em breve, deixarão de existir: um livro de fé, de pequenos mundos limpos e de pessoas que vivem as filosofias das canções populares.

Save Me the Waltz (1932, de Zelda Fitzgerald)

Na sucessão desta instabilidade emocional, Hollywood reuniria Scott Fitzgerald e Lois Moran, uma atriz que lhe inspirava o corpo e a alma, que o levou a adaptar uma das personagens de “Tender is the Night” para corresponder a uma nova aurora na sua vida. No meio disto, Zelda permanecia matrimonialmente ligada a Scott, que a viria a pôr num outro hospital, este na Carolina do Norte, enquanto viajava com a sua nova amada. O seu desprezo pela indústria cinematográfica não o permitia colocar em causa as propostas economicamente aliciantes que lhe chegavam de produtoras, participando na construção de vários argumentos de filmes que conheceram ou não o grande ecrã. Pelo meio, teria mais uma relação mediática com a colunista Sheilah Graham até à sua morte, mesmo com a ligação ao cinema a terminar em 1939, quando o seu contrato com a Metro Goldwyn Mayer terminaria, passando a trabalhar como argumentista em regime de  freelancing . O seu diretor, Irving Thalberg, inspiraria a última mas não findada obra de Fitzgerald, de seu título “The Last Tycoon” (1941), na sua ligação com o seu associado Pat Brady (inspirado em Louis B. Mayer) e com a sua filha Cecilia, que narra grande parte da obra. Neste período, criaria a personagem de Pat Hobby, que resultou em dezassete histórias protagonizadas por ela, que se tratava de um argumentista bem-sucedido na idade do cinema mudo, mas que não conseguia superar as adversidades e as exigências do falado. Falido, encontrava a sua consolação no álcool, à imagem do próprio Fitzgerald.

Seria este álcool que, deteriorando a sua saúde, o levaria a partir a 21 de dezembro de 1940, na precoce idade de 44 anos, isto já após sofrer de tuberculose e de já ser flagelado por dois ataques cardíacos nos anos 30. Esta decadência pessoal, física e emocional, encontraria refúgio num manuscrito de oito mil palavras, intitulado “Temperature”; assim como no conjunto póstumo de ensaios, cartas e memórias “The Crack-Up” (1945), que englobam o legado mais íntimo de Fitzgerald. O declínio ia prosseguindo, partindo de um pedestal em que se encontrava, saudado por tantos aqueles que eram os seus companheiros de festa e parceiros de momentos líricos e criativos. O seu funeral seria composto por pouco mais que vinte pessoas, entre os quais a sua filha, Scottie, então com 19 anos. Pelo cariz da sua literatura, não seria, inicialmente, sepultado no jazigo familiar, assim como Zelda, que faleceria num incêndio no hospício em que estava internada na Carolina do Norte, em 1948. Entretanto, após esforços envidados pela filha de ambos, os dois foram transportados para esse jazigo da família, no estado de Maryland.

A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos.

The Crack-Up (1945)

Francis Scott Fitzgerald foi o expoente da sua “Jazz Age”, fase em que conheceu o êxtase das suas emoções e vibrações, movidas por um talento inebriante e eufórico pelas luzes da ribalta e do consumo. Scott e Zelda emparelharam como o par de rostos que ilumina as memórias desses tempos, marcados pelo  glamour  e pelo seu reverso, que se envolveu numa espiral recessiva até acabar de forma drástica para ambos. No entanto, a sua influência prolongou-se até aos dias que chegam a nós e a muitos daqueles que, até hoje, deram voz a gerações de intenções e de pulsões, de vontades e de idades, de contestações e criatividades. O casal Fitzgerald simboliza essa idade de um dinamismo sem fim, que se prolonga para lá da sua morte física, pelo meio da consciência do seu vazio, que só se enchia de copo cheio.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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