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Wes Anderson continua a surpreender. ‘Isle of Dogs’ é um filme de grande beleza e para desfrutar

04-05-2018 - João Pinho

Em “Isle of Dogs”, Wes Anderson consegue explorar o que mais nos fascina na cultura asiática e na animação stop motion. Não só consegue criar um mundo fantasioso com base em características da cultura japonesa como também caracterizar o ser humano e a sua relação com espécie canina em diversas dimensões.

Neste novo filme, a história desenrola-se à volta, como é costume, de uma aventura entre amigos ou personagens cujos laços, ao longo da travessia, se intensificam. Os cães são o animal em análise. Neste mundo, a sua importância é posta em causa e está nas mãos da sociedade e, acima de tudo, dos próprios cães e dos seus donos e amigos de defenderem uma espécie que, em outros tempos, era considerada “o melhor amigo do Homem”. Com um humor canino e uma perspectiva inteligente, foi criado um mundo de uma beleza estonteante mesmo quando as paisagens se resumiam a uma lixeira tóxica criada pelo Homem. Entre lixo, rios tóxicos e doenças caninas, uma aventura emerge cheia de dinâmica e sem tempos mortos.

Os cães caracterizam as nossas idiossincrasias mais básicas, desde a inveja ou o instinto de sobrevivência até aos gostos particulares mais peculiares. Eles falam de comida, falam das suas vidas passadas e mostram uma perseverança incrível tendo em conta a situação onde se encontravam. Como um ser humano, eles também delimitam os seus valores e a sua moral e agarram-se a simbolismos, e nós somos os últimos a podermos criticá-los. Por detrás das vozes dos cães conseguimos encontrar muitos actores já nossos conhecidos, alguns já clássicos na carreira do realizador Wes Anderson, como é o caso de Bill Murray, Edward Norton ou Jeff Goldblum. Exactamente por conhecermos os actores é que os cães se tornam tão distintos uns dos outros e tão “reais”.

Um dos aspectos mais interessantes foi a junção das duas línguas faladas, inglês e japonês. Naturalmente, as personagens japonesas falam a sua respectiva língua, mas para os cães foi escolhido o inglês. Isto poderia originar imensas críticas e afectar algumas sensibilidadezinhas, mas não poderia estar mais de acordo com esta escolha. Aliás, em muitos casos, ao espectador não é disponibilizado uma tradução directa do que as personagens nipónicas estão a dizer. O espectador é obrigado a interpretar a ideia ou mensagem a ser proferida e esperar que essa tradução seja realizada com algum atraso (propositado) por uma personagem ocidental. Claramente é dada uma maior relevância à cultura japonesa e ainda bem, porque também é disso que se trata! O espectador, como as personagens ocidentais, como é o caso da tradutora na rádio, é um outsider cujo papel é absorver da melhor forma o mundo fantasiado que é retratado e, como é óbvio, sempre com aspectos bastante reais. Não há qualquer tipo de apropriação ocidental ou um whitewhasing. Neste mundo, duas culturas podem-se tocar da mesma forma que duas espécies criaram uma relação inseparável.

A animação não é o único aspecto caracterizante deste filme. A ela podemos acrescentar a já mais do que conhecida simetria imaculável de qualquer ângulo ou perspectiva e, por último, o desenho. Este último consegue caracterizar com mais detalhe os cenários, como é visível no enorme poster da personagem Kobayashi (imagem acima) enquanto o mesmo discursava, no quadro conspiratório da aluna activista americana ou simplesmente na abertura do filme e nos créditos em que os artistas são apresentados em ambas as línguas. Não poderia deixar de falar da banda sonora, da autoria de Alexandre Desplat, que conjuga na perfeição músicas cheias de tensão ao estilo de Akira Kurosawa em “Ran”, por exemplo, onde os instrumentos de percussão e as flautas pautam o ritmo da acção, seguidas por uma balada nostálgica de um passado longínquo onde os cães eram o melhor amigo do Homem.

Podemos olhar de diversas formas para o filme. Talvez seja uma ode à raça canina ou à nossa relação com o animal. Ainda é possível concluir que seja uma comédia distópica ou um retrato da perda de valores humanos. Eu limito-me deliciosamente a absorver a beleza deste mundo e continuar a ser surpreendido pelo realizador, porque o mundo de Wes ainda é grande e longe de ser descoberto na sua totalidade. Vejam o filme sem quaisquer desejos egoístas ou ideias pré-definidas. Este é um filme para desfrutar.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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