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Gabriel Tallent traz-nos a crua dureza do abuso, em ‘O Meu Amor Absoluto’

27-04-2018 - Miguel Fernandes Duarte

Ao imaginarmos um fanático de armas obcecado com a sobrevivência, provavelmente pensaremos, principalmente se o nosso referencial se encontrar na Europa e não nos Estados Unidos da América, em alguém bruto, buçal, encerrado em ideias feitas e em ideiais considerados retrógados para os nossos olhos de hoje. Pintá-lo-emos como um redneck, um daqueles homens vindos da imagem que temos da América que elegeu Donald Trump, conscientes da dureza das suas vidas, quiçá, mas incoscientes da sua realidade, quase sempre mais complicada que as imagens que nos são pintadas, nem sempre permitindo classificações tão lineares.

O Meu Amor Absoluto é a estreia literária de Gabriel Tallent, autor americano que vê a sua ficção, um ano depois de originalmente publicada, chegar à língua portuguesa através da editora Relógio d’Água. Obra de portentoso peso dramático, conta a história de Turtle, rapariga de 14 anos que vive com o seu pai, Martin, perto de Mendocino, Califórnia, a sua mãe morta há vários anos, crê-se que por suicídio.

Nesta casa, cada manhã começa com Martin a abrir uma cerveja na bancada, ou com os dentes, e com Turtle a abrir ovos directamente para a sua boca, antes de ambos rumarem, a pé, à paragem onde Turtle apanhará o autocarro para a escola. Rapidamente se torna aparente que há algo de errado nesta relação paternal, na casa que é deixada ao desleixo, com aranhas a habitar na casa de banho, tábuas desfeitas e louça carcomida, e no próprio crescimento de Turtle.

Educada pelo pai no disparo de armas de fogo desde os 6 anos de idade, a adolescente é mestre no manejo de pistolas, espingardas e caçadeiras, e em todo o tipo de actividades nas quais a sobrevivência seja posta em causa. Faz caminhadas na natureza descalça, come escorpiões selvagens, é capaz de sobreviver a uma tempestade dentro do toco de uma árvore. No entanto, fracassa na escola, e o seu pai, Martin, insta-a a fazer melhor, ainda que acabe por contrariar as suas próprias palavras quando, ao invés de ajudar a filha com os trabalhos de vocabulário que tanto lhe causam dificuldade, obriga Turtle a disparar a alvos ou a fazer elevações enquanto o pai lhe deixa uma faca pousada na coxa, impedindo-a, portanto, de parar até ao momento em que ele o decida.

Mas, à parte deste misto de dureza e descuido, Martin surge-nos também como alguém culto, que passa os seus dias a ler filósofos como Descartes ou Hume, ao mesmo tempo que instrui a filha sobre os perigos que se vão abater sobre a humanidade devido às alterações climáticas, mais perto do fim dos tempos a cada dia que passa, e acaba por ser também devido a esta sua percepção de um eminente desastre ecológico mundial, com origem nos descuidos e na ganância do ser humano, que Martin instrui a sua filha em tudo o que necessita de saber para sobreviver.

Carácter ambíguo, Martin não é uma personalidade simples, levado, diz ele, a fazer o que faz pelo seu amor e preocupação para com Turtle, “a sua croquete”, como lhe chama. Até que nos é mostrado o quão perverso esse amor pela filha pode ser e em como, afinal, as prioridades de Martin se encontram invertidas. É que, além de tudo o resto, ele abusa também sexualmente da sua filha. Mas se, para nós que vemos de fora, Martin passa, a partir deste momento, a ser facilmente enquadrável numa longa lista de pessoas com comportamentos odiáveis, ambíguo continua a ser para Turtle, que, reconhecendo todo o abuso do seu pai, vê nele também tudo o que de bom lhe traz, um misto de desconhecimento do funcionamento de outras famílias conjugado com o dito fenómeno da síndrome de Estocolmo, onde o abusado desenvolve uma afeição pelo seu abusador.

O Meu Amor Absoluto é, portanto, uma história de abuso, psicológico e físico, e Turtle uma rapariga presa entre, por um lado, a vontade de se livrar desse mesmo abuso, e, por outro, um amor pelo seu pai que lhe surge como o único alguém que a compreende, aquele que, apesar dos seus defeitos, sempre se preocupou com o bem-estar dela.

Se às vezes, nomeadamente quando a narrativa envolve corpos e descrições sexuais, se sente que é um homem quem está por detrás desta escrita, e ainda que certas decisões narrativas pareçam algo exageradas ou desnecessárias – em certas alturas tornando-se mais thriller e menos romance psicológico-abusador (onde encontra a sua faceta mais forte) – Gabriel Tallent serve-nos este prato com mestria inspirada nas obras e nos universos crus de alguém como Cormac McCarthy, e, correndo o risco de utilizar trocadilhos fáceis, é inegável que possui talento para a escrita. Tal é por demais evidente quando nos vemos a braços com as suas descrições da natureza, por exemplo, onde se evidencia um autor que tem certamente, com o mundo selvagem, uma estreita relação, e esta torna-se parte da obra em momentos que servem, muitas vezes, como pausas no fulgor agitado da narrativa, um tempo de descanso para apreciação do que há de belo na relação entre flora e fauna, na qual, claro, se inclui o Homem.

São pausas bem-vindas, porque um romance da envergadura dramática de O Meu Amor Absoluto não pode nunca ser um livro de leitura fácil, suscitando no leitor reacções viscerais a uma relação tão obsessiva e destrutiva como a de Turtle e Martin. Mas mesmo perante tal advertência de dureza narrativa, é importante que não nos escondamos de tais narrativas, quase ignorando a sua existência atrás de uma classificação de horror demasiado pragmática. Uma relação desta natureza não pode nunca ser de interpretação fácil, e Gabriel Tallent cumpre o seu papel de nos mostrar como pode Turtle, não sendo sequer uma rapariga passiva, amar um pai que, para o que interessa, com a desculpa de a preparar para a vida, não foi nunca capaz de criar a sua filha para mais do que a morte.

Fonte: Comunidade Cultura e Arte

 

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