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Terça-feira 17 de Outubro de 2017  
Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

ENTREVISTA A ALBANO JERÓNIMO

16-06-2017 - N.A.

A propósito de 'Um libreto para ficarem em casa seus anormais'

Um Libreto para ficarem em Casa seus Anormais  estreia no Teatro Nacional D. Maria II a 8 de junho. Trata-se da primeira criação do ator Albano Jerónimo, que aqui se estreia como criador, mas que também participa e encena esta obra operática, com música de Vítor Rua. A peça baseia-se num texto do argentino Rodrigo García que cruza com o imaginário de Werner Herzog e da sua obra-prima Fitzcarraldo.

Tudo começou no Grupo de Teatro Esteiros, em Alhandra, de onde és natural. Olhando para trás, o que retiraste dessa experiência?
O espírito de grupo e o poder da palavra. Foi através do encenador e ator Mário Rui, que considero que foi o meu primeiro mestre, alguém que me estimulou para o poder da palavra. Ainda hoje transporto isso comigo e cada vez está mais presente na minha vida e na minha profissão. Intriga-me este diálogo permanente, esta descoberta infinita, este som, ainda por cima temos uma língua muito rica, quer fonetica, quer gramaticalmente. É uma paixão infinita para mim.

Entretanto entraste na Escola Superior de Teatro e Cinema. Nessa altura já tinhas a certeza de que querias seguir a carreira de ator?
Sim, pelo menos ia mais consciente. Pensei: “vou tentar”. Entrei em primeiro lugar e isso foi um incentivo muito claro para mim. Tive uma espécie de aprovação. Na altura o Conservatório tinha uma ressonância muito mais forte do que tem hoje para mim.

O facto de ser uma profissão precária e sem ordenado fixo nunca foi um entrave?
Ainda hoje é, mas continuo a acreditar, porque isto é uma paixão interminável. Mais do que uma paixão, é a minha forma de comunicar por excelência. O teatro, além de muitas outras coisas, dá-me uma plataforma de comunicação única e é aí que eu me consigo educar.

''Ser ator é uma paixão,

é a minha forma de comunicar

por excelência.''  

Trabalhas muito em teatro, mas és mais conhecido do grande público pelos projetos que fazes em televisão. Qual é a tua maior paixão: teatro, cinema ou televisão?
O teatro pelas razões que apresentei. É um privilégio ter esta profissão porque dá-me a possibilidade de me conhecer, de me explorar e de mergulhar noutros universos onde de outra forma não mergulharia. O cinema também é uma grande paixão, porque dá-me oportunidade de criar um objeto que fica imortalizado. O teatro já não tem essa qualidade. Como sou pai, vou gostar que a minha filha daqui a uns anos tenha esse espólio.

És uma das pessoas envolvidas na criação da associação cultural Teatro Nacional 21. Qual o objetivo desta associação?
É um projeto transversal. Foi criado por mim, pela Cláudia Lucas Chéu e também pelo Francisco Leone, o Tiago Pinhal Costa, o Rui Monteiro e o Vítor Rua, que fazem parte do núcleo duro da associação e deste grupo de trabalho. Surgiu por uma urgência comum em comunicarmos maneiras de ver o mundo. Pauta-se por um trabalho plasticamente muito trabalhado, muito delicado, nova dramaturgia acima de tudo. É a primeira vez que vamos fazer um trabalho a partir de outro autor, que neste caso é o Rodrigo Garcia, mas convidámos um outro dramaturgo, um português, o Mickael de Oliveira, que é um dos dramaturgos mais pujantes da nossa escrita. Interessa-nos desenvolver a escrita portuguesa em teatro.

Em junho, estreias a tua primeira peça enquanto autor. Há muito tempo que tinhas o desejo de levar para palco uma criação tua?
Foi algo que foi crescendo, que tem que ver com esta paixão infinita pelas palavras. Esta exploração interminável por aquilo que me rodeia – e eu acredito verdadeiramente que sou um agente da comunicação. A minha profissão tem uma responsabilidade social e tudo isto veio desembocar neste momento. Foi uma urgência que teve esta roupagem. Este desejo de encenar, de coordenar, de estar à frente de pessoas, de as dirigir, só no último ano e meio é que ganhou outro corpo. Implica outra logística, outra maneira de pensar e de trabalhar. E eu adoro desafios e adoro provocações e a nossa associação também tem esse intuito de provocar, um pouco como o Pasolini. Sou um enorme fã do Pasolini. Adoro, já li tudo o que cá há traduzido sobre ele. Era um criador ímpar que se pautava, entre outras coisas, por um espírito de provocação. A provocação para mim é absolutamente determinante para a minha formação enquanto pessoa e enquanto artista.

Um Libreto para ficarem em casa seus Anormais é baseado num trabalho do dramaturgo argentino Rodrigo García. Como surgiu a ideia para este trabalho?
A ideia partiu de um encontro e de uma relação profissional e pessoal com o John Romão, para mim um criador único. Ele disse-me, na altura que fizemos  A Pocilga , do Pasolini, na Culturgest: “Albano, tu devias encenar um dia. Vê lá este texto do Rodrigo García”. Já conhecia a escrita do Rodrigo García, é alguém que esbate fronteiras, é um provocador nato, quase um revolucionário, que esbate os guetos sociais e que expõe a diferença. Se era para fazer algo pela primeira vez, interessava-me algo que fosse plural e que expusesse a individualidade, porque no meio desta globalização, desta massificação permanente em que vivemos hoje, acredito mesmo nesta individualização e nestes pequenos focos que compõem um todo. A mim, enquanto criador, interessa-me expor a individualidade, o indivíduo. Foi esta mistura toda, esta urgência que foi crescendo, e o Rodrigo García reúne tudo isso. Acrescentou-nos foi outros mil problemas. Um criador tão plural como ele, alguém que usa vídeo, que tem uma linguagem performática, que vem da publicidade, que tem um olhar muito aberto sobre as coisas e com verbas para fazer aquilo que pensa, como é que podíamos adensar a escrita deste autor? Pensei muito e cheguei à conclusão de que devíamos fazer um objeto operático, porque a música é um veículo de comunicação que não implica grande julgamento, chega às pessoas de forma muito mais rápida. Este formato operático também vem dentro deste espírito da provocação. Pegámos numa coisa  bourjouis , que implica todo um ritual, uma cerimónia, toda uma panache que quisemos partir. É uma provocação ao Rodrigo, estamos a questionar o próprio autor, mas sobretudo queremos adensar todas as problemáticas que ele expõe e a música aqui tem uma eficácia tremenda. Com toda a humildade e com toda a presunção digo isto: acho que acrescentamos algo mais ao Rodrigo García com esta linguagem.

Para além de criador, participas e encenas esta peça. Como se conjuga tudo isto?
Acho que a conjugação só é possível devido ao facto de ter uma equipa incrível. Todos os envolvidos foram escolhidos a dedo, não houve indisponibilidades. Tenho pessoas como a Cláudia Lucas Chéu e o Mickael de Oliveira que são artistas ímpares, pessoas com sentido de gosto que admiro, que me inspiram e que a nível de criação me dão uma segurança tremenda.

''Ao convidar a Crinabel, quisemos quebrar

algumas barreiras que existem na sociedade.''

A peça conta com a participação do Grupo de Teatro Crinabel. Como surgiu esta parceria?
Vem exatamente do Rodrigo García, desta vontade de aclarar estes pequenos guetos sociais. Para além dos atores, a Crinabel entra como co-produtora deste espetáculo. É um elemento determinante para a linguagem que queremos trabalhar e para as problemáticas que queremos expôr. Ao convidar a Crinabel, quisemos quebrar algumas barreiras que existem na sociedade. Esta participação está intimamente ligada com a diversidade, com o espírito tropical desta ópera. Ao falar de tropical, entra aqui outro criador que cruzámos com a dramaturgia do Rodrigo García, que é o Werner Herzog, que aqui aparece com o  Fitzcarraldo , alguém que é um sonhador, que quer construir uma ópera na Amazónia. Entretanto apaixona-se por uma prostituta, dona de um bordel, e enceta uma viagem de barco para levar o seu sonho a bom porto. Toda esta mistura, todo este tropicalismo, esta diversidade com a Crinabel ganha ainda mais expressão, ganha outra pertinência. Já os sigo há alguns anos, vi alguns espetáculos e sempre tive o desejo de trabalhar com eles, porque me inspiram, têm uma forma de estar em teatro que eu subscrevo inteiramente. Têm uma inteligência que eu não tenho e isso apaixona-me. Quero aprender com eles, o conhecimento é a coisa que mais me fascina. São uma permanente inspiração.

A composição musical está a cargo de Vítor Rua (um dos fundadores dos GNR). Como surgiu o nome dele?
O Vítor Rua trabalha com a associação desde 2011 e já trabalhámos em vários projetos juntos. O Vítor é um criador ímpar, considero-o um génio musical. Tem um universo sonoro absolutamente fascinante. Compôs toda uma partitura absolutamente única, um trabalho extremamente delicado e intenso. No fundo, ele é o coração deste projeto.

Houve alguma preparação dos atores na parte musical?
O desafio foi criar uma ópera com instrumentos não usuais numa ópera. Temos cinco guitarras elétricas, dois baixos, um cravo, um piano, uma harpa, uma bateria e um trompete. Isto faz uma ópera lírica. Esta foi a base instrumental para criarmos o universo sonoro e isto foi um desafio brutal para o Vítor. Fiz uma provocação específica a toda a equipa. Por exemplo, à Solange Freitas disse-lhe, há seis meses: “não sabes tocar nada? Toma lá um baixo e vai brincar em casa”. Eu tive aulas de guitarra e de piano. A Solange teve um acompanhemento. O teatro tem que ter esta qualidade de estímulo, de contaminação, que te deixe um eco qualquer para a tua vida. Para mim só faz sentido assim.

Há algum ritual que tenhas antes de entrar em cena? Alguma superstição?
Há muitos atores que têm, eu estou longe dessa realidade. A mim interessa-me o trabalho puro e duro. Tenho uma perspectiva laboral, sindicalista quase, da coisa. Tenho a capacidade de separar as coisas. Por exemplo, quando termino o ensaio às 20h, para mim acabou, fechou ali. Gosto muito de ter este lado mais prático.

Qual é a tua expectativa em termos de afluência?
Todos os espetáculos que tenho feito têm estado cheios. Acredito que o tempo em que o teatro era o parente pobre da cultura já lá vai. Arcredito verdadeiramente que os jovens estão ligados ao teatro. É o sítio onde verdadeiramente podes ver a 3D, e acredito que esta necessidade de ir ao teatro está nos nossos corpos. É uma coisa que está nos nossos hábitos diários. A minha expectativa é que as pessoas venham em massa. É um objeto feito para as pessoas, é uma urgência partilhada e trabalhada. Quero que as pessoas se divirtam primeiramente, porque isso é meio caminho andado para comunicarmos melhor e para chegarmos de forma direta e clara ao público.

Que outros projetos estás a preparar?
Tenho vários em marcha: estou neste momento a meio de uma participação numa série do Marco Martins, escrita por ele e pelo Bruno Nogueira e que vai estrear no próximo ano na RTP. Em junho, começo as gravações de uma novela para a SIC, o próximo grande projeto da estação. Também vou ter uma peça do Mickael de Oliveira, com quem tenho trabalhado. Fizemos recentemente a primeira parte d’ O Sócrates tem de morrer , a partir do Feldon. Vamos começar a trabalhar na parte dois, e depois faremos uma espécie de compilação das duas partes, que estará no São Luiz. É um projeto que eu adoro, identifico-me imenso com a linguagem. É um projeto muito estimulante, com pessoas incríveis. Apetece-me mergulhar nisto tudo. Isto acontecerá mais para o final do ano. Até lá estou já a arquitectar outras coisas com a Teatro Nacional 21. Vamos trabalhar num projeto muito ambicioso que nunca foi feito cá, mas tenho que ter muitas reservas a falar sobre isto porque não quero que ninguém faça alguma coisa a partir disto. A Teatro Nacional 21 tem a Guilhotina Edições, a nossa editora que se pauta por editar teatro, poesia e ensaios. O nosso último lançamento foram textos inéditos da Virginia Woolf, com tradução do Vasco Gato, são este tipo de projetos e ilhas criativas que nos interessam. Nos próximos tempos vou-me dividir um pouco entre estas frentes. Antes de tudo isto, sou pai, que é de onde retiro o maior combustível para aquilo que faço.

Qual é o grande papel da tua vida, aquele que ambicionas mesmo fazer?
Tenho textos que gostava de trabalhar. Ao invés de falar em personagens – até porque não acredito muito no conceito ou na ideia do personagem – acredito mais que são os contextos que nos definem. Não é uma personagem que define um contexto. Tenho autores que me estimulam, como Heiner Muller, que é um dramaturgo absolutamente fascinante, que me trespassa. Fiz com o Carlos Pimenta um projeto do qual guardo as melhores ressonâncias, que foi o  Quarteto . É um escritor intemporal, não quero ser redutor a falar dele, mas é alguém que nos despenteia, que nos destabiliza interiormente, que nos leva para outros mundos. Pasolini, Herzog, Fassbinder… Ando um bocado nesta onda meio germânica. Estou mais apaixonado por autores do que por personagens. Gostaria de mergulhar com mais tempo nestes autores.

[ por Filipa Santos; fotografias de Humberto Mouco ]

8 jun a 2 jul/17

Teatro Nacional D. Maria II

Praça D. Pedro IV

1100-201 Lisboa

 

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