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O rabo de uma mulher

15-07-2022 - Ângela Marques

O homem já se habituou a tudo, da cera para a barba à depilação. Só não lhe peçam para se habituar ao rabo de uma mulher.

O homem cis hétero já se habituou a tudo, da cera para amaciar a barba às calças de ganga que colam às pernas como película aderente passando pela depilação dos pelos do peito e das costas (vejam, ele até se habitou a que lhe chamassem “metrossexual”, que está ali, na ironia que a homografia oferece, paredes meias com “homossexual”) – só não lhe peçam para se habituar ao rabo de uma mulher.

No que concerne ao próprio rabo o homem cis hétero é obstinado: não desiste de tentar que tenham graça todas as alusões a rabos nas conversas entre amigos (mesmo quando esses amigos já passaram há muito dos 15 anos) e, mesmo estando em 2022, ele insiste em evocá-lo para ofender os seus inimigos, temperando o insulto com uma pitada de misoginia e outra de homofobia. A psicanálise estuda e explica a obsessão, a quem possa interessar – a mim, no caso, interessou-me, há uma semana, observar um rabo e o seu impacto em particular.

Eu tinha a consciência prévia de que aquele não era um rabo qualquer – era um rabo bíblico, um daqueles pelos quais se vai para guerra (do ginásio) e se escrevem poemas (posteriormente musicados e transformados em hinos para cantar em grupo, a desoras e sem vergonha ou noção do ridículo). O rabo dela não era só um rabo e eu já o sabia só de o ver ao longe. No último domingo (dia santo, apropriadíssimo), arrastei o meu rabo para ver o dela de perto.

E se eu já sabia que queria estar na plateia daquele concerto, não imaginava que uma semana depois ainda estivesse a pensar nele. O mérito é todo dela e a culpa é toda do homem cis hétero supracitado e sobrevalorizado. Ela fez o que tinha de fazer: foi um ícone. Subiu ao palco e entregou tudo: música, dança, resistência e feminismo. Isso incomodou, aparentemente, até quem nunca tinha ouvido falar dela. E foi assim que o dia seguinte ao dia do concerto da Anitta mostrou que os rabos das mulheres que mandam no seu próprio corpo ainda são um transtorno para muitos homens. Sobretudo se não rebolam para eles.

Fonte: Sábado.pt

 

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