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Carlos do Carmo, morreu a andorinha e a voz de Lisboa

08-01-2021 - Helena Teixeira da Silva

Amanheceu triste o primeiro dia do ano em Portugal, com a morte de Carlos do Carmo, a andorinha e a voz de Lisboa, o fadista do charme e do Bairro da Bica que se despediu dos palcos na data decidida, em Novembro de 2019, com três concertos, salas lotadas em Braga, no Porto e em Lisboa, o público de pé, ovação demorada, e ele de lágrimas no rosto antes sequer de começar a cantar o fado que renovou e espraiou pelo mundo. "A vida correu-me bem", repetiu nas últimas entrevistas.

O filho da fadista Lucília do Carmo e do livreiro Alfredo de Almeida foi internado, com um aneurisma na aorta, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na última noite de 2020, morrendo na primeira manhã de 2021. Tinha 81 anos, quase 60 de carreira e, entre inúmeras distinções, a única alguma vez atribuída a alguém que não é chefe de Estado - a chave da cidade de Lisboa. Do seu extenso legado, que inclui 300 canções por muitos de muitas gerações sabidas de cor - "Os Putos", "Lisboa, Menina e Moça", "Estrela da tarde", "Um homem na cidade" - , faz parte um álbum de estúdio que também decidiu que seria o derradeiro, mas não póstumo como acabará por ser. "E Ainda" traz dentro poetas como Sophia e Herberto, Pomar e Palma, e está pronto a ser editado. "Carlos do Carmo deu vida às palavras como ninguém. Muitas vezes visionário, nunca abdicou de levar o Fado para outras dimensões, de lhe introduzir novos instrumentos, de evangelizar novos poetas", diz o comunicado da editora Universal.

O Governo decretou um Dia de Luto Nacional para segunda-feira, dia em que se realizam as cerimónias fúnebres - o velório começa às nove horas na Basílica da Estrela e a missa de corpo presente às 14h, não sendo ainda conhecido o cemitério para onde irá - e propôs ao Presidente da República a atribuição da Ordem da Liberdade, a título póstumo. "Por detrás de uma grande figura da cultura estava um grande homem, com uma grande riqueza pessoal, uma sensibilidade e uma intuição e identificação com o povo português que o povo português não esquece", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa numa declaração à RTP.

DA CASA "O FAIA" AO MUNDO

Carlos do Carmo, cavalheiro e "maluco", amante da palavra, da liberdade e de Judite, a mulher de uma vida inteira, nasceu em Lisboa, em 21 de dezembro de 1939, iniciando a carreira aos 25 anos, até aos 34 em censura. Ao mesmo tempo geria "O Faia", no Bairro Alto, casa de fados da família em que a mãe era diva. O pai, que fizera questão de que o filho estudasse na Suíça, morrera-lhe quatro anos antes. "2021 amanheceu sem charme, triste e mais pobre", lê-se na página de Facebook d"O Faia, amostra do desalento que inesperadamente ensombrou todas as casas idênticas da capital. "Esta era a notícia que não queríamos no começo do novo ano."

Primeiro português a ser distinguido com o Grammy Latino de Carreira, subiu aos palcos do Olympia de Paris, da Ópera de Frankfurt, do Canecão do Rio de Janeiro, do Royal Albert Hall de Londres, e aos palcos de centenas de salas espalhadas por todas cidades do mundo que acolhem as comunidades portuguesas. E cantou com dezenas de fadistas, homens e mulheres, a maioria tratava-o por mestre, mesmo quando na crítica não era manso. "Miúdas a cantar com bateria não é fado, é cabaret", chegou a dizer. Como chegou a mandar calar as palmas do público. O fado exigia-lhe silêncio e respeito. Era também essa dignificação do fado, pela qual lutou incansavelmente depois do 25 de abril, que os outros procuravam nele. "A parede negra da ausência das pessoas que nos são próximas é coisa muito triste", escreveu Sérgio Godinho, que para ele escreveu "Velho Cantor". Chocado, Camané manteve o tom. "É difícil de lidar, vai ser sempre uma das pessoas mais importantes do fado."

Mas Carlos do Carmo, para quem Ary dos Santos escreveu tantos poemas, não se confinou a cantar. Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, o principal impulsionador da criação do Museu do Fado, em Lisboa, e embaixador da candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, finalmente assim classificado pela Unesco em 2011. Ele é "o representante máximo do chamado fado novo", lê-se na Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX, acentuando também a diferença literária. Com ele, "a tónica passa da saudade para a liberdade, e da tristeza passiva para a enérgica vontade ativa". Quando quis descer o pano, escolheu fazê-lo como andorinha. "Vivo a vida como dantes a cantar/ Não tenho menos nem mais do que já tinha".

Fonte: JN.pt

 

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