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Questões Oportunas

PAIÓIS, PAIOLINS, MUNIÇÕES E OUTRO ARMAMENTO
21-07-2017 - Redacção

Estas são as “combinações explosivas” de momento, vamos lá ver como em que “mãos é que vão rebentar. Esta matéria nos últimos tempos tem sido muito “quente”, não devido às altas temperaturas que se têm feito sentir mas sim ao “desaparecimento” em Tancos de algumas munições, granadas e outro material bélico.

Tudo isto se me afigura muito estranho e demonstra à saciedade que as mais elementares regras de controlo e de segurança deste tipo de material tem andado ao deus dará. Não estou a generalizar, mas a avaliar pelo que tem sido comentado e trazido à praça pública pelos diferentes órgãos de comunicação social, que inicialmente colocavam a hipótese do “desaparecimento” de significativo e importante material bélico, até que mais tarde não sei por que motivos e razões desvalorizaram a questão considerando o material desaparecido como obsoleto.

Será que se fez uma tempestade num copo de água, ou de facto as regras mais elementares de segurança estão em causa, como é do vosso conhecimento todo o material e espólio militar tem que estar devidamente inventariado e quando se passa de um comando para outro comando umas das regras básicas é conferir todas as “existências”.

É aqui que surge a questão será que o que indiquei não foi feito e o episódio é o resultado acumulado de durante anos e anos não se fazer este tipo de controlo. Como é do vosso conhecimento, quando se dá instrução aos militares, na fase de tiro, carreira de tiro, é comum quem está a dar instrução nesta área chegar aos paióis e pegar numa certa quantidade de caixas de munições e levá-las para a carreira de tiro e os praticantes coordenados por um militar mais graduado que lhes dá instrução, vai-lhe dando instruções no sentido de aprimorarem e se formarem na área de tiro.

O que eu assisti e é sobre isso que posso escrever foi que pegaram em não sei quantas caixas de munições, que estavam no paiol, e levaram-nas para a carreira de tiro e a maior parte de nós lá procedemos como nos disseram, o que me recordo é que alguns tiros foram dados, outros nem tanto, mas o que importa para o caso é que não se esgotaram as caixas de munições que foram levadas e não me recordo de ao trazê-las de novo para o paiol de terem conferido o que tinham levado com o que tinham trazido. Não quero com isto dizer que esta prática seja generalizada, eu assisti a este episódio e vi o que vos conto.

Como sabem também, estamos a avaliar um caso militar porque com o que estamos a lidar é material bélico que pode causar danos físicos, pode ser objeto de transação comercial não desejada e porque na minha opinião a ser verdade o que veio a “lume” ocorreu uma falha grave de segurança, e é sobre isto que gostaria de pensar convosco.

Pegando num caso civil, por exemplo um armazém de peças para autocarros de passageiros, como imaginam o stock de peças é imenso desde a maior peça até há mais ínfima, ou seja o parafuso. Eu como trabalhei numa grande empresa de transportes, os inventários eram feitos anualmente e às vezes quando havia suspeitas de material mal empregue era feito casuisticamente e reparem que este procedimento não é tão grave quanto ao caso em apreço, se faltar uma peça não virá mal ao mundo, quando muito causará um prejuízo ao dono da empresa, mas isto não deverá acontecer seja em que área for, por exemplo na saúde, a falta de medicamentos numa farmácia hospitalar, de material cirúrgico devidamente esterilizado, material de sutura pode ser considerado muito grave.

Mas voltando ao exemplo que lhes estava a descrever um belo dia pedem-me para fazer uma auditoria aos armazéns das peças para os autocarros, como gosto de desafios, aceitei o que me pediram. Iniciei o meu trabalho e vi a descobrir que existiam 3 armazéns de peças, o armazém das peças novas, o das peças recuperadas e em condições de serem novamente reutilizadas e a bancada de trabalho de cada um dos mecânicos, porque estes gostavam sempre de ter à mão peças para poderem fazer as suas intervenções o mais rapidamente possível.

Por este exemplo é fácil avaliar o desperdício que existia em vez de um armazém existiam três, só se conhecendo as peças que se encontravam no armazém das peças novas.

Mas o que ocorreu de maior gravidade neste processo todo, foi que eu vi a descobrir que tinha sido comprada e paga uma caixa de velocidades nova para um a MAN, inteira para ser aplicada quando alguma se avariasse e a única coisa que encontrei foram as guias de remessa, a fatura e o recibo em como tinha sido liquidada, procurei por tudo quanto era sitio e não encontrei a “maldita” da caixa de velocidades, ora ela pernas não tinha, achei muito estranho mas senti que o responsável pelo armazém da oficina, o responsável pela manutenção, estavam comprometidos. Como a auditoria me tinha siso solicitado pelo Administrador eu escrevi o que tinha encontrado e como acho que não devemos só criticar sugeri que fossem tomadas medidas para existir apenas um armazém. Arranjei uma “guerra”, porque os profissionais das oficinas eram avessos a papeis, os hábitos que estavam instalados de ter peças à mão para as poder utilizar quando muito bem lhes aprouvesse, acabou e racionalizou-se e passou a haver um controlo mais efetivo do material que se encontrava disponível para ser aplicado, por muitas foram as vezes em que alguém possuía uma peça que era necessária e não dizia que a tinha só para se poder desenrascar quando a mesma fosse necessária.

Já agora conto-lhes onde parava a caixa de velocidades para a MAN, em lado nenhum, não tinha entrado na oficina, tinha sido pago como tal, mas o dinheiro efetivamente tinha sido aplicado noutros materiais que não tinham nada a ver com a atividade da empresa, foi parar aos acabamentos da construção de uma vivenda de um dos responsáveis.

O Administrador ainda me pediu par tirar aquela parte do meu relatório, disse-lhe que não fazia sentido, pois se tinha detetado uma desconformidade ela deveria estar refletida, por que se não eu estava a prestar um mau serviço à empresa e poderia ser responsabilizado por isso, e assim ficou, sem alterações, também com esta minha atitude arranjei logo “amigos”, mas como não tenho telhados de vidro e não me presto a estas práticas, não me preocupei na altura, mas também era muito novo teria 30, 31 anos.

Este exemplo apenas serve para tentarmos “pegar” no “desaparecimento” do material bélico dos paiolins de Tancos. Depois de tanta versão sobre o material que supostamente lá se encontrava eu já não sei o que lhes escrever, mas dada a utilização que pode ser dada ao material que foi “retirado” de lá, não sei se novo se obsoleto como agora afirmam, o que é facto é que houve uma quebra nas mais elementares regras de segurança militares, não sei de quem é a culpa, mas que houve, houve.

Como não estou habilitado para me pronunciar com certezas absolutas apenas estou em condições de questionar e colocar questões que decorrem dos procedimentos usuais de segurança nestes casos. Como vos escrevi será que o material estava devidamente inventariado, aquando da passagem de comando? Se material colocado naqueles paiolins era assim tão importante e existindo falhas nas condições de segurança, guaritas sem condições, sistema de segurança eletrónico desativado, rede que cerca o campo militar, com fragilidades ou partes forçadas, porque é que as rondas de segurança não se fizeram mais regularidade?

Estas são as principais questões, outras teria para colocar, mas gostaria de partilhar convosco duas situações que conheci.

Conheci, um responsável de uma área financeira de uma empresa que tinha na sua secretária duas granadas de mão, uma ofensiva e outra defensiva e quando se passava ou nos queria assustar ponha-se na brincadeira com as granadas, tirava espoleta punha espoleta e eu sempre à espera de um dia aquilo correr mal, daí que me afastava o mais possível do personagem. Mais tarde apercebi-me que o homem tinha estado na Guiné- Bissau como alferes miliciano e que tinha regressado com o que agira designamos por stress de guerra. Mas voltando ao recente “desaparecimento” destas munições de Tancos, será que no passado já não ocorreram falhas como esta, como é que o homem que vos falei tinha aquelas duas granadas em algum sítio elas faltavam.

Outra situação que conheço é a de um tenente-coronel paraquedista homem de mão de Spínola, que saltava sempre com duas garrafas em cada um dos bolsos do camuflado para assim que chegasse ao chão, tivesse com que matar a sede, raramente saltou e partiu alguma tal era o cuidado com o precioso líquido que transportava. Este homem foi um dos comandantes de pelotão que capturou o famoso oficial cubano que nos anos quentes de 1974/1975 deu muito que falar e esteve preso no Hospital Militar de onde viria a “fugir”. O general António de Spínola ofereceu a este homem a arma utilizada por ele, oficial cubano, uma metralhadora AK-47, que tem na sua casa e que se encontra em estado de prontidão.

Estas são as situações que conheço, as que desconheço deverão ser muito mais, mas a pergunta, fica, se se praticam estas ações, quando se for “inventariar” ou verificar o espólio, que cada um dos militares utilizou durante o período de instrução, do cumprimento do serviço militar obrigatório e daqueles que participaram na Guerra Colonial, não haverá muita falta de material?

Termino com uma simples afirmação que provavelmente todos conhecem, quem é que quando cumpriu o serviço militar obrigatório, não trouxe uma bala sem ser utilizada, para se armar em valente perante os outros ou as namoradas.

Quantas munições desta natureza devem falar no “inventário militar”, é certo que é um pequeno exemplo, mas se compaginarmos estas de pequena natureza, com as que ocorreram, alguma coisa vai mal nas nossas forças armadas e se a isto lhe adicionarmos o que está a ser averiguado na messe da força aérea portuguesa, então o caso dá mesmo que pensar e verificarmos todos os procedimentos, antes de atribuirmos culpas ou sanções a alguém, sob pena de podermos estar a cometermos injustiças ou a criar um clima de suspeitas infundadas que no meio militar só vem causar instabilidade.

Henrique Pratas

 

 

 

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