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Questões Oportunas

Sair do euro: a ignorância e o medo terão resposta
24-02-2017 - Redacção

Primeiro, uma negociação destinada a acabar com o euro não será mais difícil do que as negociações que terminaram com guerras. Com a vantagem de que haverá uma enorme pressão do capital financeiro para que se tomem decisões cortando a direito. O capital financeiro tem horror à incerteza prolongada. Portanto, no dia em que a França, ou a Itália, telefonar para Berlim/Bruxelas/Frankfurt a dizer que vai sair, aquilo que se vai discutir nas horas seguintes é o formato e a duração das negociações. Vai ser rápido por pressão da finança.

Segundo, talvez com a excepção da Grécia, qualquer país de média dimensão que declare uma saída unilateral do euro, previamente preparada e irrevogável, vai gerar uma instabilidade financeira e política tão grande que a Alemanha preferirá acabar com a zona euro de forma organizada. Convém lembrar que o partido alemão AfD é contra o euro e tem crescido eleitoralmente.

Por outro lado, se Portugal decidisse sair do Euro, alargaria imenso as suas quotas de mercado na indústria do calçado (por exemplo) com a desvalorização do novo escudo. Os empresários espanhóis e italianos exerceriam uma enorme pressão sobre os respectivos governos para os seus países também saírem pois iriam falir. Recordam-se de, antes de haver euro, as desvalorizações do escudo e da peseta ocorrerem uma a seguir à outra?

Portanto, após o Brexit e a eleição de Trump, nada será como dantes. A acção determinada de sair do euro por parte de um país produzirá um efeito dominó. E os alemães têm consciência disso, como se vê nas entrelinhas das declarações de altos responsáveis.

Assim, o autor do artigo tece considerações irrealistas para um país que quer sair, como se tudo o mais ficasse igual ao que era até aí. Típico de economista convencional que trabalha com modelos que não incorporam a dinâmica da economia política.

Quanto às consequências da saída, o autor faz de conta que os salários só compram bens importados e constituem a totalidade dos custos da produção. Convém-lhe raciocinar assim para sugerir implicitamente que uma desvalorização do novo escudo em 30% produzirá uma quebra de poder de compra das famílias em idêntica proporção. O que é falso. Com um cabaz de bens de consumo contendo 25% de bens importados, a redução do poder de compra dos salários durante algum tempo será de 7,5% (30% x 25%). E isto será apenas por uma vez (a desvalorização não se repete todos os anos!!), acompanhado de compensações decididas pelo governo para os salários mais baixos e para as pensões.

Dada a baixa taxa de ocupação da capacidade produtiva, e a natureza pontual do choque nos preços, não haverá espiral inflacionista como aconteceu nos choques petrolíferos dos anos 70 do século passado. E, como é evidente, haverá enormes ganhos de competitividade-preço com aumentos salariais da ordem dos 7,5 ou 10%, sendo o salário apenas 1/3 dos custos, e o preço tiver descido entre 20 e 30%. São desonestos os economistas que negam a eficácia das desvalorizações a curto e médio prazo. E importa perceber que, com o fim do euro, a especulação com o dólar levaria rapidamente à convocação de uma conferência internacional para encontrar novas formas de controlo dos movimentos de captais e de estabilização monetária.

Também concordo com a necessidade de um discurso realista na defesa da saída do euro. Mas para isso não precisamos de inventar custos improváveis. Por exemplo, o desemprego pode baixar muito se o novo governo tiver preparado um programa descentralizado para actividades socialmente úteis lançadas com as Comissões de Coordenação Regional, as câmaras municipais e as agências de desenvolvimento local (ver caso da Argentina).

Importa lembrar que tudo isto pode ser financiado pelo Banco de Portugal que se torna o financiador do Estado. Fora do euro, os critérios de emissão monetária passarão a ser conduzidos de acordo com uma lógica keynesiana e não segundo o monetarismo que enterrou a Europa na deflação e a encaminha para os novos fascistas.

Jorge Bateira

 

 

 

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