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Questões Oportunas

Gaza, o inferno na Terra
25-07-2025 - Teresa de Sousa

Despeço-me para férias desta newsletter com um dos temas mais trágicos da vida internacional. Refiro-me, como calcula, a Gaza, onde decorre uma tragédia humana de dimensões catastróficas, que deixou de ter qualquer justificação.

A questão que se põe hoje é a mesma que se colocava há já algum tempo: quem consegue travar Benjamin Netanyahu? Sabemos a resposta. As instituições internacionais perdem todos os dias a sua influência, divididas e bloqueadas ao mais alto nível, no seu Conselho de Segurança, entre os Estados Unidos e as potências europeias de um lado, e a China e a Rússia do outro. Aliás, vivemos a situação inimaginável de assistir a uma deriva errática da política externa americana, que nos deixa sem saber onde está.

A União Europeia, paralisada pelas suas divisões e impotente pela sua fraqueza, não consegue pressionar Telavive, que pura e simplesmente a ignora. Apenas os Estados Unidos estariam em condições de torcer o braço ao primeiro-ministro israelita. Donald Trump podia fazê-lo. Chegámos a pensar que o faria. Depois do ataque relâmpago na madrugada de 22 de Junho contra as centrais nucleares iranianas, admitiu-se que o Presidente americano iria forçar o Governo israelita a um cessar-fogo. Isso não aconteceu. Só os Estados Unidos dispõem de instrumentos capazes de convencer Telavive. As Forças de Defesa de Israel são poderosas, mas não dispensam o fornecimento de armamento americano, que se salda, em situações normais, em mais de quatro mil milhões de dólares por ano. Depois do massacre do 7 de Outubro, com a guerra em Gaza, chegou a atingir os 14 mil milhões.

Os Estados Unidos assumiram a responsabilidade de defender Israel desde a sua fundação. Foram importantes, por vezes decisivos, nas sucessivas guerras que Israel teve de travar para garantir a sua existência num ambiente regional ameaçador. Em 1967 e em 1973. Nem Joe Biden, nem, muito menos, Donald Trump conseguiram – ou quiseram – travar Netanyahu, quando até o seu anterior ministro da Defesa, Yoav Gallant, disse que a guerra contra o Hamas tinha atingido os objectivos.

Netanyahu não quer a paz
Em Maio do ano passado, Joe Biden apresentou a Telavive um plano de paz em três fases, que o Governo israelita rejeitou. Trump voltou a pegar nele, como se fosse seu, e Netanyahu pareceu aceitá-lo, para o violar semanas depois, quando ainda decorria a primeira fase, de cessar-fogo e de troca de alguns reféns.

Israel eliminou, sucessivamente, as milícias armadas ao serviço do Irão, antes de lançar a "guerra dos 12 dias" contra Teerão, para cumprir o seu objectivo estratégico essencial: eliminar o programa nuclear iraniano. Os Governos de Netanyahu nunca aceitaram o acordo nuclear negociado por Obama com o Irão, em 2015. Donald Trump abandonou-o em 2018. O regime teocrata sentiu-se livre para retomar o enriquecimento de urânio até ao nível necessário para fabricar ogivas nucleares. Trump quer agora renegociar com Teerão um acordo mais restritivo. Netanyahu não quer.

Mas o Presidente americano não parece disponível para forçar a mão ao seu amigo e aliado de Telavive. Nem se espera que o trate como parece que está disposto a tratar Vladimir Putin.

Passaram quase dois anos
Gaza é um monte de escombros. Perderam-se dezenas de milhares de vidas. Não há uma única razão para continuar a carnificina. Genocídio? Limpeza étnica? A discussão jurídica sobre a designação rigorosa deixou de ter importância. É uma tragédia humana indesculpável para as democracias. É um terrível sinal dos tempos que vivemos.

Os últimos dias foram demasiado trágicos. Morreram crianças de fome. Morreram centenas de palestinianos que corriam, desesperados, para os postos de abastecimento de água e alimentos. Os soldados israelitas dispararam cegamente contra eles, alegando uma ameaça. Foram para Gaza para combater um grupo terrorista implacável. Não foram para pôr ordem em multidões desesperadas.

Em Telavive, o Governo de Israel parece indiferente a tudo. Lançou um novo ataque terrestre contra uma zona central do pequeno território ainda relativamente preservada. Quer concentrar e encurralar 600 mil palestinianos em campos de refugiados, antes provavelmente de os "convidar" a abandonar a Palestina. Donald Trump disse em Washington que estão a ser estudadas possíveis localizações. Desde que recebeu Netanyahu na Casa Branca, a 8 de Julho, tem-se remetido a um relativo silêncio. A Casa Branca vai dando conta da "frustração" do Presidente.

Fracasso europeu
Ontem, foi tornada pública uma carta assinada pelos chefes da diplomacia de 28 países, 20 dos quais membros da União Europeia, e pela comissária europeia responsável pela ajuda humanitária, condenando Israel "pela escassez da ajuda e pela morte desumana de civis, incluindo crianças".

As palavras são duras. "É terrível que cerca de 800 palestinianos tenham sido mortos enquanto procuravam as suas necessidades mais básicas de água e de comida". "O modelo de distribuição de ajuda adoptado pelo Governo de Israel é perigoso, alimenta instabilidade e priva os habitantes de Gaza de dignidades humana. A recusa do Governo de Israel de assistência humanitária essencial à população civil é inaceitável. Israel deve cumprir as suas obrigações ao abrigo da lei internacional humanitária." Exigem o fim imediato dos combates.

O chefe da diplomacia alemã, que não assinou a carta, escreveu na rede social X que fez saber a Telavive "a sua profunda preocupação com a situação de catástrofe humanitária e instou Israel a implementar urgentemente os acordos com a União Europeia para facilitar a ajuda humanitária." Não é preciso recordar as razões da dificuldade alemã. Toda a gente as conhece. Juntaram-se aos 20 países da União o Reino Unido, Suíça, Noruega, Islândia, Japão, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Portugal é um dos subscritores. Os Estados Unidos, tal como a Alemanha, não assinaram. A falta de unidade europeia ficou patente com a ausência da assinatura da chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.

A resposta de Israel não desmereceu do seu comportamento: os soldados da IDF reagiram ao que viram como uma ameaça e o número de vítimas não coincide com o que foi referido na carta conjunta. Acusa o Hamas de estar a provocar estes "incidentes". Acusa as democracias subscritoras de fazerem o jogo do Hamas, quando estão a decorrer negociações entre as duas partes no Qatar.

O Hamas, como sabemos, utiliza os palestinianos como escudos humanos sem um pingo de dó. Se pudesse roubar-lhes os alimentos, fá-lo-ia. Um palestiniano mártir vale mais do que um palestiniano vivo. É um movimento assassino, impiedoso e o responsável pela guerra desencadeada contra Gaza, depois do massacre do 7 de Outubro. Mantém ainda 50 reféns, vivos ou mortos. É capaz das maiores atrocidades. Está a aproveitar a fome e o desespero como armas. É uma organização terroristas cujo objectivo é esse mesmo: espalhar o terror contra o maior número possível, indiferente a quem é vítima. E, no entanto, o primeiro-ministro israelita estava disposto a falar com ele, antes do massacre, para minar a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia. É o primeiro responsável por uma falha de segurança inadmissível.

Israel gaba-se de ser a única democracia na região. Este Governo age com um poder desumano e criminoso. A sua existência não está em causa. A sua força protege-o. Destruiu as ameaças mais perigosas à sua segurança. Eliminar o inimigo não pode querer dizer eliminar uma população inteira.

Quem consegue travar Netanyahu?
Volto à questão inicial. Quem consegue travar Netanyahu? Internamente, apesar das denúncias dos responsáveis pelos partidos da oposição, apesar das manifestações, que já foram maiores, contra o Governo e pela prioridade aos reféns – que o Governo nunca teve, como ficou provado –, algo terá mudado profundamente na sociedade israelita. Fruto do trauma profundo do 7 de Outubro, que foi o maior pogrom de judeus desde o Holocausto? Provavelmente.

Externamente, a maior tragédia é que ninguém se parece preocupar o suficiente com a vida dos palestinianos da Faixa de Gaza. Nem os países árabes vizinhos. Nem as democracias ocidentais, não ao ponto de as opiniões públicas forçarem os seus governos. Há talvez uma razão para isso: a extrema polarização que a guerra em Gaza provocou nas opiniões públicas ocidentais. Obrigando a escolher campos e alimentado dessa forma a radicalização em ambos os lados. Perdeu-se o sentido de humanidade comum. Não se perdeu na Ucrânia, talvez porque o que está em jogo na invasão igualmente mortífera da Rússia nos afecta directamente. Talvez porque pese ainda sobre a Europa a culpa pelo mal absoluto que foi o Holocausto. Talvez porque o mundo em que nos habituámos a viver está a perder, também ele, a sua humanidade.

Não sei.

A iniciativa diplomática dos 28 países é, apesar de tudo, um começo. Não há nela, talvez pela primeira vez, meias palavras. Para não ser apenas um dever de consciência, a União Europeia tem de passar das palavras aos actos. Como foi capaz de fazer na Bósnia, quando do massacre de Srebrenica, em Julho de 1995, passam agora 30 anos. Fazer o quê? Na Bósnia, uma Europa dividida e impotente viu-se obrigada a recorrer aos Estados Unidos para pôr fim à limpeza étnica dos bósnios muçulmanos. Donald Trump não é Bill Clinton.

Há uma lista de possibilidades que podem doer economicamente a Israel, sendo a União o seu principal parceiro comercial. Procurando, como na Ucrânia, uma coligação de vontades para pressionar Washington? Reconhecendo o Estado da Palestina? Participando numa força internacional que imponha a paz?

Termino com uma frase do historiador britânico Timothy Garton Ash, publicada a 9 de Junho, que diz tudo o que é preciso dizer. "O que se está a passar em Gaza é uma tragédia humanitária e existencial para o povo que lá vive. Um desastre moral e político para Israel, o resultado indirecto da barbárie europeia do passado e um fracasso europeu actual que deixa estragos".

Gaza é "o inferno na Terra", descreveu   o responsável da ONU para os refugiados na Palestina, citado pelo  Guardian.

Teresa de Sousa

Fonte: Publico.pt

 

 

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