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Haverá Sempre Alguém

06-03-2020 - Maria do Carmo Vieira

É natural que acompanhemos o desenvolvimento da situação relativa ao coronavírus (Covid-19) porque nos preocupam os seus efeitos que simultaneamente nos fazem reflectir sobre o «bicho da terra tão pequeno» que todos somos, relembrando as sapientes palavras de Luís de Camões, nas duas últimas estrofes do Canto I de «Os Lusíadas».Preocupante é também a forma como muita comunicação social exerce o gosto doentio de suscitar o pânico e a confusão, somando-se as notícias em que disso nos damos conta. A mais recente, a de 29 de Fevereiro, em que ouvimos na Antena 1, logo de manhã cedo, ser noticiado o «cenário de 1 milhão de infectados na semana mais crítica do coronavírus, em Portugal», quando Graça Freitas, na sua entrevista concedida ao Expresso, de onde tinha sido retirada a notícia, salientava que esse «seria o pior cenário» (o sublinhado é nosso). Esta e situações afins só servem os que espreitam avidamente todo o momento que possa servir para incendiar objectivos pouco cordatos, humana e politicamente falando, e que serão determinantes no surgimento de medos irracionais e de comportamentos intolerantes e racistas, pondo em causa a nossa humanidade.

É nestes momentos, cuja gravidade se prolonga no tempo, que tomamos consciência da nossa fragilidade, mas também da nossa grandeza enquanto imunes ao discurso dogmático de que «todos os estrangeiros são inimigos», o que mais não é que a tentativa de soltar uma «infecção latente», pestífera, que muitos guardam em si, fruto de contínuas frustrações não resolvidas. Felizmente que também nos repetimos em atitudes e sentimentos que nos unem enquanto seres humanos, fiéis à solidariedade e à compreensão, sejamos chineses, italianos, coreanos, iranianos, portugueses, gregos, franceses, num etc. de diversidade geográfica que forçosamente nos une por ser a única atitude inteligente e cordial. Nela não entra o aproveitamento político ou económico, mas apenas o desejo de entreajuda que se há-de sobrepor sempre, assim o queremos, ao discurso de aversão ao Outro. É que nós podemos, um dia, vir aocupar o lugar desse Outro ostracizado, em situação difícil ou desesperada, e, tal como ele, gostaríamos de ser ajudados e não apontados como indesejáveis ou perigosos.

Ontem, os populistas italianos (e claro que lembro o nome de Salvini) manifestavam a sua aversão aos chineses, o «vírus», a ameaça,numa manifesta sinofobia, mas hoje silenciam-se perante os italianos infectados, que nem foram à China, ou que regressando a outros países, onde agora vivem, são humanamente encaminhados, apoiados e tratados.Antes de serem estrangeiros são pessoas, e pessoas a necessitar de atenção e de cuidados especiais que naturalmente recebem. Faz parte de uma salutar convivência humana.

Em simultâneo, a xenofobia em relaçãoaos refugiados que agora se encontram numa situação ainda mais desesperante pelo facto de alguns governos invocarem a impossibilidade da sua entrada, quando, justificam, decidiram travar a entrada a cidadãos vindos de países «contaminados» com o Covid-19.

Um dia, poderemos ser nós os refugiados ou os infectados, incluindo os diferentes populistas do mundo, estes últimos, escravos de um orgulho estupidamente nacionalista, aliado a uma superlativa fanfarronice que os impede de reflectir um pouco sobre a sua postura alienada. Todos nós, sem excepção, nessas situações, gostaríamos seguramente de ser bem recebidos, em lugar de ser «deportados» por doença (Rússia) ou de deparar com muros ou gaz lacrimogéneo ou discursos gritados e gesticulados, nas redes sociais, com destaque para o Twitter, no uso de um vocabulário paupérrimo, de cariz insultuoso, e repetitivo na sua agressividade.

Acompanhar-me-á, pela força interior que irradia, a imagem comovente e portentosa que vi no jornal Público (27.2.2020 - «Ilhas gregas revoltam-se contra campos fechados para refugiados») de uma mulher de costas que, só, e de pé, mãos nas ancas, desafia um batalhão de polícias gregos de intervenção, obedientes na distribuição de bastonada e de gás lacrimogéneo aos gregos, seus concidadãos, que protestavam contra a selvática decisão governamental (Nova Democracia) de construir campos de refugiados fechados.

Na verdade, haverá sempre alguém que repudie sem medo todo o discurso de ódio (ditado pela cobardia) em relação ao Outro; alguém que pela força da sua coragem se torna plural. Faz parte da natureza humana!

Maria do Carmo Vieira

 

 

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