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Uma Reflexão sobre as Eleições

27-09-2019 - Maria do Carmo Vieira

Receio as maiorias absolutas, de Esquerda ou de Direita,pela prepotência que as caracteriza, bem manifesta no habitual desrespeito por ideias divergentes, com realce para situações polémicas sejam elas de cariz social, ambiental, educativo, cultural, entre muitas outras. Sempre nocivas, precisamente porque interpretam, como inimigas, formas diferentes de pensar determinados assuntos, nunca propiciando, antes silenciando ou ridicularizando, o saudável debate que implica qualquer tema polémico ou novo.Assim, nas próximas eleições que se aproximam, não desejo uma maioria absoluta porque fui apoiante, confesso-o, e desde o primeiro momento, da forma de diálogo encontrada e que caracterizou esta legislatura, crendo que ela foideterminante não só no recuo e correcção de algumas propostas, incidindo sobre matérias várias, de âmbito social, ambiental, laboral,…, mas também na reflexão sobre temas novos, nomeadamente o da protecção dos animais, situações que seguramente não aconteceriam se existisse uma maioria absoluta.

Sendo a democracia um ideal, haverá sempre que lutar para que se cumpra, para que se aperfeiçoe, o que, a meu ver, poderá implicar, algumas vezes, a desobediência à disciplina partidária ou à estratégia governativa que apoiamos, em nome da nossa consciência e da nossa liberdade de pensar e de intervir criticamente. Aliás, todos nós, cidadãos, ouvimos o apelo a que participemos, a que intervenhamos criativamente, no sentido de ajudar a responder às nossas aspirações, pondo assim em prática a democracia, mas todos nós, cidadãos, temos também experiências, e várias, reveladoras da hipocrisia e do vazio que, na maioria das vezes, significa esse convite.

Os exemplos somam-se, da implementação do Acordo Ortográfico de 1990, abundantemente argumentado nas suas incoerências e nos seus absurdos científicos(e, sublinhe-se, até pelos próprios mentores do Acordo), ao furo de Aljezur, na prospecção e exploração poluidora do petróleo, contra a vontade de presidentes de câmara, de residentes e de organizações não governamentais, uma acção que os cidadãos, pela sua resistência, ganharam, pondo a nu o absurdo da decisão denão se fazerem estudos de impacto ambiental, passando ainda pela localização do aeroporto do Montijo, acompanhado por um estudo que carece de isenção e ao arrepio dos pareceres contrários de todas as organizações ambientalistas. Em comum, e subentendida, a já conhecida frase do então primeiro-ministro, Cavaco Silva: «Deixem-nos trabalhar!» ou a indiferença total por pareceres contrários às decisões tomadas ou ainda a habitual estratégia do facto consumado, ardilosamente escondida no convite a que nos pronunciemos sobre determinada matéria quando tudo está já decidido. Não esqueço o comportamento inadmissível do Ministério da Educação, num flagrante desrespeito pela função dos professores,aquando do envio dos novos programas, decorrentes da famigerada Reforma de 2003, cuja «nota explicativa» sublinhava que «as críticas não podiam colidir com as metodologias apresentadas». Entre 2003 e 2019 não há grande diferença porquanto se mantém essa profunda falta de respeito pelo acto de pensar e pelo desejo de intervir.

Formas autoritárias de actuar que condenam quem ouse reagir à estupidez, à incoerência, ao absurdo, e por vezes, à negociata explícita que vislumbramos por detrás de algumas decisões políticas. Decisões que não admitem interrogações, perguntas ou dúvidas consistentemente expressas. Cabe-nos não esquecer a relevância do nosso papel na sociedade, enquanto cidadãos que não querem, e sublinho o verbo pela sua força crítica,«que outros remedeiem o mal e ponham fim aos [nossos] lamentos» (Henry Thoreau (1817-1862), in Desobediência Civil).

Maria do Carmo Vieira

 

 

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