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O “Cangaço” uma antiga realidade de terras da Vera Cruz

21-06-2024 - Francisco Pereira

Hoje, resolvi trazer-vos algo diferente, hoje quero falar-vos de eventos históricos, nomeadamente de um fenómeno de banditismo do Brasil conhecido como “Cangaço”, nós em Portugal, estamos familiarizados com o termo “cangaceiro” sempre associado ao banditismo e ao latrocínio, mercê da nossa exposição de quase 5 décadas às telenovelas oriundas do Brasil. Apesar dessa inicial apresentação romanceada o “Cangaço” é um processo social bem mais complexo e interessante do que aquilo que nos foi sendo dado através dessas produções televisivas.

O “Cangaço” é um fenómeno de banditismo brasileiro, existindo relatos, desde o século XVIII, sobre a existência de grupos cangaceiros que deambulavam pelos sertões nordestinos, no entanto é a partir da década de 70 do século XIX que as actividades cangaceiras começaram a ganhar destaque na imprensa nacional brasileira, com ainda maior destaque e fama nas décadas de 20 e 30 do século XX, com a figura maior do cangaço, que foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, líder popular do cangaço e que durante quase 20 anos, assombrou o grande sertão nordestino, essencialmente sendo responsável directa e ou inderectamente por diversos crimes, alguns deles denotando extrema violência e até mesmo um inusitado grau de selvajaria.

É para essas duas últimas décadas, já no século XX, desse fenómeno de banditismo, que mais pretendo alertar a vossa atenção. O “Cangaço” é um processo social fascinante, cuja classificação é ainda disputada nos meios académicos brasileiros, onde como noutros país, Portugal incluído, os revisionismos, decorrentes de agendas políticas, quer de Esquerda quer de Direita se tentam apropriar de determinados eventos, datas, momentos e ou personagens históricos, para criar mitos identitários que se propõem reviver passados gloriosos e ou lutas sociais, as mais das vezes falseando a verdade histórica, felizmente nada destas lutas “sujas” é objecto deste meu artigo de hoje, pretendo tão somente despertar-vos para esse fenómeno histórico complexo que foi o Cangaço, as conclusões caberão a cada um de vós.

Pessoalmente, é minha convicção que o Cangaço, se enquadra num quadro de banditismo, que ao longo dos tempos foi sempre propiciado pelas condições sociais e ou políticas, onde, partindo da realidade o reconto vai trazer a mitificação de muitas dessas personagens, em Portugal são exemplos dessa minha convicção, fenómenos de banditismo, de onde emergiram personagens complexas como sejam João Brandão 1, Zé do Telhado 2 ou o famoso Remexido 3, tal como Lampião, todos eles foram mais temidos do que estimados, mas ao contrário de Lampião nenhum deles tinha o beneplácito das elites terra-tenentes, todos os três exemplos portugueses emergem no contexto da Guerra Civil 1832-1834, apesar dos fenómenos dos quadrilheiros e dos bandos de ladrões que assolavam as províncias de Portugal remontarem ainda ao tempo das invasões francesas de 1808 e claro ainda a tempos mais remotos.

Tal como Lampião, Zé do Telhado era visto como uma espécie de “Robin dos Bosques” outro exemplo de banditismo social mitificado 4, tal como terá sido o caso de Lampião e dos seus cangaceiros.

Virgulino Lampião bem como os restantes bandos cangaceiros, possuíam um profundo conhecimento do meio ambiente em que se movimentavam, conheciam a caça para se alimentar em caso de necessidade, conheciam as plantas medicinais para ajudar a tratar eventuais doenças e ou ferimentos, estes últimos sustentados nos duros e violentos combates travados com as forças policiais, as famosas “Volantes” 5, o sentido de orientação e a memória visual eram essenciais para o cangaceiro viver o seu quotidiano. As forças policiais que combatiam os cangaceiros, mais os homens que as chefiam e compunham, são por si só um outro objecto de estudo interessante ligado ao fenómeno do “Cangaço”, os combates eram ferozes, sem quartel de uma parte bem com da outra o grau de selvajaria impressionava, com as decapitações de cangaceiros a serem frequentes por serem as cabeças decepadas utilizadas para confirmar a efectiva morte dos cangaceiros.

Hoje felizmente, já muito se sabe sobre esse fenómeno social chamado “Cangaço”, existe uma muito interessante dimensão cultural que roda à volta dessa realidade antiga, existem canais de Youtube, um dos que vejo e creio mais interessante é o de Aderbal Nogueira 6, com material de imensa qualidade historiográfica e memorialista, inclusivamente entrevistas com antigos cangaceiros e com antigos policias, pessoas que viveram na pele os dramáticos eventos do cangaço das décadas de 20 e 30 do século passado, espero então, com este pequeno apontamento ter aguçado o vosso interesse pelo tema, que merece bem a vossa visita.

Francisco Pereira

Referências

1 https://correiodabeiraserra.sapo.pt/joao-brandao-um-vilao-que-aterrorizou-as-beiras-autor-luis-filipe-torgal/

2 https://museuvirtual.trp.pt/pt/processos-emblematicos/jose-do-telhado

3 https://remechido.jimdofree.com/

4 https://www.researchgate.net/publication/237429751_Eric_J_Hobsbawm%2527s_Social_Bandit_A_Critique_and_Revision&ved=

2ahUKEwisnMzE5uKGAxWHlP0HHanbBKIQFnoECA4QAQ&usg=AOvVaw0pl8s7N5sqEXU1KN0iK2TB

5 https://jornaldaparaiba.com.br/cultura/nos-tempos-das-volantes

6 https://www.youtube.com/@CangacoAderbalNogueira

 

 

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