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Notícias e Opinião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

A Curiosidade e o Saber

17-02-2023 - Maria do Carmo Vieira

Sabe-se mais agora, num dia, pelos portugueses, do que se sabia em cem anos pelos romãos. […] Não me ponhais medo com Discórides nem Galeno, porque não hei-de dizer senão a verdade e o que sei.

Garcia de Orta (1501-1568), Colóquio nº 9

O Mistério morreu na vida: quem vai explorar a África ou […] o Pólo não leva em si o pavor do que virá a encontrar, porque sabe que só encontrará cousas cientificamente conhecidas ou cientificamente cognoscíveis.

Fernando Pessoa (1888-1935)

 

 

 

 

 

 

 

 

As viagens marítimas dos portugueses, iniciadas no séc. XV, e a sua faceta aliada à diversidade de experiências humanas e ao Conhecimento, «desocultando o oculto», é matéria que nos prende porquanto nos evidencia a discussão entre um antes e um depois e a consequente euforia que contrastava com o conservadorismo, acentuado, neste caso, pelo olhar inquisitorial a partir de 1536. Olhar que não perdoou ao médico, botânico e humanista, Garcia de Orta, a sua ascendência judaica, bem como a sua curiosidade pela ciência e o gosto pela convivência com todos, independentemente da sua geografia, em prol do Saber. Foi, pois, Garcia de Orta condenado, postumamente, em Goa (1568) onde residia, e queimados posteriormente os seus ossos (1580) cuja exumação a Inquisição ordenara. O facto de não se conhecerem exemplares de «Os Colóquios dos Simples e Drogas e cousas Medicinais da Índia» leva a crer que eles terão sido igualmente queimados, à boa maneira censória. É de relevar o facto de a primeira impressão de «Os Colóquios», em 1563, se ter ficado a dever à intervenção de Luís de Camões que em Ode dedicada ao Conde de Redondo (vice-rei da Índia, D. Francisco Coutinho) lhe pede, elogiando Orta, a sua ajuda para a publicação que, no entanto, uma vez concretizada, não deixou de ser censurada pela Inquisição.

A Bíblia bem como os livros antigos, os clássicos, reconhecidos como autoridade orientadora do Conhecimento, tiveram de confrontar-se com o novo Saber resultante da vivência da viagem, o «saber de experiência feito», nas palavras de Luís de Camões, em «Os Lusíadas». Grosso modo, o «eu vi» veio substituir o «eu li», caracterizado este último pela especulação, pelo «conhecimento abstracto em que nada se sabe». E assim se abriram as portas ao conhecimento filosófico, à alteridade (Eu/nós e o Outro) e à ciência moderna e se tornaram os relatos de viagens, «os romances dos filósofos». Um género literário, os relatos, que se concretizou nos séculos XV e XVI através de Relações (descrições de viagens e de terras), de Crónicas, de Diários de Bordo e de Roteiros, sendo os séculos seguintes, XVII e XVIII, marcados essencialmente pelo género epistolar, as cartas, nelas sobressaindo expressivamente o facto de o viajante tentar saciar a curiosidade do leitor, e mesmo extasiá-lo com a novidade, empenhando-se igualmente em desenhar o que via, permitindo ao outro, que estava longe, olhar e apreender o que desconhecia.

O mundo aparecia então formado por três continentes: a Europa, descrita como «terra fria e setentrional», a Etiópia (África), «terra quente e meridiana» e a Ásia, «terra temperada»), acreditando-se ainda na existência de uma zona tórrida onde só viveriam os «míticos antípodas». A autoridade clássica difundia o sistema geocêntrico, de Aristóteles e de Ptolomeu, que seria em 1543 contrariado por Copérnico e a sua teoria heliocêntrica, considerada esta uma heresia porquanto despromovia o planeta, indo contra o saber de uma autoridade dogmática. A tantos séculos de distância, há quem ainda tente esvaziar o Conhecimento e o queira moldar a seu bel-prazer. Lembrar-se-á o leitor da tentativa de Bolsonaro, e da sua «igreja» apoiante, em restaurar o geocentrismo, em nome da autoridade que a si próprios se instituíram.

As alterações suscitadas pelas viagens marítimas dos portugueses, cuja coragem terá de ser forçosamente evidenciada quando em caravelas e naus se confrontaram com mares e oceanos por sulcar, puseram fim a medos, monstros e trevas (simbolizados por Luís de Camões, na sua epopeia, através do episódio d’ «O Gigante Adamastor»); preencheram novos mapas, corrigindo erros e modificando assim substancialmente a Cartografia e a Geografia, deixando «notadas e postadas [tão variadas terras] cada uma em seus lugares» (D. João de Castro, 1500-1548, in Roteiros) ; puseram em prática a matematização do real, no sentido do rigor e da exactidão; testemunharam novas culturas, avaliando-as, é certo, quase sempre de modo sobranceiro, e, quantas vezes, cruel, ciosos de um portentoso etnocentrismo civilizacional, eurocêntrico, que ditava uma vontade exacerbada de comparar: «[…] os Etiópios, quasi bestas em semelhança humana, alienados do culto divino […] (Duarte Pacheco Pereira, 1460-1533, in Esmeraldo de Situ Orbis); veicularam um número infinito de novas informações e conhecimentos, a verdade através da experiência, que enriqueceram diferentes matérias, entre as quais a Zoologia, a Botânica, a Astrologia, a Farmacopeia. E a este propósito valerá a pena relevar as palavras de um estudioso, matemático e cosmógrafo, também de ascendência judaica, Pedro Nunes (1502-1577), de quem D. João de Castro foi discípulo: «[…] manifesto é, que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar, mas partiam os nossos mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria, que são cousas de que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos.»

Caracterizando-se a viagem por uma partilha entre quem parte e quem fica , termino com uma belíssima e emocionada descrição botânica de André Donelha, numa das suas viagens por África: Há tantas árvores tão cheias de flores que cheiram, que é um contento, de mil feições e maneiras; grandes silvados cheios de flores. Eu colhi uma vara como da justiça, delgada, de comprimento de quinze palmos, toda cheia de flores como de laranjeira, brancas e amarelas, vermelhas e roxas, e cada meio palmo saía entre as flores uma folhinha verde como de oliveira, a qual levei para mostrar aos companheiros.» (in «Descrição da Serra leoa e dos rios de Guiné do cabo Verde, 1625).

Maria do Carmo Vieira

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2023

 

 

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