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OS VELHOS

02-10-2020 - Maria do Carmo Vieira

Por cada velho que morre, arde uma biblioteca.

Provérbio Árabe

Nauseiam espiritualmente, por demasiado repetidas, numa atitude negligente, as situações que implicam lares de idosos, frutoda complacência do poder político ou da sua pérfida solidariedade em relação a um colega de partido que falhou flagrantemente a sua função de servir os cidadãos, serviço que, aliás, se associa ao significado etimológico da palavra «política».

Não é de agora que tenho a ideia segura, resultado da experiência vivida, de que a maioria dos lares de idosos, muitos dos quais paradoxalmente ilegais, são um amontoado de velhos, física e psicologicamente maltratados, muitos dos quais nem sequer defendidos por familiares ou pelo próprio Estado, neste caso, especificamente pelo Ministério da Segurança Social a quem compete fazer cumprir as regras instituídas e zelar pelo bem-estar dos velhos que têm o azar, e é mesmo azar, de ser enxotados para um destes lugares. As situações de abandono, sobretudo em velhos acamados, o cheiro a urina ou ainda mais fétido que se faz sentir nos seus quartos partilhados, a visualização dos programas televisivos mais estúpidos, da manhã ou da tarde, das várias televisões, a que forçam os restantes, aglomerados numa sala, e em cuja grande maioria se pode observar o seu olhar vazio, triste e desviado do écran, são o espelho dos pomposamente designados «Lares de Repouso», e afins, que na verdade escondem a metáfora do apressar para a morte.

Se assim acontecia em tempo normal, não será difícil imaginar a tragédia que os velhos em instituição vivem em tempo de Covid. Vimo-la através de funcionários, esgotados, mas sem evidenciar qualquer compaixão pelas principais vítimas da situação,quandoderam conta às televisõesda sua impossibilidade de cuidar minimamente dos residentes, tendo eu retido um aparte que revelava «não terem no dia anterior mudado as fraldas aos utentes» do lar, presume-se que aos acamados.Soubemo-lo também através do número exorbitante de velhos contagiados que continuaram nos «lares», não sendo separados dos que ainda se encontravam sãos, e tendo acabado por ser hospitalizados tardiamente. Dias depois fariam parte do número dos que se encontravam em cuidados intensivos, alguns dos quais viriam a falecer.

Reguengos de Monsaraz, e muitos outros, nomeadamente os lares ilegais, foram um exemplo flagrante da negligência do Estado, e todos na altura nos surpreendemos, no caso de Reguengos, com o passar de culpas dos vários Serviços de uns para os outros (Direcção do lar, Administração Regional de Saúde, Segurança Social, Câmara Municipal, Direcção-Geral da Saúde) tendo em comum, estarem todos de boa consciência com o seu comportamento atempado, na mais impressionante falta de respeito pelas vítimas. Em casos semelhantes, instauram-se os habituais processos cuja demora na sua elaboração determinará o esquecimento, como também se arrastam anos e anos os processos de corrupção nos tribunais, numa estratégia conhecida e que o recente e inacreditável caso do Tribunal da Relação veioconfirmar.

Na sociedade globalizada em que vivemos, e na qual impera a miragem da eterna juventude, não se esconde que «os velhos» constituem um problema, deixando subentendido que a sua morte é bem-vinda. Basta lembrar a recente expressão de «geração grisalha», realçando o grande prejuízo económico que a vida cada vez mais prolongada dos velhosrepresenta. Não admira, pois, que na Europa, que se ufana dos seus valores humanistas, a tragédia nos «lares de repouso», e no que à Covid diz respeito, se repita em moldes idênticos. No entanto, nos discursos oficiais, seja em que país europeu for, as palavras continuam a mascarar umabondade temível porquanto falsa,e pura miragem para incautos.

Os velhos dos lares são os que não quiseram ou puderam «manter-se em movimento», como sói agora dizer-se, os que não souberam manter-se eternamente jovens, os que, amontoados e sem individualidade própria, esperam, prisioneiros, pela morte, longe do olhar interventivo de quem de direito.

A terminar, quero salientar que, para mim, a palavra «velho» guarda em si a dignidade clássica, estreitamente associada ao provérbio que serve de epígrafe ao texto. Não tem por isso o sentido pejorativo em que é normalmente usado. Dizer ainda que faço parte desse grupo e que me atormenta a ideia de um dia ser forçada a entrar num desses tristes e sinistros lares.

Este texto foi a forma que encontrei para manifestar a minha sentida solidariedade com os velhos, confinados, contra a sua vontade, em pretensos lares cuja negligência e crueldade, resultado do negócio que representam, aviltam etimologicamente a sua designação: do latim, lar, laris = «deuses protectores da casa e da família».

Maria do Carmo Vieira

 

 

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