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PANDEMIA

05-06-2020 - Maria do Carmo Vieira

O Coronavírus nos Estados Unidos é uma doença de pobres.

Rev. William Barber, co-presidente da ONG «PoorPeople’s Campaign

Neste Tempo assaz difícil, devido ao confinamento exigido por «um inimigo invisível», cheguei a pensar, como os que apelidaram este novo coronavírus de «democrático», que eleefectivamente não escolhia classes sociais e que todos estariam sujeitos à sua nefasta acção. A este pensamento associei instintivamente a alegórica «Dança da morte» de Hans Holbein, o Jovem (1497-1543), nela evidenciando-se o corte indiscriminado da foice, na sua voragem da vida fosse ela qual fosse.Assim, funcionaria este novo vírus, matando a todos por igual.

Constatei depois, e porque os dados foram surgindo, que não era bem assime que, afinal, a discriminação entre pobres e ricos era um facto indesmentível, acentuada pela perda de trabalho e de rendimentos, com as consequências brutais que interferem na vida de todo o ser humano por elas atingido, com destaque para o gesto forçado e mais humanamente triste e revoltante que é o ter de pedir para comer. Por isso foi, a meu ver, tão degradante, no 25 de Abril, o espectáculo televisivo da entrega de refeições, a quem delas precisava,por Militares de Chefia e pelo próprio Presidente da República, uma situação ostensiva de estranha caridade que deveria envergonhar quem nela tomou parte. É a voluntários anónimos, e mesmo a militares destacados para esse fim, que damos valor e não ao espectáculo da pobreza e do sofrimento de tantas pessoas atingidas por este pesadelo. Uma entrega que não deveria ser filmada, fosse por que motivo fosse, porquanto atinge a dignidade e a privacidade de todo o ser humano, em situação de extrema necessidade.

Um facto indesmentível, e profundamente discriminatório, tornou-se o número de mortos por Covid-19 entre pobres, os mais atingidos, e ricos, naturalmente, os menos. Na verdade, quem sofre as consequências de não ter acesso à saúde, à habitação digna, a umaalimentação saudável, a regras de trabalho condigno e a uma informação séria é preferencialmente «vítima», em situação de pandemia. Os«escolhidos» são os mais pobres, aqueles que Vieira apelidou de «pão quotidiano dos grandes» (Sermão de Sto António aos Peixes, pregado em S. Luís do Maranhão, em 1654).

Não surpreende que o Observatório Covid-19 e a Prefeitura de São Paulo tenham recentemente apontado que se observava na população negra uma percentagem de óbitos superior em 62% à da comunidade branca.Trágica é igualmente a situação nos Estados Unidos, um país descrito pelo escritor, filósofo e activista dos direitos humanos, Harvard Cornel West, como «uma experiência social falida, um império decadente e incapaz de satisfazer as necessidades básicas da sua gente», situação que o seu Presidente teima orgulhosamente em manter, sendo profundamente racista e incapaz de compreender qualquer gesto de compaixão. Retrato flagrante de um boçal populista como tantos que grassam pelo mundo.Em Nova Iorque, o Estado mais problemático, em relação à pandemia, a proporção de vítimas mortais é quase três vezes maior entre os pobres, deles sobressaindo as comunidades afro-americana, hispânica elatina, sendo os condados de Bronx e de Brooklynlamentavelmente expressivos, nos dados referidos.Em Singapura, numa nova onda de contagiados, a maioria das ocorrências situava-senos bairros pobres onde vivem os emigrantes. Também em Inglaterra, é nas zonas mais desfavorecidas e entre as minorias étnicas que se registam o maior número de mortos. O Centro Nacional de Estatísticas inglês,na sua análise sobre o número de mortos registados entre 1 de Março e 17 de Abril p.p., verificou que « a taxa de mortalidade nas zonas mais desfavorecidas foi de 55,1 mortes por 100.000 pessoas», comparativamente a «25,3 mortes por cada 100.000 habitantes das zonas mais ricas». Situação semelhante em Espanha, região da Catalunha, em que a letalidade entre os pobres foi cinco vezes superior à observada nas classes mais ricas.

Desconhecemos, neste âmbito, os valores da letalidade em Portugal, mas temos vindo a constatar que um expressivo número de pessoas infectadas fica a dever--se a condições indignas de habitabilidade e de não acesso a cuidados de saúde, nomeadamente entre migrantes e emigrantes, favorecendo, como é natural, a contaminação e a propagação do novo vírus. Triste é observarmos a leveza com que instituições oficiais passam a culpa de umas para as outras, revelando nesse jogo inadmissível, povoado de desculpas esfarrapadas, as suas sucessivas e flagrantes falhas de actuação que põem em causa os objectivos que as deveriam nortear, bem como a sua responsabilidade profissional e ética.

Sem dúvida que as condições sócio-económicas, que influem negativamente na qualidade de vida das pessoas, tornam-se um factor superlativo em situações de pandemia, em que invariavelmente se constata serem os pobres e vulneráveis os mais atingidos pela foice da morte. E a este propósito deixo o link para um artigo assaz interessante,que nos convida forçosamente a reflectir sobre este tema, e que lion-line,no jornal espanhol Eldiario que a minha filha, a viver em Barcelona, em boa hora me enviou - https://www.eldiario.es/sociedad/coronavirus-gripe-1918-Spinney_0_1030997024.html

Maria do Carmo Vieira

 

 

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