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DEFINIÇÃO DE SUCESSO NA UCRÂNIA

24-05-2024 - Richard Haass

NOVA IORQUE – Há três meses, escrevi uma coluna intitulada: “ Irá a Ucrânia sobreviver? ”. A resposta (felizmente) para o próximo ano é “sim”, devido à vontade de lutar e de se sacrificar da Ucrânia e à retoma de uma ajuda militar substancial dos EUA.

Ao mesmo tempo, a Rússia lançou uma nova ofensiva no nordeste que ameaça Kharkiv (a segunda maior cidade da Ucrânia), está a preparar-se para uma guerra prolongada e reconstituiu em grande parte as suas forças. Isto levanta uma questão importante: Com a nova tranche de ajuda em mãos, o que é que a Ucrânia e os seus apoiantes no Ocidente devem procurar alcançar? O que é que constitui um êxito?

Há quem diga que a definição de sucesso deve ser a recuperação pela Ucrânia de todo o seu território perdido, para restabelecer as suas fronteiras de 1991. O Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, expressou a opinião de que 2025 poderá ser a altura certa para a Ucrânia voltar a montar uma contra-ofensiva contra as tropas russas.

Isso seria um erro grave. Não me interpretem mal, o restabelecimento de fronteiras legítimas e legais seria altamente desejável, demonstrando que a agressão não é aceitável. Mas a política externa tem de ser exequível, bem como desejável, e a Ucrânia simplesmente não está em posição de libertar a Crimeia e as suas regiões orientais através da força militar.

A matemática é incontornável. A Rússia tem demasiados soldados e uma economia de guerra capaz de produzir grandes quantidades de armas e munições. Apesar das sanções, a Rússia conseguiu aumentar a sua base militar-industrial e tem acesso a armas e munições produzidas no Irão e na Coreia do Norte, bem como a produtos e tecnologias fabricados na China que contribuem para o esforço de guerra do Kremlin.

Outro factor desfavorável a um esforço da Ucrânia para reconquistar as suas terras pela força é que as operações ofensivas tendem a exigir muito mais recursos humanos, equipamento e munições do que os esforços defensivos. Isto é especialmente verdade quando as forças de protecção tiveram a oportunidade de construir fortificações, como a Rússia fez em grande parte do território ucraniano que ocupa.

O resultado provável do regresso da Ucrânia à ofensiva seria uma enorme perda de soldados, algo que as forças armadas ucranianas, já de si com poucos efectivos, não podem permitir. O limitado equipamento militar e as munições a que a Ucrânia tem acesso esgotar-se-iam rapidamente, tornando mais difícil a defesa das áreas actualmente sob controlo da Ucrânia. Uma ofensiva ucraniana falhada também daria novos argumentos aos que, nas capitais ocidentais, são cépticos quanto à prestação de qualquer ajuda à Ucrânia, considerando-a um desperdício.

Que estratégia devem, então, a Ucrânia e os seus apoiantes seguir? Em primeiro lugar, a Ucrânia deveria privilegiar a defensiva, uma abordagem que lhe permitiria gerir os seus recursos limitados e frustrar a Rússia.

Em segundo lugar, devem ser dados à Ucrânia os meios (capacidades de ataque de longo alcance) e a liberdade de atacar as forças russas em qualquer parte da Ucrânia, bem como os navios de guerra russos no Mar Negro e alvos económicos dentro da própria Rússia. A Rússia tem de sentir os custos de uma guerra que iniciou e arrasta.

Em terceiro lugar, os apoiantes da Ucrânia têm de se comprometer a fornecer ajuda militar a longo prazo. O objectivo de tudo o que foi dito acima é mostrar ao presidente russo, Vladimir Putin, que o tempo não está do lado da Rússia e que ele não pode achar que irá aguentar mais tempo do que a Ucrânia.

A Ucrânia e os seus apoiantes devem fazer mais uma coisa: propor um acordo de cessar-fogo provisório ao longo das linhas existentes.

Putin, provavelmente, irá rejeitar tal proposta, mas se o fizer será menos difícil ganhar os debates nos Estados Unidos sobre a prestação de auxílio à Ucrânia, uma vez que exporá a Rússia como a parte responsável pela continuação da guerra. Poderá mesmo proporcionar um contexto em que a ajuda militar dos EUA à Ucrânia se mantenha, caso Donald Trump volte a assumir a presidência em Novembro.

Esta combinação de uma mudança para uma táctica defensiva, de ataques profundos, da continuação da ajuda militar ocidental e de um esforço diplomático que exponha a Rússia como o agressor que é, poderá, com o tempo, persuadir Putin a aceitar um cessar-fogo provisório. Ao abrigo desse acordo, nenhum dos países seria convidado a desistir das suas reivindicações a longo prazo.

A Ucrânia poderia continuar a procurar a devolução de todo o seu território; a Rússia poderia continuar a afirmar que a Ucrânia não tem o direito de existir como Estado soberano. Ambos os lados poderiam continuar a munir-se novamente de armas. As sanções poderiam manter-se em vigor. A Ucrânia poderia explorar ligações mais estreitas com a União Europeia e a NATO.

A Ucrânia resistiria, sem dúvida, a alguns elementos desta abordagem. Mas os EUA e os outros apoiantes da Ucrânia deveriam insistir nela. A Ucrânia não é mais nem é menos do que qualquer outro parceiro estratégico em termos de poder exigir apoio incondicional. Uma nova contra-ofensiva fracassaria e prejudicaria a capacidade de defesa da Ucrânia. O que a Ucrânia ganharia com um cessar-fogo provisório seria uma oportunidade para começar a reconstruir o país, uma vez que o dinheiro e o investimento não estarão disponíveis enquanto o país continuar a ser uma zona de guerra activa.

Um cessar-fogo provisório quase de certeza não conduzirá a nada que se assemelhe à paz, que terá provavelmente de esperar pela chegada de uma liderança russa que decida pôr fim ao estatuto de pária do país. Isso poderá não acontecer durante anos ou décadas. Entretanto, a Ucrânia estaria, todavia, muito melhor, em comparação se a guerra continuasse.

Tais acordos – não permanentes, menos do que uma paz formal – funcionaram bem noutros contextos, nomeadamente na Península da Coreia e em Chipre. Não representam soluções, mas são preferíveis às alternativas. E mesmo que a Rússia rejeite qualquer cessar-fogo, como pode muito bem vir a ser o caso, a Ucrânia ficaria melhor com uma estratégia militar e diplomática que protegesse o núcleo do país, preservasse a sua independência e mantivesse o apoio externo. Os amigos da Ucrânia deveriam ter isto em mente antes de definirem o sucesso de uma forma que prepare o país para o fracasso.

RICHARD HAASS

Richard Haass, presidente emérito do Conselho de Relações Exteriores e conselheiro sénior da Centerview Partners, actuou anteriormente como Director de Planeamento Político do Departamento de Estado dos EUA (2001-03) e foi enviado especial do presidente George W. Bush à Irlanda do Norte e Coordenador para o Futuro do Afeganistão. Ele é o autor The Bill of Obligations: The Ten Habits of Good Citizens (Penguin Press, 2023) e do boletim informativo semanal Substack Home & Away.

 

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