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Ovar. "Parece uma cadeia: ninguém entra, ninguém sai"

20-03-2020 - Paula Freitas Ferreira

A cidade não está deserta, há polícias nas ruas a dispersar as pessoas que ainda se juntam em esplanadas a beber café. Há quem esteja a ser obrigado a ir trabalhar e quem já só espere os sintomas, certo de que a doença irá chegar.

Há uma semana, Salvador Malheiro, presidente da Câmara Municipal de Ovar, deixou toda a cidade "em pânico", recorda Fernando Albuquerque. O antigo gestor de empresas, hoje reformado e a viver na cidade, conta como o autarca "pediu para que as pessoas ficassem em casa, e aos comerciantes que tentassem manter os negócios abertos", enquanto pressionava o governo para dar atenção ao que se passava na zona.

Ovar, depois de Felgueiras, tinha-se tornado uma cidade com vários focos de contágio de covid-19. Uma jovem da cidade, mas que estudava em Santa Maria da Feira, a poucos quilómetros, foi infetada e acabou por transmitir a doença ao pai e à mãe, que acabaram por contagiar colegas de trabalho e profissionais do centro de saúde. Em poucos dias, tudo se descontrolou.

Nesta terça-feira, quando o número de casos confirmados chegou aos 35, o governo declarou o estado de calamidade no município até ao dia 2 de abril. "Há transmissão ativa na comunidade", afirmou a ministra da Saúde, Marta Temido.

"De repente havia famílias inteiras infetadas", diz ao DN Fernando Albuquerque, que está em isolamento voluntário há vários dias. Apesar de não considerar que Ovar esteja muito pior, em termos de transmissão da doença, do que o resto do país, não deixa de considerar a atitude do presidente da autarquia uma forma de prevenir que a doença contagie ainda mais pessoas e muito rapidamente.

"Parece que estamos num filme"

"Apreensivo não estou, não tenho sintomas, tenho sorte porque a minha casa tem quintal e tenho falado com os meus familiares e amigos por videoconferência. Estamos bem", conta. Teme mais pelo filho, que foi pai recentemente. É Fernando e a mulher que têm tratado das compras para a jovem família, deixam tudo à porta, não convivem: "Parece que estamos num filme", diz o reformado.

"As pessoas estão a ter cuidado. Nos supermercados desinfetam o carrinho, entram poucas pessoas de cada vez. Estão todos a cumprir as medidas de higiene recomendadas", relata.

"Pode ligar-me para este telefone?", pede Artur Aguiar Álvaro, um ex-gestor, também já reformado, de 64 anos, e residente em Ovar. O telemóvel para o qual ligámos estava ocupado e Artur liga-nos do telefone fixo. A mulher, de 60 anos, e professora do 2.° ciclo numa escola da cidade, está ao telefone com a Linha SNS 24, uma vez que está com sintomas de covid-19. Só na sexta-feira deixou de ir à escola - o governo decidiu o encerramento das escolas apenas a partir desta segunda-feira.

"Está com mais de 38 de febre e com dores no corpo. Ainda não fez o teste nem sei se o vai fazer, só espero que não fiquemos os dois doentes ao mesmo tempo, para que um possa cuidar do outro", diz, com tranquilidade.

Tem comida e medicamentos para os próximos tempos e família perto de casa que já se disponibilizou para ir ajudar o casal. Consegue até reconhecer a cadeia de transmissão que terá infetado a mulher, provavelmente a ele mesmo: "A minha nora, médica no Porto, está infetada." Calma na voz, tem confiança em que as pessoas irão acatar as ordens das autoridades.

Família de Ovar "presa" no Alentejo

Marta Neto atende o telefone e está a conduzir em pleno Alentejo. É empresária e produtora de vinho, a sede da empresa é em Sousel, mas ela e a família - o marido e os dois filhos - vivem em Cortegaça, no concelho de Ovar. Viajaram para o Alentejo na sexta-feira, como habitual, sem suspeitarem de que na terça-feira o município iria ficar fechado ao exterior.

Na altura, o Alentejo era a única região sem casos confirmados da doença - nesta quarta-feira foram anunciados dois - e, para Marta Neto, o sítio ideal para ficar de quarentena.

"O nosso objetivo é fazermos uma quarentena de 15 dias, estamos sem sintomas por agora e se estiver tudo bem vamos tentar buscar o resto da família que ficou em Ovar, as pessoas mais velhas sobretudo", explica. A esperança é que possam voltar a reunir-se e que o vasto Alentejo lhes sirva de refúgio. Mas tal como não sabe se está infetada, Marta também não sabe se poderá ir e depois voltar de Ovar.

"Ninguém anda com um sinal na testa a dizer que está infetado, por isso devíamos andar todos de máscara", considera Manuel Porfírio, 43 anos e eletricista no concelho. Ao contrário de Fernando Albuquerque, Porfírio, como é conhecido na cidade, garante que apesar da polícia na rua - ainda que só a passar de carro - há quem não esteja a respeitar as ordens das autoridades.

"Vi várias famílias a beber café na esplanada, sem máscara, sem luvas, a porem toda a gente em risco. Por isso é que temos tantos casos...", critica.

"Um pedaço de pano ou de lençol chega para taparmos a boca"

Porque tem acesso a equipamento de proteção, Porfírio tem andado sempre de máscara e de luvas, seja para ir ao pão, às compras ou para ir tomar um café, porque ainda o faz - "mas muito rápido e não fico na conversa. Sempre de máscara e ficam todos a olhar para mim", descreve.

A dificuldade em encontrar máscaras não convence o eletricista: "Desenrasquem-se, um pedaço de pano ou de lençol chega para taparmos a boca e evitarmos mandar perdigotos para cima das outras pessoas. O vírus não tem asas, somos nós que o transmitimos com a nossa boca", diz.

Apesar das ordens para que todos fiquem em casa, eram nove da manhã quando ligou a um amigo para saber como estavam as coisas e descobriu que o tinham mandado ir trabalhar.

"As indústrias têm de estar fechadas, houve contágio nestas fábricas e por isso é que Ovar está como está, mas acho que há qualquer coisa na medida do governo [quando decretou o estado de calamidade] que as empresas aproveitaram para mandar as pessoas ir trabalhar", afirma Manuel Porfírio.

Para o mestre-de-obras Artur Soreira, de 55 anos, só nesta quarta-feira não foi dia de trabalho, nem para ele nem para as duas filhas, ambas com pouco mais de 20 anos, as duas empregadas em fábricas fora do concelho. É que hoje a cidade fechou para o exterior.

"Parece uma cadeia, ninguém entra, ninguém sai, mas tem de ser", reconhece.

Artur está a acompanhar pelas notícias a evolução da pandemia em Portugal, mas diz que só há pouco tempo começou a ter mais cuidado com a higiene das mãos. Assustam-no as mortes e tem a mulher aflita com medo que se acabe a comida no supermercado. Têm a horta, é o que lhes pode valer. Está a viver como nunca pensou viver.

"Não pensei que isto [o estado de calamidade] fosse tão apertado, mas acho bem, aqui está péssimo", diz o mestre-de-obras. Parece que agora a China encontrou uma vacina, não é"?, para logo acrescentar, sem esperar pela resposta, "já sei, só fica pronta lá para abril ou depois". Resta esperar e ficar em casa.

Fonte: DN.pt

 

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