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Redes sociais. Clearview AI arquiva milhares de milhões de fotografias de utilizadores

14-02-2020 - RTP

A Clearview AI, uma empresa que usa a tecnologia de reconhecimento facial, alega ter um banco de dados com mais de três mil milhões de fotografias retiradas de  sites e redes sociais. O CEO, Hoan Ton-That, afirma ter criado a empresa com "as melhores intenções" e que a tecnologia já foi usada para resolver crimes e "salvar crianças".

A empresa de tecnologia norte-americana Clearview AI tem sido alvo de uma grande discussão, devido ao enorme banco de dados que possui . A empresa garante ter retirado  mais de três mil milhões de fotografias da internet, incluindo plataformas como o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube.

Hoan Ton-That, um dos fundadores da empresa e atual CEO, afirmou, em entrevista à CNN Business que, mesmo depois de os utilizadores excluírem as fotografias ou tornarem as suas contas privadas, as suas fotografias permanecem no banco de dados.

A Clearview AI vende o seu banco de dados a agências policiais, para que se possa combinar rostos desconhecidos com outras imagens . O departamento da Polícia de Chicago está a pagar 50 mil dólares por uma licença de dois anos para usar a tecnologia, confirmou um porta-voz da polícia.

A tecnologia consegue encontrar fotografias e reconhecer o rosto de um indivíduo em qualquer sítio, onde ela esteja publicada. Desde redes sociais a pequenos  sites locais.

Ton-That explicou que o sistema de reconhecimento facial da Clearview AI consegue encontrar fotografias de utilizadores, mesmo que as suas contas sejam privadas  e, supostamente, apenas os seus seguidores tenham acesso a elas. Se uma conta, em algum momento foi pública, as fotografias estão na base de dados, garante o CEO da empresa.

Além da polícia de Chicago, Hoan Ton-That afirma que  existem mais de 600 agências policiais nos Estados Unidos e no Canadá a usar a ferramenta de reconhecimento facial. Contudo, o empresário não especificou quantos clientes estão a usar a ferramenta gratuitamente, como teste, e quantos estão a pagar pelo seu uso.

Para identificar suspeitos, o  software consulta a sua base de dados para verificar se existem correspondências, mostrando também os endereços das páginas de web onde se encontram as imagens do indivíduo. A tecnologia consegue identificar alguém, mesmo que a sua cara não seja completamente visível.

A empresa de tecnologia afirma que existem vários bancos a usar o software para procederem a investigações de fraude fiscal .

Ton-That garante que o Clearview tem 99 por cento de precisão e não gera erros de étnicos ou raciais – um problema que tem sido apontado a outras empresas fornecedoras do mesmo tipo de tecnologia.

Resolução de crimes

Apesar da polémica que envolve a empresa, várias agências policiais relatam casos em que, alegam, o uso da ferramenta foi crucial e eficaz.

A polícia de Nova Jérsia usou o Clearview para investigar uma rede de pedofilia. Através do uso da ferramenta, a polícia conseguiu identificar um homem, antes de ele aparecer, no que acreditava ser uma reunião com uma criança .

De acordo com o procurador-geral daquele Estado norte-americano, Gurbir Grewal, o Clearview ajudou a polícia a investigar os antecedentes do homem e determinar se era possível que estivesse armado, refere a CNN Business.

Embora considere que a ferramenta teve um papel muito importante na resolução do caso, Grewal suspendeu a sua utilização, depois de perceber como realmente funcionava  - Grewal afirmou ter ficado “perturbado” e considera que tal ferramenta só pode ser usada depois de uma revisão e de regulamentação.

“Eu fiquei bastante preocupado com o modo como a Clearview AI acumulou as informações no seu banco de dados. Estou preocupado com as medidas de privacidade de dados e segurança adotadas” , declarou o procurador-geral de Nova Jersey, citado pela CNN.

Desistência das plataformas

Depois de a empresa afirmar que colecionava as imagens das principais de redes sociais e de vários tipos de  sites diferentes plataformas desistiram do uso do Clearview, por considerarem que a recolha de fotografias e armazenamento das mesmas é “contra as políticas das principais redes sociais.

O Facebook, o Twitter e o YouTube estão entre as plataformas que desistiram do Clearview .

Ton-That afirma não estar preocupado com a desistência, uma vez que  essas empresas não têm controlo sobre o que acontece com os dados e fotografias, depois de eles serem colocados online.

“Garantir que alguém realmente cumpre a carta de cessação e desistência quando se trata de dados é essencialmente impossível” , refere Hoan Ton-That, citado pela CNN. O CEO afirma que as imagens podem ser copiadas repetidamente e armazenadas em vários computadores e servidores em diferentes locais do mundo.

Hoan Ton-That defende que a sua tecnologia e os seus métodos de coleção de dados fazem parte da tecnologia do século XXI .

O Twitter exigiu que a Clearview AI exclua todos os dados que colecionou do seu site e o YouTube declarou que os seus termos e políticas “proíbem explicitamente o armazenamento de dos que podem ser usados para identificar uma pessoa”.

Processos Judiciais

Os Estados norte-americanos do Illinois e da Virginia entraram com uma ação judicial contra a empresa e várias entidades pediram para que fosse criada uma legislação para que se controle este tipo de tecnologia.

Ton-That declara não estar muito preocupado com os processos judiciais, uma vez que tem confiança na sua tecnologia e garante que o seu uso deve ser visto como uma ajuda e não como um problema.

O CEO afirma que a sua empresa tem o direito de usar fotografias publicadas na internet, comparando o seu software com o motor de busca Google e de outros mecanismos de pesquisa existentes .

A aplicação não está disponível para o uso do público. Uma investigação do jornal norte-americano  The New York Times revelou que  a empresa está a desenvolver um protótipo de óculos de realidade aumentada, que vai usar o sistema de reconhecimento facial, criado para que se possa identificar instantaneamente um indivíduo.

O Clearview AI não é completamente novidade. Em 2018, documentos obtidos pela União das Liberdades Civis Norte-Americanas divulgaram que a Amazon estava a fornecer o seu sistema de reconhecimento facial à polícia dos Estados de Oregon e da Flórida.

 

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