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O eleitorado da Irlanda causou um terramoto político

14-02-2020 - NA

Neste artigo, Tommy Greene e Eoghan Gilmartin explicam as razões do sucesso eleitoral do Sinn Féin e apresentam os cenários prováveis. Num país com uma desigualdade social crescente e problemas de habitação amplos, o partido conseguiu apresentar propostas que falaram ao eleitorado jovem e aos trabalhadores.

Numas eleições legislativas antecipadas, convocadas pelo primeiro-ministro Leo Varadker em busca de capitalizar a forma como geriu as negociações do Brexit, o partido de esquerda Sinn Féin obteve ganhos enormes que suplantaram até as suas expectativas.

Depois de um ímpeto tardio de campanha ter impulsionado o partido para primeiro lugar em várias sondagens feitas a dias da votação, a contagem de hoje indica que o Sinn Féin alcançou mais de 24% do voto nacional – dois por cento acima de ambos os partidos de governo, Fine Gael and Fiánna Fail. Apesar da distribuição final de lugares só ficar clarificada amanhã – devido ao moroso processo de votação irlandês – o avanço do Sinn Féin não deixa de poder ser considerado já categórico. A vitória do partido marca a primeira vez que uma força de esquerda alcança o primeiro lugar na votação popular na história quase centenária do Estado.

O voto histórico do fim de semana marca não apenas uma quebra do domínio bipartidário dos partidos de direita, Fiánna Fail e Fine Gael, mas também uma mudança mais profunda na política irlandesa. Afastando-se do legado político  da guerra civil de 1921, este resultado regista claramente as exigências materiais de uma nova geração e reflete as profundas mudanças sociais, económicas e demográfica que o país experienciou nas passadas três décadas. Este amplo novo eleitorado fez-se ouvir de outras formas nos anos mais recentes, votando em grande quantidade para legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo em 2015 e outra vez em 2017 para descriminalizar o aborto. Nas últimas semanas o Sinn Féin articulou com clareza as principais preocupações materiais deste grupo, como parte de um desejo de mudança mais alargado, de uma forma a que não tínhamos assistido nas eleições de 2011 e de 2016.

O modelo fiscal da Irlanda de baixos impostos para as empresas mostrou um florescimento da finança e das indústrias tecnológicas. Ao mesmo tempo, contudo, também produziu um dos mais altos níveis de desigualdade de rendimentos disponíveis da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Para além destes setores, a recuperação de rendimentos desde o colapso financeiro tem sido lenta e ultrapassado de longe pelos custos habitacionais crescentes – Dublin tem agora as terceiras rendas mais altas da Europa, atrás de Paris e Genebra.

crise habitacional afastou a geração mais nova da possibilidade de ter as suas próprias casas e deixou mais de 10.000 pessoas sem-abrigo e dependentes de alojamento de emergência, incluindo 3.800 crianças.

Na sondagem à boca das urnas de sábado, 63 porcento dos inquiridos afirmava que não tinha beneficiado da recuperação económica dos anos recentes, enquanto 31 porcento dizia que queriam para o país uma mudança radical de direção. A campanha do Sinn Féin foi capaz de explorar este descontentamento em parte através de um discurso anti-sistema eficaz. A sua dirigente Lou McDonald descartou memoravelmente a diferença entre os dois rivais como sendo entre “o partido dos empreiteiros” e “o partido dos senhorios”.

Isto foi combinado com um programa radical o qual – da mesma forma como fez Corbyn em 2017 – ofereceu aos votantes mais jovens e da classe trabalhadora uma alternativa tangível ao neoliberalismo que se conseguia dirigir às suas exigências e preocupações materiais. O partido prometeu 100 mil novas casas públicas nos próximos quatro anos, um congelamento de rendas de três anos, a criação da um novo Sistema Nacional de Saúde irlandês assim como abolir a taxa fiscal regressiva de emergência introduzida na altura da crise que se seguiu ao colapso financeiro – conhecida como Encargo Social Universal – para rendimentos abaixo dos 30 mil.

Uma rotação geracional na sua direção também se somou à mensagem e plataforma política de sucesso do Sinn Féin. Com a reforma de Gerry Adams depois de 35 anos como líder partidário, foi mais capaz de se distanciar do legado do conflito armado na Irlanda do Norte quando actuou como a ala política do Exército Republicano Irlandês. Nos anos anteriores à sua reforma, Adams tinha sido alvo de um escrutínio maior acerca do seu envolvimento no rapto e assassinato da mãe solteira Jean McConville pelo IRA em Belfast em 1972.

McDonald e a sua bancada da frente não foram manchados pela bagagem do conflito da mesma forma, tendo entrado na política de primeira linha política depois do acordo de paz de Sexta-feira Santa de 1998.

Para além disto, ela e outras figuras cimeiras do partido, como o porta-voz para a Habitação, Eoin Ó Broin, provaram ser comunicadores eficazes. McDonald repetidamente superou Varadker e o líder do Fianna Fáil, Micheál Martin, nos debates televisivos, enquanto Ó Broin defendia de forma impressionante as propostas atrativas do partido para a Habitação noutras intervenções mediáticas.

Fundamentalmente, eles foram capazes de transmitir uma retórica de esquerda populista envolvente que ecoava nas comunidades trabalhadoras de colarinho azul mais tradicionais e nos eleitores republicanos irlandeses tanto quanto nos inseguros economicamente membros da geração do milénio.

O mandato do Sinn Féin’s nestas eleições é claro, mas o seu falhanço em ter mais candidatos significa que não vai conseguir ser o partido com mais deputados no parlamento irlandês – o partido subestimou o seu sucesso apresentado apenas 42 candidatos para um parlamento de 160 lugares.

Neste contexto, há apenas duas combinações de governo prováveis – ou alguma forma de acordo de governo entre os dois rivais do tempo da guerra civil de direita, Fiánna Fail e Fine Gael – que estiveram divididos historicamente sobre a questão da divisão da Irlanda – ou uma coligação Fiánna Fail/Sinn Féin coalition. Apesar de um emparelhamento improvável, os dois partidos pelos menos partilham algo em termos da sua base na classe trabalhadora.

McDonald disse hoje que o Sinn Féin iria tentar fazer bem neste mandato, insistindo que cinco anos mais de crise habitacional seria “inconcebível”. Mas, com o Fiánna Fail e o Fine Gael numa posição historicamente fraca – qualquer governo entre os dois improvavelmente durará mais do que um par de anos – dirigir a oposição em vez de apoiar o velho regime pode muito bem revelar-se a jogada estratégica mais astuta.

Outro fator que o Sinn Féin tem de pesar nos próximos dias é como as várias opções de governo se enquadrariam na sua estratégia de reunificação. A questão nacional esteve amplamente ausente destas eleições. Assim, o partido entrou em liça com os temas de avançar uma agenda social mais do que outra coisa qualquer. Contudo, McDonald já indicou uma certa flexibilidade na questão nacional que a distingue da liderança de Adams. Reentrar no parlamento – depois de ter desligado a ficha da assembleia há três anos – a seguir às perdas dolorosas nas eleições do Reino de dezembro também enfraquece o partido neste campo.

Apesar destas considerações, este resultado é enormemente significativo tanto para a evolução do Sinn Féin quanto para a da política irlandesa. Poderia reconfigurar e dar um novo sentido de direção à esquerda fragmentada do país para os próximos anos.

Tommy Greene e Eoghan Gilmartin são jornalistas freelancer.

Artigo publicado originalmente na Novara Media.

Tradução de Carlos Carujo.

 

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