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Brexit: Crónica de um adeus desconhecido

01-11-2019 - Germano Almeida*

Não, não está bem assim. A Europa precisa do Reino Unido e talvez ainda não tenhamos a verdadeira dimensão do que está a acontecer por estes dias. Os últimos três anos e meio foram uma espécie de “buraco negro” – ninguém fazia a mínima ideia em que ponto realmente estava o processo de saída da terceira maior economia europeia. Com eleições a 12 de dezembro e acordo global já aprovado em Westminster, tudo indica que até 31 de janeiro o divórcio vai mesmo concretizar-se. Os pormenores bizarros que animaram os longuíssimos passos da decisão política mais estúpida das últimas décadas terão muito pouca importância daqui a algum tempo: a Inglaterra vai mesmo embora e torna-se o primeiro país a abandonar o maior acordo alguma vez feito. Passaremos a entrar em território desconhecido.

“O Brexit é a maior idiotice alguma vez feita pelo Reino Unido. É a maior catástrofe em que os britânicos estiveram metidos desde a invasão do Suez. Para mim, é um desastre autoinfligido, pelo que não podemos culpar ninguém, nem os irlandeses, nem os europeus… Somos uma nação que sempre esteve integrada no coração da Europa. Podemos ter tido conflitos, mas somos europeus. A ideia de que podemos substituir o acesso ao maior tratado comercial do mundo pelo acesso ao mercado norte-americano é aterradora. A instabilidade que Donald Trump provoca como presidente, as suas decisões de egomaníaco… A sério que nos vamos colocar à mercê disso, em vez de continuarmos como membros ativos da EU? É uma loucura, é terrível e é perigoso. Eu não gosto politicamente do Brexit. Não acredito economicamente nele e não o entendo” - John Le Carré

Alguns avanços e muitos recuos, tantos deles com pormenores bizarros a tornarem todo este processo uma “ópera-bufa” em versão anglo-saxónica, pareciam fazer do Brexit uma espécie de embaraço permanente com momentos de divertimento.

Mas boa parte das confusões que marcaram a política britânica nos últimos três anos, e em particular nos últimos meses, pouco ou nada contarão se o essencial se tornar realidade.

E tudo indica que os “brexiteers” vão mesmo conseguir o essencial do que pretende: com acordo global de saída aprovado em Westminster e eleições marcadas para 12 de dezembro, Boris Johnson poderá ser o homem a “entregar” o Brexit ao eleitorado até 31 de janeiro, muito provavelmente legitimado nas urnas até lá, com uma vitória confortável do Partido Conservador nas eleições parlamentares (possivelmente até com maioria absoluta).

O Brexit é o produto de uma tempestade perfeita. Só acontecerá porque quem marcou um referendo sobre o tema tinha a ilusão de que a escolha do eleitorado seria exatamente a oposta (David Cameron).

Só se concretizará porque, já depois do referendo de junho de 2016, sempre se manteve na liderança do Partido Trabalhista alguém que nunca teve a capacidade política de se posicionar claramente contra a saída, por saber que uma boa parte do seu eleitorado se identifica com os argumentos do Leave (Jeremy Corbyn).

Pelo meio, houve quem colocasse o sentido de Estado como missão primacial, ainda que tenha estado do lado sensato do Remain quando do referendo, e fizesse tudo para que a saída se realizasse da forma mais digna e menos dolorosa possível (Theresa May).

E, do outro lado lado do Canal, até houve dois altos responsáveis (um político, Jean-Claude Juncker, e outro mais técnico, Michel Barnier), com uma paciência que parecia infinita para as contradições vindas de Velha Albion, sempre com o foco em encontrar soluções que evitassem o desastre (uma saída desordenada e selvagem) e garantissem um mínimo de racionalidade – desenhar acordo o mais amplo possível, para proteger os direitos dos cidadãos, salvar negócios e setores da Economia.

E, depois de meses de falhanços repetidos e adiamentos com forte sensação de “déjà vu”, apareceu um PM que tinha a vantagem de ter sido um dos culpados do disparate da saída – faria algum sentido ser ele a assumir as consequências de o concretizar (Boris Johnson).

Em processos como este, e mesmo com líderes fortemente emocionais e “humanos, demasiado humanos” como Juncker, chega-se a um ponto em que o coração não deve mesmo contar.

Que o Reino Unido tome a decisão de sair da Europa - apesar de perder imenso com isso e de com isso vir a provocar riscos desnecessários para vários países e milhões de pessoas - é algo que os britânicos devem assumir como nação livre, responsável e independente.

Consumado o erro, foi preciso despachar o assunto o melhor possível. Secar as lágrimas, refazer pontes de diálogo e esperar que, daqui a uns anos, haja condições para uma reaproximação forte e mutuamente proveitosa. Seja de que forma for.

Não será a 31 de outubro, mas isso já é mesmo só um detalhe: o Brexit confirma a tal Lei de Murphy que nos avisa que “quando algo muito mau pode acontecer, acaba mesmo por acontecer.

Preferir Trump ao melhor espaço alguma vez criado

Como bem gosta de recordar o ex-comissário Carlos Moedas, “a Europa tem um problema de comunicação. Devia saber comunicar melhor os seus imensos méritos. Conseguiu feitos notáveis nas últimas décadas, sobreviveu aos maiores desafios e ameaças nos últimos anos (crise das dívidas soberanas, crise do Euro, crise dos refugiados, agora o Brexit), e permanece forte e coesa, servindo os seus 500 milhões de cidadãos das mais diversas formas”.

É, em muitos aspetos, o melhor espaço humano alguma vez criado. Pelas oportunidades que dá aos seus cidadãos, pelos direitos mútuos que lhes confere, pelos apoios financeiros com os quais assiste os países e regiões menos favorecidas, com os subsídios que atribui para áreas cruciais e estratégicas.

O nosso grande problema com a Europa é que achamos que aquilo que nos dá nos pertence por direito e sobrevalorizamos os problemas que ainda não conseguiu resolver.

As imposições orçamentais são pasto para a retórica eleitoral de vários partidos a nível nacional, e em diferentes países, transformando a Europa num alvo fácil, uma espécie de “inimigo externo comum”.

“Eles lá em Bruxelas” tem sido, no discurso político nacional de vários Estados Membros, o equivalente à tirada populista usada na política americana de “eles lá em Washington”.

Exercício menos sexy politicamente, mas muito mais sério e útil, seria elencar ponto a ponto as coisas boas e as coisas más que a Europa nos dá.

Sair, por opção própria, do maior espaço comercial e económico para assumir como alternativa principal uma negociação de um grande acordo com os EUA de Donald Trump não parece jogada muito inteligente. Sobretudo, quando essa decisão é tomada com tantos “ses” e soluços.

Território desconhecido

Vivemos tempos sombrios em que os valores essenciais parecem estar invertidos.

Vemos o Presidente dos EUA a discursar na ONU num elogio perturbador aos egoísmos nacionalistas e desdenhando as vantagens do multilateralismo e das grandes organizações internacionais.

Vemos eleitorados de países ricos e prósperos a optarem por líderes que promovem a divisão e o fechamento, apesar da realidade nos mostrar que os grandes acordos e a abertura comercial gera efeitos benéficos para todos.

A Europa sem o Reino Unido ficará mais pobre. Economicamente, socialmente, tecnologicamente, intelectualmente.

A força de uma ideia desenvolve-se com a energia, a vontade e a capacidade de quem adere a ela. A Europa foi a melhor ideia que os povos souberam construir e concretizar no último século.

A opção que o Reino Unido se prepara para concretizar torna essa ideia mais fraca e menos sustentável a longo prazo. E isso é mais grave do que, nesta altura, estaremos a perceber.

Há crónicas de adeus anunciados. Esta, infelizmente, teve que ser a crónica de um adeus desconhecido.

Não dá mesmo para imaginar como será uma Europa sem Reino Unido e sob a ameaça de que mais países tenham a tentação de imitar o caminho britânico.

Não, não está bem assim.

* - Analista de Política Internacional

 

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