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Psicólogos recebem cada vez mais crianças com ansiedade provocada pelo clima

04-10-2019 - Joana Capucho

Não há estatísticas sobre a prevalência da ecoansiedade, mas vários especialistas internacionais referem um aumento dos problemas psicológicos relacionados com as alterações.

Quem sofre de ecoansiedade sente-se profundamente afetado pelo medo e pela frustração: sente que é demasiado tarde para salvar o planeta; sofre porque pensa que não está a fazer o suficiente para travar os efeitos das alterações climáticas; teme o fim do mundo. À medida que aumentam as manchetes sobre as mudanças climáticas, crescem os casos da chamada ecoansiedade entre crianças e adolescentes. Um fenómeno que levou os psicólogos britânicos a emitir um alerta, que é reforçado ao DN pelos especialistas do nosso país, onde também já foram identificados casos de ansiedade provocada pela preocupação com o ambiente.

Não é um diagnóstico clínico, nem pode ser considerado um transtorno mental, mas é uma preocupação que não deve ser desvalorizada pelos adultos. Quem o diz é Caroline Hickman, professora na Universidade de Bath (Reino Unido) e membro da Climate Psychology Alliance (CPA): "Não há dúvida de que elas [as crianças] estão a ser afetadas emocionalmente. Este medo real das crianças precisa de ser levado a sério pelos adultos."

Em declarações ao The Daily Telegraph, este organismo revela que há inclusive crianças a ser tratadas com medicamentos psiquiátricos para a ecoansiedade. "Muitos pais estão a vir à terapia para pedir ajuda com as crianças e isto aumentou muito no verão", adianta Caroline, destacando que os sintomas e os sentimentos são os mesmos da ansiedade clínica, mas a causa é diferente.

Já em 2017, a Associação Americana de Psicologia publicou um relatório sobre os impactos da crise climática na saúde mental, no qual falava da ecoansiedade, que é vista como o medo exacerbado de um desastre ambiental. Fenómenos como a perda de biodiversidade, os eventos climáticos extremos ou a desflorestação da Amazónia preocupam todas as faixas etárias, mas os mais jovens são mais vulneráveis.

"É algo com que efetivamente já me deparei em consultório. Tenho mais do que uma situação destas", diz ao DN Inês Afonso Marques, coordenadora da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia. Refere-se a "adolescentes em grande sofrimento, porque sentem que não estão a fazer tudo o que está ao seu alcance, quer do ponto de vista individual quer na lógica de sensibilização dos outros, para travar os efeitos das alterações climáticas e proteger o planeta". Vivem "com um grande sentimento de culpa e impotência".

Segundo a psicóloga, pode não ser esse o motivo da consulta, pois "muitas vezes na base estão outros temas de ansiedade, mas é uma preocupação real e que está presente". Quando há alguma vulnerabilidade para a ansiedade, explica, estas preocupações podem exacerbar os sintomas, que são muito semelhantes à ansiedade clínica. Podem ter ataques de ansiedade, problemas de sono, sentimentos de impotência, medo, pânico.

Contactada pelo DN, a pediatra Paula Vara Luiz conta que segue dois adolescentes que "vivem em pânico com as alterações climáticas e o possível fim do mundo". No entanto, frisa, trata-se de uma condição associada às patologias que têm: "Um deles, de 13 anos, sofre de Síndrome de Asperger e o outro, de 15, tem um quadro obsessivo-compulsivo por higiene e saúde."

Da influência dos pais à da televisão

Inês Afonso Marques explica que nos mais novos existe uma grande "influência do discurso dos pais, do tipo de linguagem usada e da maneira como vivem este temas", mas à medida que crescem "há uma maior consciência, um maior alerta para o que veem na comunicação social e o que é falado entre os pares". E o tema está na ordem do dia, com as greves climáticas a mobilizar milhares de estudantes em todo o mundo, impulsionados por Greta Thunberg, ativista sueca, de 16 anos, que na Cimeira da Ação Climática da ONU acusou os governantes mundiais de lhe roubarem o futuro: "Como é que se atreveram? Vocês roubaram-me os sonhos e a infância com as vossas palavras vazias."

Ao consultório de Ana Gomes, psicóloga clínica, ainda não chegou nenhuma criança ou adolescente com estes sintomas. "Mas acredito que comece a surgir essa preocupação, que começa a entrar numa escala global", admite a professora da Universidade Autónoma de Lisboa.

Na sua opinião, as mensagens transmitidas nos media e na escola não são suficientes para que se desenvolva a ecoansiedade. "A ansiedade como resposta exacerbada a um perigo iminente é muito reflexo das dinâmicas familiares. É o exagero fomentado em casa. Quando entramos por aí, as crianças desenvolvem ansiedade exagerada à escola, aos animais, à comida." E agora ao ambiente.

É importante que as novas gerações estejam sensibilizadas para esta temática, considera a psicóloga, "mas a forma como é abordada - numa dimensão de catástrofe - desencadeia este descontrolo". "Se os pais transmitirem essa mensagem, desenvolvem-se estas ecoansiedades e outras", alerta, destacando que, ao mesmo tempo, transmitir a ideia de que "está tudo perdido" pode inibir a criança "de ter um comportamento adequado e ajustado". Sente que já não há nada a fazer. "Não serve de nada ter crianças informadas, mas ansiosas."

Para evitar esse alarme, a CPA encontra-se a desenvolver um manual de recomendações para os pais. Citada pela Reuters, Caroline Hickman diz que os mais novos se sentem traídos se os adultos não reconhecerem as suas preocupações em relação ao futuro, mas "não precisam de histórias de terror".

Mensagens que geram fobias e pânicos

Quem segue a série Big Little Lies, da HBO, já se cruzou com esta temática. Há um episódio em que Amabella, de 9 anos, tem um ataque de ansiedade durante uma aula, na qual a turma estava a falar sobre alterações climáticas. Preocupada com o fim do mundo, a menina entra em pânico e desmaia dentro do armário da escola.

Este pode parecer um caso extremo, mas não será assim tão incomum. Olga Reis, psicóloga da área infantil, não conhece nenhum caso de ansiedade relacionado com o ambiente, mas relata-nos uma situação que considera semelhante."Quando houve um acidente de autocarro em Espanha, a professora da minha filha deu a informação às crianças durante uma aula. Havia uma menina [de 6 anos] mais sensível que começou a vomitar. Teve um surto de ansiedade", conta ao DN.

"As crianças não são miniadultos", alerta Olga Reis, destacando que "a forma como passamos a informação é muito importante". "Por isso é que se defende que as crianças não devem ver as notícias. Não percebem as coisas. Isso pode gerar fobias ou pânicos", destaca.

Conselhos para os adultos:

- não falar sobre estes temas não é solução. É um assunto pertinente e deve ser conversado. Como o desconhecido gera medo, pode dizer que algumas espécies estão a desaparecer e que alguns humanos estão a ser prejudicados, por exemplo, mas não diga que vamos todos morrer;

- a sensibilização tem de ser feita de forma sensata, coerente, sem manifestar a ideia de catástrofe; deve apresentar os factos conhecidos, perguntar como se sentem e só depois mostrar que o futuro é incerto;

- usar uma linguagem adequada à idade das crianças, uma vez que os pais funcionam como tradutores da informação que ouvem na comunicação social e entre pares;

- dar espaço para partilharem as suas dúvidas e fazerem perguntas.

- não ridicularizar o que a criança pode manifestar como um medo e valorizar sempre o que tem para partilhar;

- sublinhar aquilo que é possível fazer para minimizar os efeitos das alterações climáticas. Se sentirem que podem fazer alguma coisa, há mais esperança. Pode, por exemplo, promover a reciclagem ou a diminuição da produção de resíduos.

Fonte:DN.pt

 

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